Na ordem do dia

Não disse nada sobre este assunto até agora. Nem me apeteceu dizer. Assisti a isto sabendo a notícia pelo fim, sabendo os pormenores depois, como o resto do país. Fiquei horrorizada e tanto foi dito que eu achei que não tinha mais nada a acrescentar. E não tenho na verdade. Sempre detestei praxes. Nunca fui a praxes, nunca me interessaram. Sei que há pessoas que ao ler isto teriam muitos comentários, ‘Porquê?’, ‘Mas há praxes inocentes’, etc. Pois, não é a minha cena ou lá como se diz.

O meu marido, a única pessoa com quem tenho discutido isto, mostrou-me esta manhã um texto que nos comoveu aos dois. De tão bem escrito que está, de tão inteligente. Por defender aquilo em que acreditamos. Não resisti, tive de ir conhecer aquela pessoa, ler as coisas que diz. Fiquei positivamente surpreendida. Pelos vistos ele também se surpreendeu pelo quanto o seu texto se tornou viral. E escreveu um texto defendendo-se, dizendo que ele, quem toda a gente julgou espetacular, tinha as suas falhas. E com esse texto ainda se elevou mais (este homem é espetacular).

Achei-o tão parecido com o meu marido, naquela irreverência, na falta de auto-controlo, no carinho sob uma pele de um casmurro. Adorei, adorámos. Aquele carinho que a família partilha, a forma como fotografa a sua mulher de forma apaixonada, os olhos que veem aquele miúdo… E então tive de fazer este post. Para que leiam o que este homem disse. É uma lição de amor. Um abraço em forma de texto. Uma ternura. Vejam bem, aqui.

4 thoughts on “Na ordem do dia

  1. Obrigada pela partilha! Este texto é essencial para se pensar o fenómeno das praxes. Está extraordinariamente bem escrito e diz o que é difícil dizer. As praxes existem, são rituais de iniciação e deve ser suposto que são práticas organizadoras, de integração, de passagem de valores, mas sobretudo de afirmação e confirmação de estatutos. É bom que nos demoremos um pouco aqui. Esta afirmação /confirmação de estatutos, numa dinâmica de obediência vs submissão, i.e., o reforço e imposição de uma hierarquia em que o superior é tudo e o inferior é nada, é o leitmotiv das praxes e dos rituais de iniciação. Isto só por si já deve fazer-nos pensar nos ganhos que a comunidade integradora e os membros integrados adquirem nestes rituais.
    Devemos pensar se as praxes trazem ou trouxeram algum ganho àqueles que supostamente estão a ser integrados (conhecimento, esclarecimento, formação, transmissão de valores, capacidades não adquiridas até então) e também à comunidade integradora que supostamente se deveria tornar melhor, mais capaz e mais rica com a integração dos novos membros.
    Por fim, o objetivo final destes rituais é conferir uma identidade distinta e separadora do grupo relativamente aos outros grupos, numa dinâmica de nós/eles em que eles são todos os outros que não pertencem ao nós. Em que nós somos os bons, ou os melhores e os outros os maus,ou os piores. Este processo de criação /afirmação de sentimentos de pertença, quando não têm como base a transmissão e partilha de valores sólidos, refletidos e altruístas, pode desenvolver-se numa lógica de oposição e antagonismo, superioridade/inferioridade que tão bem conhecemos e não pode de modo algum trazer ganhos a ninguém. Mas perdas, sim, pode trazer, como tragicamente percebemos pelo incidente na praia do Meco.

    • Mesmo. Concordo. Infelizmente estes rituais perderam o controlo e o bom senso. São espaços de ajuste de contas, de demonstrações de poder com jovens e hormonas descontroladas. É, sem dúvida, uma pena. Sobretudo quando tem consequências graves e irreversíveis.

      beijinhos grandes

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