Maria Rita

Maria Rita

Quando a MR nasceu eu fiquei bastante em baixo. Tive uma gravidez fabulosa neste aspeto psicológico, sentia-me bem, invencível, sentia-me completa e capaz. Mas 2 dias depois de retirarem aquele serzinho delicioso, delicado, frágil, linda (como ela era linda desde o segundo em que nasceu!), comecei a ficar em baixo, em baixo, em baixo e acho que só agora me estou a recompor. Choros por tudo (e por nada), cheia de medos de tudo, dela, de mim, de nós. A incapacidade de cantar até ela ter uns 3/4 meses. A novidade de ter um bebé e ter de construir pais para ela… sei lá, não foi fácil.

A minha sogra diz que bom mesmo é ter bebés no fim do inverno, que assim que eles começama ter idade para sair à rua vem a primavera e é perfeito. Eu achava que a altura perfeita era a primavera ou o verão, mas confesso que já me rendi à sua versão. Acabamos por só sair com os bebés quando eles entram na fase dos 2/3 meses. Quem tem bebés na primavera chega a essa idade no pico do verão e dificilmente consegue estar na rua, de dia é o calor exagerado e de noite as melgas, etc. Quem tem bebés no pico do verão também não é melhor porque quando chega a essa altura entra a época das chuvas e o frio vai chegando. Nascimentos no outono também não é maravilhoso porque as primeiras saídas são à chuva e quando são horas de começar a sair à rua ainda é inverno. E assim chegamos à estação perfeita, o inverno. As primeiras saídas são um pouco mais chatas, mas os bebés gostam de estar aconchegadinhos com mantinhas e quentinho quando está frio lá fora. O que não gostam é do calor insuportável. E pronto, depois lá vem a primavera, os primeiros raios de sol a aquecer as tardes de Março e os dias de Abril e os bebés vão gozando o bom tempo que vai acompanhando o seu crescimento.

Com isto tudo dizia eu, que não conseguia cantar à minha filha. Fiquei em baixo. Tudo me deixava em pânico. Cantar entristecia-me. E ouvir música não era melhor. Não havia nada que não me deprimisse imensamente… E assim os primeiros tempos foram silenciosos. A única coisa que eu conseguia ver eram anúnicos a iogurtes, detergentes e shampôs. Às vezes uma ou outra série de tv muitíssimo superficial, mas se um avô vinnha visitar a família de fora, ou a filha mais velha acabava com o namorado eu sentia-me capaz de desatar num pranto. Talvez achem exagerado, mas enfim, foi um bocado assim que me senti.

Esta semana que passou, entre a Páscoa, o bom tempo e o mau tempo acabei por ficar com a caganita um bocado mais sozinha, por não podermos ter a companhia de quem estava de férias ou de quem estava de ressaca de constipações. Não sei se foi isso ou se foi o termo-nos todos constipado cá em casa também, ou ainda a velha desculpa dos dentinhos. A verdade é que a miudinha andava chatinha, irritada, sem paciência.

Desde adolescente que corto o meu cabelo. E tirando uma vez que a coisa correu menos bem, as outras todas tiveram resultado aprovado. No geral, sempre cortei o cabelo numa altura em que precisava de um corte. De cortar com algo, ou iniciar uma nova fase, ou encarar algo com uma nova perspetiva, percebem as metáforas? Enfim, sempre resultou muito bem. Pois a minha filha tem um cabelo imenso, farto e enorme (dada a sua idade) e achei que estávamos mesmo a precisar de um corte. E com este espírito peguei na tesoura de pontas redondas e vai disto, um corte atrás (onde o cabelo se enrolava nos fechos e botões da roupa) e dois corte um de cada lado, junto às orelhinhas (onde se enche sempre de sopa e papa…).

O nome da minha filha é uma homenagem à minha avó, Rita. Esta composição de Maria Rita surgiu-me quando ‘conheci’ a cantora, filha da Elis Regina, assim, de pele branquinha e cabelito aos caracóis, e pensei, ‘Esta mulher podia ser minha filha… Tivesse eu mais uns 20 anos, talvez.’

E de repente, aquele corte, aqueles três bocadinhos de cabelo a menos tornaram-na mais leve. Parecia que até o número de tesouradas era apropriado, um reforço da simbologia do número 3, o facto de sermos 3, não sei… A verdade é que olhámos uma para a outra, trouxe-a até à sala Peguei no CD duplo da Maria Rita em que ela canta a sua mãe, e fui direita à faixa ‘Romaria’. Selecionei o ‘repeat 1’ e ouvimos durante uma hora aquela música, trocando olhares cúmplices, mimos, brincadeiras e suspiros lânguidos. E naquele momento a nossa relação foi absolutamente recíproca. Não estávamos a ver o baby tv, nem a cantar ‘Lá na quinta do tio Manel’, nem a dar-lhe comer ou mudar uma fralda. Não estava a tentar entrar no mundo dela. Convidava-a a entrar no meu. Eu partilhava um profundo prazer pessoal com a milha filha. Romaria, pela voz de Maria Rita.

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