Parentalidade

Captura de ecrã 2013-12-28, às 17.13.56 PM

The reluctant father

‘And then there was my wife, Carla.

When Loulou was born, she vanished.’

Descobri este artigo a visitar o blogue Ma petite Princesse. Visitei o site e li as palavras deste homem. É raro ouvir a ‘voz’ dos homens sobre este assunto. Eu sei que todas as mães (eu inclusivamente) se queixam que fazem sempre mais que os seus homens, mas não me parece que seja por isso ou por falta de envolvimento, parece mesmo que os homens costumam expressar-se menos neste assunto.

Quando engravidei ouvi muitos conselhos, muitas mães recordando a sua experiência. É verdade que muitas me avisaram que a maternidade não era só um paraíso cheio de flores e passarinhos a cantar, tinha umas quantas dificuldades inerentes. Outras disseram só que era maravilhoso, lindo, que tinham imensas saudades e as dificuldades… pouco ocupavam a sua memória.

Não acho, nem me parece que haja exatamente uma versão correta ou mais correta. Mas acho que no geral a experiência é maravilhosa, linda, arrebatadora. E assustadora, aterradora, perturbadora.

Li as palavras deste homem e senti-me tocada. Para além de ter uma visão poética através da sua lente efeito ‘olho de peixe’ tem nas suas palavras a magia de quem sente com intensidade e verdade as emoções que correm nas suas veias. As suas palavras não exatamente novas, nem uma surpresa, pelo contrário, têm de especial serem tão comuns, tão iguais a nós, tão partilhadas por isto que é a parentalidade.

É pouco dito a forma como esta coisa do amor pelos bebés não é assim uma coisa imediata. Quando vi a minha filha pela primeira vez achei que ter uma coisa feita por mim (nós) era algo absolutamente mágico, assim ao nível do milagre, como diz o meu tio-avô de 84 anos. E achei que tinha de a proteger infinitamente. Senti-me apaixonada por aquela coisa que eu fiz e me pertencia, que de mim dependia. Mas não senti o amor incondicional. Culpei-me terrores por isso. Que a minha filha nem me merecia… E isso foi arrastando uma série de sentimentos misturados, mistos, novos, loucos. A minha mortalidade, como diz o fotógrafo, pensei pela primeira vez que ia faltar a alguém um dia. A minha mortalidade surgiu na minha cabeça. assim pela primeira vez. Senti-me esmagada. Esmagada com a grandeza de todos os sentimentos que me chegavam, novos, brutos, sem aviso. O meu marido olhava para mim e perguntava onde é que eu estava. ‘Vanished’. Era mesmo assim que me sentia. E como diz a Ana, do ‘Ma petite Princesse’, nós não voltámos ao mesmo. Tornámo-nos noutra coisa.

E sim, várias mães mo tinham já tentando explicar, cada dia gostamos mais deles. Mesmo quando isso parece impossível. Significa que as mães e os pais são uma coisa que os filhos vão construindo, como tão bem diz a minha mãe. Não, não é imediato e indolor. É um processo constante. Um livro infinito. E é por isso que ‘the reluctant father’ às tantas revela,

‘I look back at all these photographs, and see how they reveal my slow and inevitable metamorphosis.

From detached observer, to eager participant.

From photographer, to father.’

Assim eu me consagro, cada dia, um bocadinho mais mãe.

3 thoughts on “Parentalidade

  1. Que texto tão lindo… O seu e o do fotógrafo! Fui à procura do link original para ler o integral, obrigada pela partilha.

    É mesmo como diz, e adorei sobretudo a frase com que remata o seu post: “Assim eu me consagro, a cada dia, um bocadinho mais mãe”. Perfeito. Pela conjugação das palavras e sobretudo pela veracidade que as mesmas contêm.

    Por muito sábia que seja a Natureza e nos dote de instintos protetores para com as nossas “crias”, não nascemos ensinadas a ser mães. Durante a gravidez vamos construindo uma imagem mental dos nossos bebés. Com quem irão parecer-se mais, que traços de personalidade irão apresentar; a palavra que dirão primeiro; a idade com que desajeitadamente darão os primeiros passinhos; construímos muitas fantasias em torno dos nossos filhos mesmo antes de eles nascerem. Como se fossem projetos de design, quase; vamos fazendo mentalmente testes de caraterísticas físicas e comportamentais, experimentado as várias combinações possíveis. Inevitavelmente, projetamos neles um bocadinho de nós.

    Finalmente eles nascem e percebemos que aparentemente eles nos testam muito mais do que nós a eles. Por muito que dependam de nós, obviamente. É irrelevante aquilo que concebemos mentalmente. Agora eles estão cá fora e temos de lidar com isso. Com as boas revelações e as menos boas. Aquelas que são exasperastes, inclusive. Nós modelando-nos muito, inicialmente quase exclusivamente às necessidades deles. Amamo-los por serem nossos, mas não os conhecemos à nascença. Vamos conhecendo, hora a hora, dia após dia. E não podia ser mais verdade que cada bebé é um bebé. E cada mãe é uma mãe, e cada pai um pai.

    A nossa modelação ao novo ser é extremamente exigente, e por vezes podemos nem o sentir como “nosso”. Passou nove meses (se tudo correu bem) dentro de nós e quando nasce podemos senti-lo como um verdadeiro desconhecido. De repente eles são visíveis e tocáveis, tornando-se muito mais “reais”; têm agora um rosto, um cheiro, uma voz. Não estavam ali e de repente estao (às vezes não assim tão repentinamente, dependendo dos partos) e não fizeram nada para, nem pediram para estar.

    E nós que nos aguentemos à bronca. Sabemos que já não somos, nem voltaremos a ser os mesmos. A metamorfose já tinha começado, mas só começamos a vivê-la realmente quando eles nascem.

    Felizmente, gradualmente as exigências dessa adaptação à presença e às necessidades deles vai dando lugar a um desenvolvimento (das capacidades do recém-nascido e da relação mãe-bebé) e um processo de vinculação em que também eles nos vão conquistando. Primeiro por mero instinto, de forma não social e, em fases posteriores intencionalmente.

    Para os pais é talvez um processo diferente, a começar pelas diferenças no papel social e biológico, mas também pelo fato de que eles lidam com outro fator para além da presenças do novo ser: as transformações da sua companheira, que deixou de ser exclusivamente deles e se foca com uma intensidade brutal nesse novo ser, que absorve completamente a disponibilidade feminina. A esposa vai continuar a ser feminina, talvez ainda mais feminina (o que pode ser mais feminino que a fertilidade?), mas reconstrói-se como uma mulher que agora tem uma duplicidade de papéis e lida com intensas, por vezes agressivas mudanças emocionais, psicológicas e físicas. A sua visão do mundo não mais será a mesma, a sua forma de estar não será a de antigamente, e a prova física de tudo isso é o corpo que também jamais será o mesmo.

    E o homem também tem de se modelar a todas essas modelações. Em função desse novo ser e em nome da funcionalidade de uma nova família acrescida de um elemento que ao início tem tudo menos de “familiar”.

    Dia após dia vamo-nos todos conhecendo, (re)conquistando e construindo à medida uns dos outros. A vida é feita disto mesmo, de ciclos e metamorfoses, e a maternidade/paternidade também 🙂

    E vamos vivendo dias em que nos sentimos lagartas, na esperança de um dia virmos a ser lindas e esvoaçantes borboletas 🙂

    • Obrigada 😄 de facto sentia-me muito lúcida quando escrevi este texto. Acho que foi a primeira vez desde o nascimento da minha filha em que a lucidez superou o terror e a culpa. As suas palavras são de um grande conhecimento técnico mas também pessoal. É muito bom ouvir este percurso assim tão bem explicado nestes comentários tão completos.
      Beijinhos para essa família grande

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