sexta feira

É o que se chama uma ‘sexta feira 13’. Desta vez nem foi preciso o número para ilustrar.

Em vez de acordar às 8h, como costume, acordou às 6h. Isso alterou completamente o horário da mamada. Tínhamos uma consulta. Levámos a madrinha de arrasto que é uma querida e uma ajuda imprescindível. Acabou por ter fome à hora, quase, de sair de casa e eu, claro, tive de lhe dar de mamar. Quando mamou estava distraída com a minha pressa e começou a palrar em vez de mamar. Normalmente teria insistido, mas depois de já termos passado a hora de sair de casa acabei por decidir pegar nela e ir para o centro de saúde. Chovia torrencialmente, fez trovoada, foi o dia que em Lisboa caiu granizo feito neve. O meu marido teve de ajudar um colega a ligar o carro que foi abaixo com o radiador congelado.

O centro de saúde fica no meio da cidade, sem qualquer parque perto e com hipóteses de estacionamento muito reduzidas. Nos dias de chuva intensa essas hipóteses ficam ainda mais reduzidinhas… A minha filha teve de ficar num centro de saúde diferente do meu. É uma estória complicada. Eu estou registada no centro de saúde da cidade onde sempre vivi, até à 4 anos atrás. Na altura atualizei a minha morada e pronto. Mas o centro de saúde tornou-se uma USF, significando que não pode aceitar mais ninguém que não seja expressamente da lista de freguesias que serve. Ou seja, quando a minha filha nasceu não podia ser lá inscrita pois não era residente nessa lista de freguesias, apesar de ser do mesmo concelho. Ora o meu marido estava no centro de saúde da sua antiga residência com um médico de família atribuído. Disseram-nos que não sendo essa uma USF poderíamos inscrever lá a MR. A outra opção seria inscrevê-la no centro de saúde atribuído à nossa freguesia mas teria de ser inscrita com um dos progenitores. Pois para nos inscrevermos nesse centro ficaríamos na lista de doentes sem médico atribuído o que nos fez pouco sentido uma vez que nos considerávamos bem servidos a esse nível. Pensámos então em ir inscrevê-la com o pai mas quando lá chegámos disseram-nos que se atualizassemos a morada do Z ele seria transferido para o centro da sua residência na tal lista de doentes sem médico. A MR só seria lá inscrita se déssemos a morada dos meus sogros, a morada antiga do Z. Bom… e no meio disto tudo foi assim que fizemos. Enfim, no fundo a solução possível num sistema que desvirtua completamente o verdadeiro conceito do médico de família, num país com carência de médicos em todas as áreas.

Voltando à estória inicial, quando finalmente chegámos ao centro de saúde, com a chuva, a mamada fora de horas, a falta de estacionamento prioritário, fez com que nos atrasássemos 25 minutos. Foi mau, péssimo, vergonhoso. Detesto atrasar-me assim, e com a MR tem acontecido algumas vezes. Mas nunca tanto tempo numa consulta. Cheguei lá afogueada e não havia senhas, tivémos de esperar pelo segurança, por fim chegámos à receção. A senhora que nos atendeu diz-nos alto e bom som que o médico não nos vai atender porque nos atrasámos. Podemos portanto ir para casa. Fico meio perdida sem saber o que pensar nem o que dizer. Recordo-lhes que já esperei 1,30h por uma consulta marcada. Eles dizem que nada a fazer, as consultas estavam a cumprir horários portanto podíamos ir para casa. Nem no final nos atendiam, era um não redondo sem direito a resposta nem negociação. Fiquei surpresa, irritada, humilhada. Pensei no que ia fazer, pedir o livro de reclamações, ir embora… Suspiro… Com chuva, desgosto, almoço a aproximar-se, acabei por decidir vir para casa.

Fui fazer a sopa da MR com carne pela primeira vez. Tinha experimentado maçã há 2 dias e ela tinha-se engasgado, tinha de introduzir este ingrediente muito bem passadinho, Fiz a sopa, triturei tudo, ela já estava impossível, entra no carro, sai do carro, chuva, a minha irritação, as duas sozinhas a tratar da sopa, eu preparava ingredientes, ela chorava. Ia com a minha madrinha buscar o meu padrinho ao aeroporto, acabei por não conseguir. Novo suspiro. Lá acabei a sopa, ela desesperada. Percebi que a sopa não estava bem triturada no meio da pressa. Liguei ao meu pai,pedi ajuda, que viesse para cá por favor. O meu pai lá veio. Acabei a sopa, dei-lha, não gostou. Assim, cheia de fome e recusou-se a comê-la. Tinha de fazer outra. Lá fui eu a correr, o meu pai com ela no colo a passarinhar… Lá comeu (em 40 minutos) a sopa nova. Aquilo tudo acabou pelas 15h, parecia que tinha passado um dia inteiro. Lembrei-me que ainda não tinha comido nada. Também não tinha nada em casa porque ainda não tínhamos feito compras. Comi uma pratada de papa cérelac (essas agora nunca faltam) para pequeno-almoço, almoço e lanche.

O meu pai lá nos deixou sozinhas e eu lá contei os minutos (foram tantos) até o maridão chegar e render a minha guarda. Mas mal chegou já eram horas do banho e depois papa e depois adormecer. Vá lá que deu para vermos um filminho que nos tinham recomendado enroscadinhos no sofá para entrar no fim de semana em beleza. No dia a seguir acordei com uma constipação brutal. Aproveitei, como sempre sermos 2 para 1 e tratei de máquinas de roupa, loiça, secar roupa, dobrar, arrumar… Domingo ainda fomos trocar prendas de Natal. Quando o fim de semana acabou fiquei com a sensação de que precisava de um dia para descansar do fim de semana. Disse um dia? Por favor, precisava de um fim de semana…

Não me entendam mal, esta coisa da maternidade é mesmo uma experiência linda, com tudo o que há de melhor. E de mais difícil. É como se tivéssemos de deixar de existir para permitir a uma criança a sua existência. E os primeiros tempos resumem-se basicamente à luta pelo razoável desse meio e bom termo. E por isso fico-me assim, apaixonada e exausta. Tudo ao mesmo tempo.

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