Impossível

Há dias que são tão longos que quando vamos contar-lhes as horas damos por nós a contar semanas. E as semanas aparecem assim como uma avalanche de acumulação de horas, todas encavalitadas, doidas, entorpecedoras…

É delicioso ter tanto trabalho. Para mim é. Vivo através desta sensação de utilidade. E sim, acredito que mudo o mundo. Acredito que os arquitetos constroem a história, a história dos Homens, desenhando as suas cidades ou pensando naquele elemento junto ao vão onde o espaço se projeta  nos corpos que o habitam e os incita num beijo, num pedido de casamento, ou a forma como o espaço mal pensado origina conflitos ou depressões ou solidão. E eu acredito que mudo o mundo. Uma casinha de cada vez. Um móvel de cada vez. Compondo o espaço um bocadinho de cada vez. Enfim, imagino o que sentirá o arquiteto A. Siza Vieira, entre outros que construíram partes do mundo bastantes significativas. Mas não é pretensão minha, é mesmo aquilo que acredito desta profissão, deste meu saber.

E então entrego-me às linhas que o meu pensamento desenha no papel, enlouqueço com cada projeto, torno-me absolutamente lúcida e apaixono-me loucamente. Este meu saber é mais do que uma coisa que aprendi e faço, é algo que liga o meu dentro e fora, que faz parte de mim, que está mais do que embuído, está embutido como um armário que foi pensado em simultâneo com uma parede.

Mas agora sou mais do que arquiteta. Sou mãe também. Sou mãe, sem também. Sou mãe e arquiteta também. E quero mesmo conseguir trabalhar a partir de casa. E sai-me mesmo do pelo. E cada meia hora de pensamento é interrompido com ela, com papa, com sesta, com uma gracinha. Ou com refeições minhas ou roupa na máquina. E trabalho até às 3 da manhã e acordo entre as 7 e as 8 horas com ela, fresca e fofa a dizer ‘mamamamamamama’. E só abro um olho que o outro ainda está a tentar dormir. E sorrio com um lado da cara que acorda primeiro, o outro já lá vem.

Às vezes consigo deixá-la com a minha madrinha, uma tarde ou umas horas. E venho para casa fazer em 4 horas o que fazia em 6 ou 7 há 2 anos atrás. E foi o caso de hoje. Quando a fui buscar no fim do dia estava cheia de saudades. Louca de saudades (ela e eu). Enroscava-se no meu pescoço, dava-me beijinhos (‘Então deixas-me aqui, e logo eu que gosto tanto de ti!!’), mas estava zangada (‘Abusaste, da próxima vez pergunta lá quantas horas eu quero ficar’), não comeu tudo, batia nas coisas. À hora de deitar estava cheia de sono, o pai leva-a para adormecer, como sempre, e ela olha para mim, lança-se em voo e pede o meu colo com aquelas sílabas contínuas ‘mamamamama’. E eu que queria fechar um projeto, acabar orçamentos para enviar, tive de ficar. E a cachopa, um serzinho de 10 mesinhos de vida neste mundo, este mundo sim, construído por arquitetos, de e para os Homens, este mundo que já sabe tanto, ela mostra trazer conhecimento da Terra que a gerou, olha para mim, sente-me nervosa e demorou 1 hora para adormecer. E eu a tentar estar calma, serena, qual galgo antes de entrar em pista, de corpo suave e descontraído, mas de cauda a abanar freneticamente.

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