Gerações

avozinha

A minha mãe diz que a minha avó se melhorou como avó e que agora se aperfeiçoou como bisavó. Começo a pensar que as mulheres vão evoluindo a cada geração que lhes acontece. Primeiro como mães, depois como avós e depois como bisavós. E desde que a minha filha nasceu a minha avó só tem sorrisos para ela. Até eu perdi um bocado da gracinha.

A minha avó é assim, muito de ideias fixas, das suas próprias opiniões. Claro que a podemos fazer mudar de ideias, mas temos de a convencer com argumentos muito convincentes. Caso contrário fica convicta e ninguém a pode demover.

Tem estado connosco cá em casa. Duas a três vezes por semana, durante a tarde. Fica com a caganita, eu estou sempre por perto, mas sempre vou pondo coisas em dia, voltei a pegar no trabalho, ganho umas 2 horas que não existiam nos meus dias, é delicioso. Este trabalho é partilhado com a minha madrinha que vem nos dias que a avozinha não vem. Tem sido a minha salvação mental que estava a sentir-me um pouco louca sempre com um bebé que só quer colo enquanto tratava da roupa, loiça, casa e comida, 7 dias por semana. Sim 7. Bem sei que ao fim de semana tenho cá o meu super homem, que é um querido e um ‘cheio de boa vontade’. Mas parece que todas as mulheres se queixam do mesmo, por muito que eles façam nós fazemos sempre mais. E à segunda feira parece que ainda há mais trabalho que nos outros dias. É o arrumar do fim de semana.

Estamos aqui as 3 hoje. Havia literalmente quilos de roupa por tratar. Era fazer máquinas de roupa suja, tirar roupa do estendal, pôr roupa a secar, dobrar e arrumar. Isto da chuva atrasa as tulhas todas de roupa. E enquanto a MR fazia uma sesta longa (que é coisa rara) começámos a dobrar e arrumar roupinha, as duas sentadas no sofá e a pôr a conversa em dia. As mãos da minha avó trabalham a um ritmo incrível e enquanto eu olhava para ela e imaginava as gerações de mulheres a tratar de roupa como quem lava sentimentos, diz-me a minha avó, ‘Sabes o que isto me faz lembrar?’ faz pausa. ‘Quando ia com a minha mãe lavar no rio. Depois era secar e dobrar a roupa’. E olhou para mim nos olhos com aquele olhar de quem partilha gerações e estórias… e história. De quem compreende muito mais do que aquilo que diz, aquele olhar que até parece que viaja no tempo. Minh’ avó.

Põe&Tira

Põe e tira e volta a tirar. Constantemente a fazer as mesmas coisas. Ora põe a mesa, ora levanta a mesa, faz e desfaz as camas, lava roupa, seca, dobra e arruma, desarruma, volta a lavar, suja loiça, lava, seca, arruma e desarruma, faz refeições, põe em caixas, frigorífico e volta à lavagem. Todos os dias passo as minhas manhã a arrumar a casa do desarrumo necessário que causam as dormidas, arruma robe, chinelos, sacode camas, puxa cobertores, despeja saco de água quente, trata da roupa na corda, põe loiça na máquina, toma pequeno-almoço, toma banho, prepara sopa do bebé, dá a sopa, muda a fralda, come em 5 minutos e só depois respiro… pouco, que são horas de dormir, outra vez, sim, esta mania compulsiva, incessante de dormir todos os dias, aproveito a sesta e vou preparar o banho, sim, mais uma vez, porquê banho todos os dias? E entretanto já que passo pelo quarto porque não dobrar a roupa que tirei do estendal? Mas ela já acordou, e bora lá buscá-la, vou mas é comer um chocolate que já estou sem fôlego, nem forças, e tenta ver tv, mas está chata, e espera, já são horas de lanchar, vamos a isto, e a seguir brincadeiras e bicicleta nas pernas do bebé para não ter cólicas. Já sujou a fralda, vamos mudá-la que são horas de fazer jantar e o pai a chegar, toma lá o bebé que eu tenho… de correr, a máquina da loiça já está pronta, comida na mesa, ela vai ao banho e papa e vai dormir e tira robes, outra vez????

E vou deitar-me e penso, amanhã será melhor, vou conseguir fazer alguma coisa. E penso que fiz mil coisas hoje, o problema não é a quantidade mas a qualidade, estou sempre a fazer as mesmas coisas, que desespero. E parece um jogo infernal, põe e tira e volta a virar, um jogo compulsivo em que só se pode fazer o que já alguma vez se fez, só a repetição tem ordem nesta casa. Tudo o resto vem para amanhã que nunca mais chega.

E para nos libertar deste ciclo vicioso fomos buscar o pai ao trabalho, mas o bebé estava impossível, zangado mesmo e dei-lhe a mão para que se acalmasse. Quando tirei não queria. Ficar no ovinho só de mãozinha dada com a mamã, e eu tudo bem, olha, felizmente a carrinha é automática e vou conduzindo, senão nem sei, e lá fomos nós de mãos dadas o caminho todo, inédito sim, pelo menos não era uma repetição. E eu a dar-lhe a mãozinha assim pensei se não era ela que me dava a mãozinha a mim, introduzindo este elemento novo e dizendo ‘não estás sozinha’.

Hoje

hoje_blog

Agora é assim, a madrinha e a avó vêm cá para casa durante a tarde para que eu consiga trabalhar. Preciso de pôr o trabalho em dia e confesso que tenho alguma vontade de me sentir sozinha (sinto-me tão mal quando penso estas coisas, amo a minha filha mas ao mesmo tempo começo a precisar de umas horinhas diárias para mim, confesso). E então propus à minha avozinha e à madrinha que alternassem uns dias por semana para fazerem o turno da MR. A minha avó aceitou logo com entusiasmo e a minha madrinha até se emocionou. Que tipo de pessoa é preciso ser para ficar emocionada com um favor que lhe é pedido? Só a minha madrinha. É assim de uma generosidade sem fim, maternal e carinhosa, emotiva e disponível como só ela sabe e poderia ser.

A MR hoje está zangada. Dormiu bem e está feliz, mas anda cheia de cólicas. Estava com os níveis de ferro em baixo quando fomos à pediatra e eu decidi dar-lhe um bocadinho de beterraba na sopinha… Grande asneira. A beterraba é um alimento riquíssimo em ferro. Lembram-se daquelas comparações dos alimentos às partes do corpo e àquilo a que fazem bem? Pois a beterraba com todo aquele vermelho, esta-se mesmo a ver, faz bem ao sangue, aumenta os níveis de ferro no sangue e com ele a concentração de oxigénio, limpa o fígado, etc., é quase só vantagens. A desvantagem é que prende os intestinos. E para piorar a minha filha é profundamente presa de intestinos. Já tive de lhe cortar a cenoura completamente porque a fazia sofrer horrores e agora está a acontecer o mesmo com a beterraba. Acho até que ainda é pior. É um sufoco vê-los sofrer assim, a contorcer-se de dores, seja pelo que for. No caso da MR são cólicas. Intensas e profundas.

Uma vez que pela sua idade já está condicionada a um número limitadíssimo de alimentos, acrescer estes proibidos pelas cólicas, complica ainda mais a situação. A minha tia que é médica teve uma boa ideia, uma vez que ainda dou de mamar, sugeriu dar os suplementos alimentares que ela precisa através do leite, quando ela não os pode ingerir diretamente. Significa comê-los eu e poupá-la assim das cólicas e etc. Assim, e ligando o início da estória, fiz o almocinho para as crescidas cá de casa (eu e a minha madrinha) com beterraba para me encher de ferro. Uma vez que estamos numa de controlo de calorias decidi fazer uma saladinha very light. E com very light não me refiro apenas a calorias baixas, é uma refeição saudável mesmo. E no fundo (e na superfície) é isso que é mais importante.

*

Ingredientes,

-salada-

.1 maçã

.1 banana

.1 beterraba

.1 batata grande

.1 chávena de chá cheia de alface lavada

.3 fatias de presunto

.2 ovos

.3 colheres de sopa de amendoins

.1 colher de sopa de bagas goji (poderosíssimas em antioxidantes)

.Sal e azeite q.b.

-molho-

.meia embalagem de queijo fresco para barrar light

.1 colher de sopa de molho de soja

.1 colher de sobremesa de mel

.2 colheres de sobremesa de vinagre de cidra

.1 colher de sopa de orégãos

.1 pitada de canela

Preparação,

Começamos por preparar o molho juntando todos os ingredientes e deixando no frigorífico. Colocar os ovos num recipiente com água ao lume para serem cozidos (3 minutos depois da água ferver, para ficarem malcozidos). Lavar muito bem a batata e colocá-la no micro-ondas com sal grosso e azeite, 20 minutos na potência máxima. Lavar a beterraba, descascá-la e cortá-la, colocá-la no micro-ondas com a batata a 10 minutos do fim (cozer a beterraba no micro-ondas e não numa panela com água vai permitir que esta conserve as suas vitaminas lipossolúveis e ao mesmo tempo se mantenha tenra e húmida). Lavar bem a maçã e cortá-la com casca para dentro do recipiente de servir a salada. Cortar para lá a banana descascada, colocar as bagas e os amendoins, o presunto cortadinho em pedacinhos e a alface. Juntar a batata e a beterraba já prontas, mexer tudo muito bem e levar à mesa. Os ovos vão descascados para a mesa e colocam-se um em cada pratinho. Depois serve-se a salada generosamente e por cima uma colher de sopa cheia do molho que estava reservado.

*

Como entretanto nos deu a fome (a tarde foi longa) decidi fazer uns Muffins que tinha num livro de receitas antigo, alterando ligeiramente a receita. O livro é ‘O pequeno tesouro das cozinheiras’, da Maria Irene Teixeira. A receita levava menos açúcar pois a ideia é servir um pãozinho levemente doce para barrar com manteiga ou compota. Eu coloquei um pouco mais de açúcar para ser comido assim sem mais nada. Mas servi com chá verde (para ajudar a eliminar toxinas e gorduras) e uma tangerina (combate gripes e constipações).

*

Ingredientes

.100 gr de manteiga

.200 gr de açúcar

.500 gr de farinha

.2 ovos batidos

.3 colheres (chá) de fermento em pó

.2 chávenas (chá) de leite

.1 colher (café) rasa de sal refinado

Preparação

‘Bate-se a manteiga com o açúcar e juntam-se a pouco e pouco os ovos já batidos, a farinha peneirada com o fermento e o leite. Misturar tudo bem sem bater.

Untam-se forminhas lisas, redondas e a direito, com manteiga e enchem-se até meio com a massa já preparada.

Cozem de 15 a 20 minutos em forno quente (250º). Dá 30 muffins. Servem-se quentes de preferência.’

*

Ficou tudo delicioso e ligeiro 🙂 Adorámos, repetimos, ainda deu para o Z quando chegou a casa e para o meu padrinho provar. Entretanto a pequena já comeu a papa e está na cama. Ainda sobrou um bocadinho da papa agarrada aos meus braços que agora me vou entreter a limpar…

Dias assim

Hoje foi o máximo.  Tinha uma consulta em Lisboa e lá fomos as 3, eu, a miúda e a minha madrinha.

Saímos de casa cedo,  demos a sopa em Lisboa, consulta acabada foi cafezinho com biscoitos, passeio por lojas de decoração,  passar o tempo em ihh’s e ohh’s, ir à Primark (ai quem me salva? E fui logo com fica tão doida quanto eu), trazer os maridos dos seus dias árduos de trabalho e terminar o dia em casa dos meus pais num jantar de semana a 7 🙂 Pela descrição seria de pensar que esta malta não faz nada da vida ou que está de férias,  mas não é o caso,  foi mesmo um daqueles dias especiais que aquecem a alma. E o coração.

Doentinhas e desanimadas decidimos espantar os males das constipações ao sol bom de inverno em plena cidade. Às vezes a melhor cura é mandar os vírus irem dar uma volta. Com sorte, metade ficam pelo caminho e não regressam a casa 🙂 E apesar de só ter 5 meses esta miúda emparceira imenso comigo. Faz-me imaginar a quantidade de coisas que vamos fazer pela vida fora (e dentro), daquelas que exigem cúmplice e entendimento. Olho assim para este bebé e vejo uma pessoinha a aparecer naquela sementinha que eu construí,  que fiz nascer e que me cativou para sempre no meu coração. Foi um dia maravilhoso,  especial e delicioso. Daqueles em que se revelam coisas e pessoas. E eu profundamente apaixonada, perdida neste mar de amor…

O melhor do meu dia

melhor_do_meu_dia_on

Depois de 32 assoos, entre os meus e os dela, de mal dormir, de estar sempre alerta e ter tratar de tudo na mesma como nos outros dias, chega o marido a casa, cedinho a comparar com os outros dias, vem bem disposto, põe o jantar na mesa e fica com a caganita. Respiro fundo e descanso um bocadinho. Tiro 45 minutinhos só para mim, frente ao computador a perder-me nas estórias e palavras dos blogs que adoro… 🙂

Snif…

Está doentinha a minha princesa… A primeira doença que tem e que temos de tratar. É só uma constipação felizmente, nada de grave, mas está toda entupidinha, tem imensa dificuldade em dormir e em mamar. Felizmente tem-se vingado nas sopinhas e papinhas, onde sempre consegue respirar entre colheradas. Este vírus começou com a minha mãe, depois veio para mim e lá foi para ela. Anda a correr as mulheres da família de todas as gerações, os homens foram poupados. Tem vindo a perder intensidade o que é bom, mas por via das dúvidas andamos todos a soro e anti-histamínicos, cada um na sua dose recomendada.

As noites são o pior, ela com imensa dificuldade em dormir e eu por arrasto, sempre a verificar a sua inclinação para respirar melhor, a pôr-lhe a chucha, a dar-lhe miminhos para a acalmar. Estranhamente nem estou muito cansada, presumo que quando isto tudo passar esteja pronta para dormir 24 horas seguidas (como se tivesse autorização para isso). Estou em alerta, acho que é isso. É só uma constipação, bem sei, ainda hoje a minha madrinha me contou como foi lidar com o filho mais novo e as suas constantes faltas de ar. Isso é seguramente bem pior. Mas olhar para aquela carinha rosadinha e entupida, aquele nariz a ressoar, uns olhinhos sempre humedecidos e vermelhitos dá assim um apertozinho no coração que dá vontade de a abraçar e com todo o amor contido naquele aperto espantar qualquer mal ali estacionado. Meu amor, meu coração…