Simplesmente

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A pediatra já tinha dito que ela era muito mexida. Bom, não era preciso ela dizê-lo. A questão é que o facto de o ser fazia com que, por exemplo, desenvolvesse a linguagem mais tarde, provavelmente. Ou por exemplo, pudesse ser menos amante de mamar. Realmente a miúda nunca foi muito comilona. E quase não dorme de dia. Felizmente aterra de noite dorme ali umas 10 horas sem se dar por ela…

A questão é que cada vez mais estava difícil mamar… Ela mexia-se imenso, virava-se para todo o lado, tinha fome na mesma, depois sentava-se, depois levantava-se, ela cansava-se eu cansava-me… suspiro… De tarde deixou de resultar e passei a dar de mamar só de manhã e à noite.

À noite é espetacular, está a dormir, nem acorda, e a coisa corre bem. Mas desde ontem que de manhã já não conseguiu. Quer dizer, já não quis. Custa tanto dizer esta palavra assim. Parece que carrega um bocadinho a ideia de rejeição.

A verdade é que toda a gente tem uma teoria sobre quando deixar de dar de mamar e para mim seria quando deixasse de fazer sentido. Ou seja, quando nós assim o decidíssemos. Se tudo corresse bem seria algo feito com naturalidade, entre mim e ela. E foi. Progressivamente fomos suprindo refeições e por agora ainda mantenho a mamada da noite. Até deixar de ter leite ou até ela achar que já não lhe apetece.

Assim, simplesmente. Sem leite em saquinhos, nem leite de substituição, nem mais nada… simplesmente.

Vergonha

Quando engravidei sentia-me plena. Assim… como se tivesse o rei na barriga. E quem tem o rei na barriga não precisa de mais nada nem de mais ninguém. ‘Eu consigo’ parecia ser o meu pensamento constante. E sonhava imenso… Sonhava que vinha lá um tsunami (um dos meus maiores medos) e que eu começava com dores de parto, então, antes do tsunami chegar eu tinha a bebé sozinha, cortava o cordão umbilical com os dentes (desculpem lá pela imagem), pegava na criança recém-nascida e ainda tinha tempo de desatar a correr e fugir da ‘onda’. Acordava surpreendentemente reposta, com a sensação de dever cumprido, de que perante o pior cenário eu tinha uma solução, que até tinha resultado e tudo, bolas!, eu era CAPAZ!

A criança nasceu e, de um dia para o outro, eu sentia-me para o mundo como a amiba para o universo. Sentia-me pequenina, vulnerável. Sentia-me… vá, deprimida. Sim não há outra forma de o dizer. Desde que a MR nasceu que fui sentindo hora após hora que não estava bem. Como se não aguentasse o tamanho dos sentimentos que me inundavam. Os bons e os maus. Como se fossem tão grandes que de repente eu me tornava pequena demais para eles. Para eles caberem em mim.

O ponto alto deste estar em baixo foi quando comecei a ler blogues que a minha madrinha me ia sugerindo, de recentes mães que essencialmente partilhavam as suas experiências, e de repente decidi. ‘Vou escrever um blogue’. E pronto, cá estou eu. Ajudou-me imenso, quer a soltar e espantar os meus fantasmas como a ouvir a opinião de outras mães nos meus comentários e conhecer outros blogues com partilhas tão diferentes, tão idênticas e tão reconfortantes ao mesmo tempo.

Nos últimos posts que escrevi Trabalho e Hipocondríaca e outros medos recebi alguns comentários de incentivo e discussão de ideias (que bem que sabem), e referia a Marta, do Passinho a Passinho que há alguma vergonha no não ser capaz de dar conta de todos os recados em casa enquanto se está com o bebé. Como se pelo facto de estarmos em casa tivéssemos inequivocamente tempo para tratar de loiça, roupa, camas, chão, ah!, é verdade bebé, e ,enfim, de certeza que em vez de perdermos tempo a ver televisão ainda conseguiríamos trabalhar alguma coisa. A questão que refiro aqui já nem se prende com o facto de ser possível ou fácil ou difícil fazer isto tudo, trata-se dessa vergonha que sentimos.

Ainda quando estava na maternidade, no segundo dia, comecei a chorar e não conseguia parar. Entrei na casa-de-banho e quando a pediatra chegou para fazer a avaliação da MR eu não saí porque estava cheia de vergonha. Vergonha que me vissem assim. A mesma vergonha que a Marta falava sobre não conseguir ter a casa arrumada sem ajuda de alguém que lá fosse tratar SÓ disso. Ainda na gravidez percebi que ia precisar de ajuda para a casa e tratei de a pedir, mas confesso que quando me vieram as lágrimas aos olhos na maternidade só me consegui esconder.

E não sei se era só uma questão de sair da casa-de-banho e pedir ajuda porque há realmente ainda um grande estigma perante como a mãe se deve comportar ou o que é aceitável ea partir de quando é ter falta de capacidade de controlo ou de organização, etc.

Sim, antes de ter a MR tinha muitas opiniões sobre muitas coisas relacionadas com bebés e maternidade. Hoje quando me lembro de algumas só me apetece ligar a algumas amigas que foram mães antes de mim e dizer ‘Desculpa o que pensei de ti’. E efetivamente cheguei a fazê-lo.

Infelizmente contam-se pelos dedos de uma mão as mulheres, experientes ou não, que conseguiram ajudar nestes meus sentimentos, ou dar-lhes sentido. Parece que a sociedade aceita o ‘Pois é, é assim. Calha a todas, agora calha-te a ti.’ como se não fosse preciso resolver, falar, pensar estar atento a estes sinais de cansaço, desespero, etc.

A expressão ‘os homens não choram’ não é algo que seja exigido aos homens apenas, a vergonha do choro, do não ser suficiente, é algo que alimentamos socialmente e parece que é suposto sermos personagens planas de um livro, capazes de passar pelos acontecimentos da nossa vida sem que estes nos mudem, nos alterem, nos deixem felizes ou deprimam.

Bom, não tenho vergonha, confesso-o, não sou coerente. Já disse coisas que mais tarde ‘desdisse’ (sem que me arrependa de as ter dito em primeiro lugar), e já pensei coisas com toda a convicção disponível em mim das quais hoje quero distância. E por isso da próxima vez que tiver um filho choro onde tiver que chorar. E não para dar uma lição a ninguém nem para mostrar ao mundo que o quero mudar ou ser superior na minha humanidade. Simplesmente para ser fiel a mim e assim poder lidar melhor com os meus sentimentos difíceis o suficiente sem ter de estar a tentar lidar também como o que sinto sobre os meus sentimentos.

Faz sentido? Penso que sim. Mas se por acaso na altura decidir de outra forma não me envergonharei disso também. Só espero que as minhas decisões me encaminhem no sentido de mudanças e alterações positivas. E mais não posso fazer…

Trabalho

Esta coisa de conjugar trabalho é complexa. A mãe trabalha. Trabalha não remunerada, trabalha um exercício invisível aos olhos (dos outros) que chegam a casa dela e vêem tudo arrumado (e então que trabalho é que houve?) ou vêem tudo desarrumado ( e claramente passou o dia sem fazer nada) e qualquer cansaço visível fica irremediavelmente com o selo de ‘coisas de mães’ ou ‘pois é’…

Desde que a minha filha nasceu que estou em casa com ela. Não é uma novidade no mundo. Tantas mulheres já o fizeram, tantas o fazem, tantas farão… Gostaria muito de conseguir ficar com ela em casa até aos seus 3 anos. Acho que os bebés merecem isso, e se os pais se conseguirem organizar nesse sentido é um luxo sem preço. Acontece que desde que ela nasceu que trabalho. Sim, é certo que não trabalho 8 horas por dia, mas trabalho. Não só como mãe, mas como arquiteta, com e em projetos que exigem de mim muito mais do que consigo dispor.

E mesmo com ajudas o tempo não é suficiente. Como é isso possível? Pode dizer-se que existe tempo insuficiente? Pois para mim sim. Sinto que perdi o controlo da minha casa, da minha vida. Ando sempre a correr atrás de algo. Acordo e vou a correr dar um jeito à casa, trato dos nossos pequeno-almoços e vou a correr arranjar-me, vou a correr tentar responder a e-mails e a correr tratar do almoço dela, almoço a correr e trabalho concentradíssima despachando mais serviço em meia hora que noutra altura da vida em 3, vou tratar dos jantares a correr, banho da caganita, e enquanto o pai a deita lá venho eu para o meu computador. Trabalho o mais que posso, deito-me tardíssimo, na esperança que o dia estiiique, mas só encurto a minha noite. E quando dou por mim estou a ir dormir a correr. Acordo como se tivesse sido atropelada por um camião…

Faço tudo a correr, o que posso, para conseguir estar calma e a desfrutar do tempo em conjunto com ela. Tudo por ela sem me esquecer de mim, de nós, do trabalho. E no fim do dia vou sempre roubar umas horas do dia seguinte alimentando esta ilusão de que o meu dia tem mais de 24 horas.

Talvez não seja o tempo que falte. Talvez eu me falte. De uma forma que remuneração nenhuma podia compensar. E não é novo. Todas as mães o sentiram já, tantas o sentem, tantas o sentirão. Só para mim é que é novo. E enquanto me habituo, conformo ou encontro a melhor vista deste cenário, vou experimentando todas as cadeiras da orquestra. A ver se descubro a minha melhor participação neste concerto.

E por hoje é tudo…

Hipocondríaca e outros medos

Quantos posts não comecei com as palavras ‘Quando a minha filha nasceu…’? Pois bem, não fosse este um blogue criado justamente pelo nascimento da minha filha e isso poderia não fazer muito sentido. Mas a verdade é que desde que ela nasceu que experienciei todo o tipo de sensações fortes, desesperadamente gigantescas, acho que é mais por aí, e esta coisa de escrever sempre me aliviou um pouco os sintomas. Sim, porque não são só as sensações más que precisam de ser aliviadas, há estados de felicidade que chegam a ser tão fortes que quase nos fazem sentir desmaiar… é bom aligeirar esses também.

Nesta fase todas as dores de cabeça são imensamente sentidas, todas as borbulhinhas do bebé são seguidas milimetricamente, todos os ataques de tosse do marido nos levam a visitar 5 especialistas… Tudo é uma dor de alma… Bom, e em boa verdade se diga, ‘antes’ (da maternidade) sim, tinha alguns receios, mas do que me consigo lembrar ao pé disto podia ser considerada uma descontraída…

Será que a natureza nos põe neste estado de alerta pós-maternidade por prevenção? É assustador… Porquê natureza, porquê? Eu conseguiria estar alerta mesmo sentindo um pouco menos de pânico, mas parece que não há natureza que me dê ouvidos e por isso terei de encontrar outros métodos de sobrevivência.

Felizmente o fim de semana chega. E as consultas com a pediatra são amiúde. E pelo menos alguns medos vão-se dissipando. Mas esta fase da maternidade, por mais deliciosa que seja, fica assim sempre manchada com uma nuvem cinzenta pairando na paisagem. Há sempre uma imagem linda que todos vêem e só a mãe parece estar preocupada com a nuvem, ‘E vem lá chuva? Ou se é frio? E se fizer sombra? Ou se a sombra não for suficiente?’

Enfim, e confesso que um dos meus maiores desejos era ter 3 filhos. À partida acharia mais que isso demais (do ponto de vista da logística, da gravidez, da disponibilidade), e menos teria, à partida, a sensação de ainda não estar completa. Por isso temos uma carrinha de 7 lugares. Comprámos quando estava grávida e a ideia era servir para a família que se adivinhava. E claro que quando nos vejo aos 3, não acho de todo que nos falte nada (que bom!), mas ainda tenho o desejo dos outros 2 🙂 (que bom também!) Há uns meses anunciei ao meu marido que já estava disponível para a ideia de mais filhos (depois da MR nascer esse pensamento só ocorria em pesadelos), mas no fim de semana passado a descrever o dia do parto à minha prima comecei a sentir-me desmaiar. Talvez não esteja assim tão pronta. O mais difícil desta coisa de fazer filhos não será arranjar lugares na mesa de jantar nem tão pouco no carro. O medo que sentimos por eles, a sensação de lhes querermos dedicar toda a nossa vida é, até agora, a coisa mais difícil de gerir. E não passa, presumo, à medida que vamos tendo mais filhos, apenas acumula esse sentimento de responsabilidade para a sensação de nos desdobrarmos em 1, 2, 3 ou quantos bebés sejam.

Por agora, vê-la crescer é delicioso. A cada coisinha mais que faz, que conquista, mais vou tranformando aquela nuvem cinzenta em elemento participante da paisagem. Porque esta deve ser rica, não é um desenho com metade relva, metade céu e uma casinha ao meio. É um prado real. Com flores e coelhinhos, catos e pedrinhas, chuva e sol, lobos e cordeiros… E de repente, à medida que ela se torna mais participativa, também essa paisagem deixa de ser uma imagem, um cenário ou um lugar e passa a ser um caminho. Um caminho que eu percorro com ela a guiar-me. ❤

ba-bá

Quando a minha filha nasceu fiquei a olhar para ela em pânico (depois de todos os choros e entusiasmos gerais) e só consegui pensar ‘E agora, o que é que eu faço?’ Fiquei tão nervosa que cheguei mesmo a fazer a pergunta a uma enfermeira. Ela ficou estupefacta a olhar para mim, ‘Como assim?’ Eu insisti, ‘O que é que eu faço? Como é que ocupo o tempo?’ A enfermeira não percebeu ou não acreditou que eu lhe estava mesmo a perguntar como é que ocupava o meu tempo. Tinha um bebé nos braços que não fazia grande coisa. O que é que era suposto eu fazer? Como é que geria a minha vida com tarefas? Estava verdadeiramente perdida a esse nível. Mas a única coisa que ela conseguiu responder foi lançar-me a pergunta, ‘Então, não foi planeado?’

Bom, talvez seja por essa necessidade que sempre tive, que a minha filha fizesse qualquer coisa, que me levasse a agir, que quando ela ficava simplesmente parada me sentia imediatamente sem saber o que fazer, ‘Ela está parada a olhar para o teto. O que é que eu faço? Fico a olhar para ela? Falo com ela? Olho para o teto também?’. Talvez por isso a partir dos seus 3 meses tenha descoberto os movimentos e não mais parava. Desde essa idade, mesmo no nosso colo, parecia uma enguia. Mexia-se, esperneava, encostava-se, atirava-se, repetia tudo e não parava… O meu desejo tinha sido concedido, aparentemente, ela já não ficava ali, ficava em todo o lado… Se calhar se chorasse sem parar não pensava estas coisas… Provavelmente nem me conseguiria ouvir pensar…

E sei que há quem adore recém-nascidos e não entende este meu desespero, mas confesso que recém-nascidos só gosto dos meus. Eu explico, é que pelo menos posso amar o meu bebé. Os bebés dos outros nem por isso. E realmente acho que não sobra mais graça nenhuma aos recém-nascidos. Claro que gosto deles, mas no geral não têm interesse. Não falam, não brincam, pouco reagem, são frágeis, não se percebe o que têm, têm cólicas, não nos entendem, enfim… É uma dor de alma.

E parece que à medida que ela foi crescendo eu fui progressivamente ficando mais calma (e a desejar que ela fique mais calma também) e mais entusiasmada. Ora porque já sorria, ou já fazia cu-cu, ou porque agarra coisas, ou porque morde, ou porque já tem dentes, enfim. E realmente agora já faz imensas gracinhas, quase gatinha, dá passinhos agarrada pela nossa mão, dá beijinhos (só à mãe ❤ ), ri-se, faz adeus, esconde-se… Só não abre a boca para falar… Quer dizer, diz umas coisas. Mas não posso considerar fala. É uma linguagem bastante engraçada mas que ainda não se qualifica nas palavras de português. Quando cantamos, por exemplo, gosta imenso de dizer ‘(Também quero cant)aaaaaaaa-aaaaa-aaaaaaaaa-aaaaaaaa(r)!’ Mas claro que só ouvmos a parte dos ‘a’s.

Outra coisa que diz é ba-bá. Nem mamã, nem papá, nem papa. Ba-bá. E eu sinceramente acho que isto é uma forma de dizer os 3, já que somos as 3 coisas favoritas da minha filha. Ou então é a forma diplomata de não deixar nenhum de nós triste, nem eu, nem o pai, nem a papa, por não termos sido os eleitos à primeira palavra, diz uma que não se pode atribuir a nada com certeza.

Falei com a pediatra sobre isto que achou muito normal e sugeriu que não me preocupasse. Também sugeriu que crianças muito físicas desenvolviam mais tarde a parte da linguagem e vice-versa. Confirma-se comigo, já que aos 6 meses já dizia mamã, mas só aos 18 meses é que andei.

Mas olha querida filha, já falei com o pai, que também não se importa, achamos todos, a papa também, que depois dos 8 meses que te carreguei e as 15 horas de trabalho de parto, eu mereço que digas ‘mamã’ antes das outras duas. Portanto deixa lá a diplomacia e venha daí aquela palavrinha tão desejada, sim? Com muito amor, a tua maa-maaaã.

Às vezes

Às vezes corre tudo bem. E mesmo assim é tudo muito cansativo. É assim, para nós é a primeira vez, e eu imagino que seja verdade o que dizem, sobre o primeiro ser o mais ‘difícil’. É o sair das nossas rotinas pela primeira vez (e são 2 as rotinas que cada um perde, a de cada um e a dos dois em conjunto), é o ter um bebé pela primeira vez em casa, é o desconhecido do que se compra, o que se cozinha, é a tentativa (desesperada) de manter pelo menos os ritmos dela, e invariavelmente o nosso jantar serve-se às 23h. Mesmo quando tudo corre bem.

E não é só o que este serzinho maravilhoso nos ocupa o nosso tempo, às vezes, mesmo quando tudo corre bem, é difícil. E então o que se torna pior é o que o tempo com ela nos inviabiliza o tempo individual ou a dois, depois. Ficamos de luzes apagadas, o babytv ainda ligado e nós em silêncio de olhos postos no infinito. Talvez a imaginar um futuro onde cada minuto de cansaço valeu mais do que a pena.