Trabalho

Esta coisa de conjugar trabalho é complexa. A mãe trabalha. Trabalha não remunerada, trabalha um exercício invisível aos olhos (dos outros) que chegam a casa dela e vêem tudo arrumado (e então que trabalho é que houve?) ou vêem tudo desarrumado ( e claramente passou o dia sem fazer nada) e qualquer cansaço visível fica irremediavelmente com o selo de ‘coisas de mães’ ou ‘pois é’…

Desde que a minha filha nasceu que estou em casa com ela. Não é uma novidade no mundo. Tantas mulheres já o fizeram, tantas o fazem, tantas farão… Gostaria muito de conseguir ficar com ela em casa até aos seus 3 anos. Acho que os bebés merecem isso, e se os pais se conseguirem organizar nesse sentido é um luxo sem preço. Acontece que desde que ela nasceu que trabalho. Sim, é certo que não trabalho 8 horas por dia, mas trabalho. Não só como mãe, mas como arquiteta, com e em projetos que exigem de mim muito mais do que consigo dispor.

E mesmo com ajudas o tempo não é suficiente. Como é isso possível? Pode dizer-se que existe tempo insuficiente? Pois para mim sim. Sinto que perdi o controlo da minha casa, da minha vida. Ando sempre a correr atrás de algo. Acordo e vou a correr dar um jeito à casa, trato dos nossos pequeno-almoços e vou a correr arranjar-me, vou a correr tentar responder a e-mails e a correr tratar do almoço dela, almoço a correr e trabalho concentradíssima despachando mais serviço em meia hora que noutra altura da vida em 3, vou tratar dos jantares a correr, banho da caganita, e enquanto o pai a deita lá venho eu para o meu computador. Trabalho o mais que posso, deito-me tardíssimo, na esperança que o dia estiiique, mas só encurto a minha noite. E quando dou por mim estou a ir dormir a correr. Acordo como se tivesse sido atropelada por um camião…

Faço tudo a correr, o que posso, para conseguir estar calma e a desfrutar do tempo em conjunto com ela. Tudo por ela sem me esquecer de mim, de nós, do trabalho. E no fim do dia vou sempre roubar umas horas do dia seguinte alimentando esta ilusão de que o meu dia tem mais de 24 horas.

Talvez não seja o tempo que falte. Talvez eu me falte. De uma forma que remuneração nenhuma podia compensar. E não é novo. Todas as mães o sentiram já, tantas o sentem, tantas o sentirão. Só para mim é que é novo. E enquanto me habituo, conformo ou encontro a melhor vista deste cenário, vou experimentando todas as cadeiras da orquestra. A ver se descubro a minha melhor participação neste concerto.

E por hoje é tudo…

14 thoughts on “Trabalho

  1. Entendo essa angústia e comungo desses sentimentos. O tempo foge e nada será como dantes. A ânsia pela calma transforma-se em correria. Digo-me a mim mesma que as coisas vão melhorar…agora digo aqui. Beijinho e ânimo. (Um truque, não encurtes as noites, são elas que nos dão força)

  2. 🙂
    Exactamente.
    Eu comecei a abandonar um pouco a casa. So sorry. É o que me parece mais secundário no meio disto tudo. Às vezes parece um circo, e eu detesto, mas ando mais relaxada e disponível para a miudagem. E também acabei por desistir de preparar almoços para a escola e passaram a almoçar a comidinha de lá que também não é má (embora não seja escolhida a dedo por mim e fique um pouco mais caro….). Temos pena. Mas eu a certa altura dei o “tilt”.
    Não fiquei com eles em casa até aos 3 anos (embora esse fosse o meu desejo inicial – mas a mais velha não estava para aí apontada e quis experimentar outras paragens). Mas fiquei com crianças em casa 3 anos. Primeiro ela, depois ele e no final passaram 3 anos a voar em cansaço total, muito visível no tamanho das olheiras, das chávenas de café espalhadas pela casa e na roupa larga em cima dum corpo a pedir roupa nova, dois números abaixo do normal.
    Passou, sobrevivemos, sempre com os olhos postos na miragem ao fundo do deserto, lembrando-nos muitas vezes um ao outro que era só isso, um longo deserto com fim à vista. Conseguimos.
    Se fosse hoje, faria tudo igual. Só acho que contratava uma senhora (não sei com que orçamento, daríamos um jeito) para lavar e arrumar a casa uma vez por semana. Teria tirado uma tonelada de cima das costas. Mas acho que tive sempre a sensação ridícula que parecia mal, pois se eu estava em casa era suposto dar conta do recado. Ridículo e perigoso, para nós, para o casal, para a família. Não, não é suposto darmos conta do recado. Mas enfim, sempre a aprender.

    • Sim, a ajuda é muito importante, e é verdade essa sensação de dever não-cumprido, um pouco como a vergonha de ter depressão pós-parto… Será que é das mães? Ou de quem nos rodeia? Enfim, mas entristece sentirmos que abandonámos, a casa ou nós próprias, parece que sentimos que ‘não queremos saber’, mas não é bem isso de facto.
      Entendo perfeitamente essas escolhas do almoço na escola e enfim, também não sei exatamente quanto tempo vamos conseguir este sistema do casa+bebé+trabalho… a ver, ‘passinho a passinho’ 🙂 🙂

      beijinhos e abraços 🙂

    • Revejo-me muito neste comentário. Algo tem que ficar para traz, caso contrário, fica a nossa sanidade mental! Quando tive a minha segunda bebé, com a diferença de dois anos da primeira, senti que necessitava de ajuda e tivemos que tomar essa decisão e fazer o sacrifício para o bem-estar da família. Muitas vezes quando chego a casa do trabalho só me apetece fugir, por não ver as coisas arrumadinhas como gostava, mas respiro fundo e penso que aqui vive uma família e como tal, não pode ser um museu. Beijinhos para ambas

      • Pois é, não pode ser um museu 🙂 Nem uma revista de arquitetura. Nem aquilo que era antes, quando só lá vivia 1 ou 2… Mas concordo, prefiro aquilo que está por detrás da desarrumação, a existência da família…

        ❤ ❤

  3. Boa noite 🙂 E pronto, aquele momento do dia em que dá para dar uma espreitadinha nos blogues. Tenho pena de não ter começado mais cedo neste mundo virtual, onde descobrimos pessoas cuja cara não conhecemos, mas com quem sentimos empatia pelas vivências que afinal se aproximam tanto das nossas.

    Lamentei para mim mesma não ter lido este post mais cedo, porque houve momentos em que me senti impotente e fracassada perante a conciliação da vida doméstica, familiar e profissional. O meu marido propôs desde que nós mudámos para esta casa, comprada a pensar numa família grande, termos ajuda de uma empregada. E eu fui sempre relutante a essa proposta, pois sempre me orgulhei de ser trabalhadora-estudante e ter o meu espaço, pago com o meu ordenado e ter sempre a casinha bonita e arrumada. E a minha ideia era continuar a ser eu a tratar da minha (nossa) casinha, da nossa roupa, das nossas refeições.

    Isso foi possível na primeira casa onde vivemos, um T2, e com algum esforço quando mudámos para a moradia… Um T6. E o marido é um homem que ajuda, não posso queixar-me. Mas deixou de ser possível quando nasceram as gémeas. E lá tive de me fazer à ideia de alguém “estranho” entrar no meu espaço próprio, mexer na minha roupa, saber o que eu uso, conhecer os cantos e a decoração da minha casa… Tudo coisas que eu sempre considerei tão íntimas! Podem achar-me esquisita, mas era de facto uma ideia que me causava uma certa confusão.

    De momento praticamente nunca limpo a minha casa, a empregada vem quase diariamente… Também trata da roupa. Só me encarrego das refeições, adoro cozinhar e nunca quis abdicar do prazer de cuidar e mimar a família naquele toquezinho especial que cada mulher põe nos seus cozinhados… Mas confesso que sinto vergonha e até alguma “inveja” perante as super-mulheres que cuidam da casa sem ajuda de ninguém, mesmo quando têm uma família…

    Não são os outros que me chamam “dondoca”, acho que sou eu que tenho algum receio dessa associação do rótulo à nossa opção, que na prática eu sei ter apenas o objetivo de trazer funcionalidade e disponibilidade para outras tarefas e rentabilizar o tempo de qualidade enquanto família. No entanto, estive sempre habituada a fazer tudo sozinha e apesar de saber que a casa é demasiado grande para que um casal de profissionais de saúde com três filhas cuide dela sozinha, essa ideia ainda me mói.

    E talvez por de certa forma achar que entre bloggers existe apoio e um certo código ético, gostaria de partilhar (coisa que ainda só os nossos pais sabem, não foi comunicado nos nossos locais de trabalho por enquanto) que o “três” vai em princípio passar a “quatro” se tudo correr bem 🙂 E espero que seja desta que deixe de dizer “as minhas filhas” para dizer “os meus filhos”, pois o meu sonho era ter um menino 😉

    Torçam por mim (a última gravidez correu menos bem e talvez por isso esteja algo receosa…)

    Um beijinho grande, resto de boa semana mães, mulheres e famílias lindas 🙂

    • Ahhhhh!!! Não acredito!! Que bom, que felicidade interna!!! Muitos parabéns!! Votos de tudo a correr muitíssimo bem, e tem tudo para correr, o corpo tem de ser sábio, aprende com as menos boas experiências e transforma as próximas em algo mais positivo e construtivo. E neste caso que construção. 🙂 votos sinceros de tudo a correr bem e sim, que seja um XY 😉 mas seja o que for, que venha saudável e estejam todos bem à sua volta.

      É verdade, este momento de partilha de mães/mulheres, é um espaço onde justamente o sem -rosto é algo que facilita a ausência de julgamento prévio, sendo até mais fácil identificarmo-nos no texto de alguém com quem nem temos de comparar aspecto físico, financeiro, cultural. São palavras e desabafos que sem-rosto podiam ser o texto de tantas mulheres. Pois agora que descobriu a partilha virtual seja bem-vinda. Acho que ganhamos muito com a presença uns/umas das outras 🙂

Também quero dizer uma coisa

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s