Este é um post sobre arquitetura

Trabalhar_com_Arquitectos_Frases

Esbarrei com esta reportagem há poucos dias, através de uma amiga. Não conhecia o fotógrafo, vi, revi e vi as suas outras reportagens. Parece que este fotógrafo tem muito que contar e vale a pena dar uma olhada. No seu caso há imagens que valem mesmo mais de 1000 palavras. E por isso acompanha as suas fotografias de explicações muito sucintas, deixando que a objetiva nos narre uma estória.

Aquela que me prendeu foi a ‘The Condo’, o condomínio privado ‘Bella Guarda’ em Vila Franca de Xira, inacabado por insolvência da construtora. Como tantos outros espaços abandonados pelo país fora este condomínio foi alvo de ocupação por pessoas que se viram sem outra hipótese nem saída. Os novos sem-abrigo têm abrigo. Vivem em condomínios de luxo, inacabados, sem portas nem janelas. Parece a triste canção do Vinícius de Moraes,

‘Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque pinico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na rua dos bobos
Número zero’

O próximo número da revista arqa (revista de arquitetura e arte) será dedicado às ruínas. As ruínas que já foram uma afirmação estética no romantismo agora povoam as cidades por falta de dinheiro e oportunidade para serem recuperadas. Quando estão livres do perigo de queda eminente são invariavelmente ocupadas por pessoas que se viram presas neste pior lado do sistema. Invariavelmente vemos estes espaços devolutos com os vãos violentamente fechados em tijolo e argamassa. Mas a novidade são estas ruínas da crise financeira, não são prédios devolutos, são construções inacabadas. Ninguém fecha os seus vãos com tijolo porque às vezes nem há paredes. Os vão são fechados com restos de madeira, lençóis ou pedaços de plástico pelos novos moradores, apenas para evitar que a chuva entre. Nas piscinas dos condomínios de luxo lava-se agora roupa. Estamos perante um novo tipo de ruína que é um bocado como a pescada, antes de o ser já o era.

Recentemente a Ordem dos Arquitetos lançou uma campanha incentivando o trabalho com arquitetos. A mensagem era simples e muito clara, ‘Olhe à sua volta. Ainda acha que não precisa de um arquiteto?’. E viram-se muitos cartazes fixados em espaços devolutos ou de baixo interesse arquitetónico, mas não vi imagens desses cartazes nestes edifícios. E a pergunta é pertinente, ‘Ainda acha que não precisa de um arquiteto?’

Claro que estes prédios em esqueleto, qual imagem de uma população subnutrida, os seus ocupantes à margem do sistema, não são, não estão dependentes de 1 nem 1000 arquitetos que os salvem. Mas provavelmente será altura de reunir autarquias, sociólogos, psicólogos, antropólogos, mecenas e arquitetos e discutir o que fazer com estes espaços. Saiu no público uma reportagem que anunciava que as casas vazias em toda a Europa facilmente poderiam ‘albergar todos os sem-abrigo do continente’. Num episódio do programa de carros britânico ‘Top Gear’ houve um episódio em que os testes dos carros decorreram numa cidade, em Espanha, fantasma. Era uma cidade inteira construída, cheia de casas terminadas, com direito a aeroporto e tudo, completamente deserta. Nunca antes habitada. O cenário fica mais frio que o dos filmes western, não se trata de uma cidade abandonada, trata-se de um espaço à escala de uma cidade que foi pensado, desenhado, planeado e construído para uma população que nunca chegou a aparecer.

O novo conceito de ruína antecede a vida do edifício. É um nado-morto. Uma tristeza, uma infelicidade. A ruína é agora o edifício em esqueleto, como o condomínio em Vila Franca de Xira. Não podemos dizer que não se podia prever, mas seguramente construtores falidos e ocupantes destes espaços sem condições foram surpreendidos e ficaram presos neste lado negro do sistema. Uns mais que outros, seguramente. Mas agora que aqui estamos urge pensar, o que fazemos? O que fazer com isto? ‘Olhe à sua volta’

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