F de férias

Ser o filho do patrão é do pior que há. Nem se é o patrão, nem se é colaborador. É aquela posição que não tem a maior responsabilidade, nem tem o descanso. Nem o maior nem o menor ganho. Se algo ameaça correr mal assombra a culpa… é muito pior que a responsabilidade. E se corre bem é espetacular ficamos muito felizes. Que tenhamos feito um bom trabalho e que possamos ajudar a família. Fomos bons trabalhadores. Mas o ganho não é exatamente nosso. É dos nossos e de todos nós. O coletivo.

Enfim, acho que só me entende quem esteve ou está na situação. Porque pior de tudo são mesmo as férias. Um patrão tem férias quando quer. E nunca recusa trabalho, ou seja, se houver trabalho quando tira férias, paciência, nem reclama, está lá. O filho do patrão tira férias mais ou menos como tiram os colaboradores. E tem uma ou outra benesse do patrão. Mas quando o trabalho vem, lá está, há que trabalhar.

E às vezes é uma posição que acaba por acontecer. Não é exatamente planeada, nem seguramente evitada. Mas vem, instala-se e depois não há muito a fazer. Diz-se então por aí que a primeira geração constrói, a segunda mantém e a terceira destrói. Já estou seguramente na segunda geração, mas gostava de acreditar que posso participar na construção e não apenas na manutenção. Defeitos de profissão de arquiteta… Mas dá trabalho. Muito trabalho…

E as férias… Lá se encaixam como se podem. E mesmo quando alguma coisa sobra para estes dias sempre pensamos ‘Pelo menos estamos de férias’, mesmo enquanto tratamos de trabalho.

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Humor [e amor] de mãe

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Estou a ler o livro da Inês Teotónio Pereira ‘Humor de mãe’, um série de pequenos textos na ordem do dia com uma visão e opinião muito fortes sobre Igreja e política e um olhar divertidíssimo sobre esta coisa de ser pai e ser filho. Tem um blogue que é o máximo, escreve no jornal i e é uma mulher culta, inteligente e mordaz. Acredita que os filhos não são só uma coisa linda que aconteceu aos pais, são uma bênção e um pesadelo e que os pais são a salvação e o maior obstáculo na vida dos filhos. Quando comecei a ler este livro que a mãe da madrinha da minha filha me ofereceu (talvez sentisse que eu estava a precisar de sacudir o pó a alguns sentimentos desnecessários) estava um pouco céptica. Tenho-me deliciado, comecei a ser seguidora do seu blogue e sinto que por cada capítulo que leio me apetecia escrever um post dando a minha visão da coisa. Uma revelação e uma lufada de ar fresco realmente.

Houve um capítulo que me deixou especialmente a pensar, porque me revi imensamente nele e não resisto transcrevê-lo aqui, pelo menos o seu início:

‘O pior que pode acontecer a uma criança é ter pai que querem o melhor para ela. O fatídico ‘Eu só quero o melhor para ele’ é uma tragédia. A criança está tramada, antes de ser gente já carrega um fardo às costas: tudo aquilo que os pais acham que é melhor para ela. Como se os pais soubessem alguma coisa do assunto.

Mas é melhor como? A comparar com quê? Melhor para quê? Melhor para quê? Com que objectivo? O melhor é a coisa mais relativa do mundo e no que diz respeito à educação é aquilo que os pais gostavam de ter sido ou de ter tido e não conseguiram ser nem conseguiram ter: são meras aspirações pessoais frustradas.

E o pior é que a partir deste ‘melhor’ tudo é justificável, tudo é aceitável(…).’

Até me arrepiei. Li umas 3 vezes… Sim, eu sou uma mãe que só quer o ‘melhor’ para a filha. Este melhor é aquilo que nós temos de ‘mais’ para dar. É o nosso tudo, é o nosso só-não-dou-mais-porque-não-tenho. E se isso é um lindo presente envenenado? Tipo aqueles chupa-chupas deliciosos que lá dentro têm recheio, e neste caso o recheio estraga tudo?

Olho agora para ela, um Nenuco um bocadinho maior, e penso se ela carrega este trauma de gerações seguidas de frustração, eu-não-tive-o-melhor-mas-tu-vais-ter. Sim, é inevitável. Mesmo quem não o diz só consegue dar o seu melhor aos filhos. Um bocado como quando se estuda para um exame. Importante é estudar tudo o que sabemos e esforçarmo-nos por sermos o mais completos possível no dia da prova. E se o fizermos mesmo que o resultado não seja fantástico vamos sentir que temos dever cumprido.

E um dia quando os nossos filhos olharem para trás e perguntarem porque raio tomámos determinadas opções espero que encontrem conforto na ideia de termos dado o nosso melhor. Não o melhor para eles, claro, mas o melhor para nós. Como nós encontramos nisso o conforto para entender os nossos pais e avós.

Os outros

Em jeito de fim de queixinhas, mas também porque há dias que a cabeça está um turbilhão, porque a minha madrinha me enviou o post da Pipoca e porque recebi um email de uma nova amiga que adorei e me deixou a pensar. Num dia de trabalho até tarde, de muitas, muitas coisas na cabecinha, de montes de medos a atropelarem-se e sei-lá-mais-eu-o-quê, decido que retiro 20 minutos do meu sono e despejo aqui algumas dores de alma (entretanto já me começaram a doer outras partes do corpo, espero que isto alivie).

O que a criança precisa todos parecem saber. A mãe que devia ser quem sabe mais fica perdida no meio da confusão, ouve todas as vozes que se atropelam, ‘Tem de dormir’, ‘Deves acordá-la’, ‘Ela está bem’, ‘Isso não é normal’, ‘Vai para o infantário’, ‘Fica em casa’, ‘Dá-lhe comida’, ‘A culpa é tua’, ‘A criança é assim’, ahhhhh. CHEGA. Digo para mim. Tenho de me zangar com isto tudo, não com todos, mas com tudo. OK! Ser mãe é difícil para caraças. Só sabe quem já experimentou. E é assim, temos dúvidas. Queremos e precisamos de ouvir os outros. Mas só um bocadinho que depois já chega. E com conta, peso e medida. E uma coisa é partilhar sugestões, métodos, formas, outra é atacar, julgar e apontar. Não serve para nada, só baralha e ainda atrapalha.

Há sempre dúvidas. Há sempre coisas que são diferentes (entre crianças, irmãos, primos, amigos). E quando chega aquela hora do ‘O que é que ele faz?’, ou ‘Quanto pesa?’, nessa pergunta fica uma maldade subjacente de quem pega na lista tipo examinador de condução, e vai fazendo um ‘check’ em cada ponto, mesmo a tempo de somar tudo no fim e gritar ‘Muito bem, está na média!’ ou ‘Chumbaste!’ Este chumbaste com aquela sensação brutal do ‘falhaste’, a miúda não anda?, mas tenta?, mexe-se bem?, o que é que já diz?, mas gatinha ou arrasta-se?, e dorme bem?, de noite e de dia?, e come bem?, quanto pesa?

E bahm! Neste última perdemos aos pontos. Lá vou respondendo às outras todas e mais ou menos passamos no exame, mas no peso, já-tá! Está abaixo. Muito? Sim, um bocado abaixo do percentil. Hmm. Sim, pois e fizemos análises e vamos perceber se é mesmo assim ou se temos de ter cuidado, ou o que é. Vêm logo 80 histórias de quem correu bem e de quem correu mal e de que eu não devia fazer absolutamente nada ou então, a que eu mais adoro ‘Vais fazer assim:’. A sério pessoal, não se lembram quando foi a vossa vez? Não se lembram como foi duro? Perdemos a noção da diferença entre sugestões e obrigações?

‘Quem diz a verdade não merece castigo’ Merece. O que é isso da verdade? ‘Já não se pode ser honesto contigo’ Pois não. Se for só para dar mais uma opinião que por acaso nem ajuda em nada e ainda ofende. Se assim fosse eu saía à rua desatava a apontar para as pessoas, ‘Tu és feio’, ‘Tu não te sabes vestir’, ‘Tu pareces mesmo parvo quando passeias o cão’, e realmente nada disto é verdade, é simplesmente a minha verdade. E é por isso que pode ficar tão bem guardadinha.

Ando exausta. Nada é como eu pensava. Eu sei que me avisaram. Não valia a pena. Teria de sentir. Tentei ficar com a MR em casa enquanto trabalhava e consegui durante o seu primeiro ano. Mas terei de ter outro método pois estou cheia de trabalho que não posso fazer enquanto olho por ela, nem como ela perto de mim sempre a interagir e a interromper e não posso nem quero ignorá-la ou deixar de trabalhar. E assim sem dramas e sem ouvir a opinião de mais ninguém, vou ver infantários. Para já ver. Depois logo se vê.

E quanto ao peso estamos a ver também. Esta coisa de ser mãe é difícil. Tentamos não cair naquele poço esquisito que é a histeria, mas não aguentamos ver os nossos bebés chorar nem que seja por uma bolacha. Ficamos preocupadas com tudo. Tenho esta convicção de que a natureza nos põe alerta por dois. Porque eles ainda não sabem como. E não sendo algo que sintamos diretamente temos de sentir a coisa em duplicado, para ter a certeza que a questão é identificada. Só pode. Qualquer outra explicação revelaria uma intenção de tortura desumana. Por parte da natureza que conjeturou tudo isto.

Ainda me doem as tais partes do corpo. Vou mas é dormir.

Mais queixinhas…

Hoje estou numa de queixinhas. Não consigo parar. Às vezes fico de saco cheio e se não sair acumula, enquista… Então mais vale deitar cá para fora. Sim, eu sei, torna-se chato, mas é já por isso que aviso no início do post. Quem quiser não lê e volta no próximo…

O João Miguel Tavares escreveu um artigo há pouco tempo sobre esta coisa de ninguém falar dos homens-pais. Que as mulheres conquistaram nos últimos anos o espaço para se queixarem e toda a gente já ouviu que as mulheres têm de conciliar vidas muito preenchidas e difíceis, mas que parece que deixaram de falar nos homens. E que agora eles são pais, estão presentes e ajudam nas tarefas da casa. E ninguém fala deles e eles também têm vidas difíceis e exigentes. Concordo. É verdade e ainda bem que o escreveu. E até falou de imensas outras coisas numa grande lição de história e que eu não me atreveria a resumir em duas linhas. O Z, que detesta ler artigos enormes, leu e lambeu este artigo e até o postou no seu mural facebokiano e mandou para mim, ‘Vês, vês, vês?!’ Ok, já vi, tudo bem, sim senhor. É verdade. Para além de estar muito bem escrito.

Mas, sim, vem lá o mas… Assim que um homem diz isto, conta o que faz, que trabalha e é pai e ajuda em casa, corre toda a gente a fazer comentários, ‘que bom homem’, ‘tão amigo da mulher’, pai dedicado’, etc. E é verdade. Mas, novamente, para que alguém diga isto de uma mulher… ui… coitada, não invejo a vida que leve porque deve mesmo ser uma mártir.

É que geralmente os homens não fazem este tipo de comentários. Nem a homens nem a mulheres. Estas palavras são das mulheres. E as mulheres não gabam as amigas, familiares ou conhecidas por coisas que elas sentem que estão fartas de sempre fazer.

E não entendo esta lógica. Porque se defenderiam também a si próprias ao defender o trabalho das outras. Mas parece que preferem o caminho do desdém, será isso? Não quero ser injusta mas realmente às vezes sinto-me exausta. De trabalhar com a minha filha em casa. De lhe dar todas as refeições, ainda tratar da casa diariamente, fazer refeições, dormir 4 a 6 horas diárias sempre e no fim ainda ouvir que o meu marido tem de descansar… Pois tem, trabalha, muito, e faz imenso em casa (porque não haveria de fazer se eu também faço??), e está com a filha (nas horas possíveis do seu dia), mas não acho que tenha de descansar mais do que eu tenho ou preciso. ‘É diferente tu estás em casa’. E pronto, meu senhores aí está.

Nunca vou entender isto, mas das mulheres exige-se, não sei muito bem porquê, não sei muito bem o quê… Eu explico. Se trabalhamos em casa temos mais é de estar caladinhas porque não é a mesma coisa que trabalhar na rua, porque quem está num escritório cansa-se muito mais do que quem está sentado, refastelado, a trabalhar em casa. Nem discutam isto por favor, todo o mundo sabe e quem trabalha em casa, só por isso devia ter vergonha. Ainda para mais não tenho nada que me queixar porque temos ajuda de uma empregada doméstica uma vez por semana, coisas que EU deveria fazer e tratar, uma vez que estou refastelada em casa (se tenho tempo para trabalhar também tenho tempo para dobrar roupa e pôr loiça na máquina). E se o meu marido ganha mais que eu, nem que sejam 100 € é ele que paga estas comodidades. E se sou eu que ganho mais devia ter mais vergonha ainda por estar em casa e ganhar mais por isso. Mas se a mulher trabalha fora de casa, tal como o homem… bom, aí tem duas hipóteses, ou é uma coitadinha que não tem outras ‘possibilidades’ (há algo nesta palavra que me deixa absolutamente doida…) e coitadinha, lá vai ela ganhar ‘mais algum’, ou se é uma profissional consagrada e retira prazer do trabalho, e então é uma sacana que não quer saber da família e, imagine-se, ainda é o marido que tem de ir buscar os meninos à escola, coitadinho (do marido e dos meninos).

Será que isto é uma coisa das mulheres? Das mulheres? Para as mulheres? Porque também ninguém defendeu o trabalho das que falam, porque haveriam agora de falar bem das outras? É isso? Ou isto das novas posições nas novas sociedades ainda estão a ser conquistadas?

Não sei, hoje estou especialmente cáustica, é verdade, mas às vezes parece-me que as pessoas se chateiam verdadeiramente é com o bem que estamos com as coisas. Para já, só estão bem a criticar e portanto cada um se incumbe de se rodear de gente que pensa da mesma forma para se proteger e não ser tão atacado, e depois adoram julgar. Julgar quem tem prazer ou está de bem com a vida. Ui, esses são os piores. Toda a gente preocupado em levar uma vida difícil e depois aparece quem se queira rir das dificuldades? Ou é maluco ou um sacana. É o que vos digo…

Apegos

‘É muito apegada à mãe.’ Hm? Desculpe, não percebi. ‘Parece que só vê a mãe…’ Hm… sim. E felizmente tem 2 braços e duas pernas, só é chata para comer, mas até dá umas noites boas…

Não percebo este comentário, confesso. Sim, hoje estou numa de fazer queixinhas. Como assim, é ‘apegada’ à mãe?! Devia ser o quê? Dizem-me isto desde que ela tem 6 meses, era suposto ser uma maria-vai-com-todas-menos-com-a-mãe? Então era suposto ser um bebé que sorria para todos e para a mãe sorria igual? Era suposto ser-lhe indiferente comer, brincar, passear, adormecer ou estar com a mãe ou com qualquer outra pessoa? Não percebo mesmo esta afirmação. Não percebo o que as pessoas querem dizer com ela nem onde querem chegar. Ou o que esperam que eu diga. Vá lá que as coisas e os afetos sejam partilhados entre mãe e vá… pai. E mesmo assim… desculpem, mas isto da igualdade de direitos sim senhor, mas sem extremismos, pois se os homens são diferentes das mulheres, se cada um tem tarefas diferentes, se ainda há trabalhos onde essa diferença importa, bolas, também me sinto no direito de exigir uma relação diferente com os meus filhos, que eu carrego 9 meses e no fim disso tudo, imagine-se, ainda tenho de os parir! Isso mesmo, e depois são mais uns 9 meses a tentar perder aqueles 20 kg que afinal não eram todos do bebé, e mais o resto da vida a lidar com um corpinho cheio de testemunhos. Os senhores papás não lidam com isto e por isso sim, há uma relação diferente com ambos os progenitores, e nos primeiros meses de vida, a mãe é a mãe. E os bebés, pasme-se, estão ‘apegados’ a ela.

Mas pior que tudo, ocorreu-me, que aquilo que verdadeiramente incomoda as pessoas não é este apegar dos bebés às mães. Mas o facto de as mães estarem inebriadas, embevecidas, enamoradas, loucas, apaixonadas e sim, ‘apegadas’ aos seus bebés.

Percebi isto quando uma amiga me enviou a rubrica de Sofia Anjos em que esta dizia que a sua filha é o seu vício, assim como uma droga. E de repente percebi. Pior do que um bebé que prefere a mãe em vez de preferir outro colo qualquer é uma mãe que só quer estar com o seu bebé. Suspiro. Sofia estou contigo. Esse vício é terrível. Porque esta heroína pede-nos ainda por cima para ser consumida. Não há como resistir-lhe. Eventualmente uma dia atenua. Mas nunca nos vamos livrar daquela tentação de só mais um beijinho, ou uma snifadela, ou vá tocar-lhe… Mesmo quando a heroína já não precisar de nós.

Confissões

Olá, eu sou a Íria e tenho ataques de pânico. Coro imaginário, ‘Olá Íria!’

O primeiro passo é a aceitação, diz-se. E geralmente é o primeiro passo em todos os sistemas e propostas de grupos de auto-ajuda. Portanto é nele que me encontro. Quer dizer, sim, confesso que sou uma pessoa nervosa por natureza, e às vezes giro alguns assuntos de uma forma mais ansiosa que algumas pessoas. No entanto gosto de pensar em mim como uma pessoa equilibrada (assim naquela área que é o ‘geral’).

Os gupos existem por uma razão. Para nos sentirmos integrados. Precisamos disso. E os grupos de auto e inter-ajuda estão lá para não nos sentirmos sozinhos. E enquanto temos sensações no nosso corpo que nos convencemos que só nós sentimos, sentimo-nos, entre outras coisas, angustiados. Assim, ouvir a chamada ‘desgraça alheia’ torna-se um momento de alívio, não exatamente de felicidade pelo desconforto do outro, mas de sensação de que não estamos sós no mundo, mais alguém, sente vive e respira de forma semelhante à nossa.

Quando inaugurei este blogue na minha vida, tinha a minha filha quase 3 meses. Estava num sufoco. Passei uma gravidez calmíssima, feliz, leve (apesar dos 20 kg que engordei), fresca (apesar de não aguentar o calor de Junho, Julho e Agosto) e fofa. Começar a partilhar foi delicioso, receber comentários, ler outros blogues, conhecer pessoas que diziam ‘força aí!’ ou ‘Eu também!’ foi uma lufada de ar fresco. A ideia não era mostrar fotos da minha filha para o ‘Ai que linda!’ era simplesmente partilhar, mais um blogue de recém-mamã, como tantos outros blogues de outras mamãs na blogosfera a partilhar. E ser ‘mais uma’ pela primeira vez na minha vida soube-me imensamente bem.

Nesta coisa dos ataques de pânico foi um pouco assim. Não estou em nenhum grupo. Mas de repente em vez de ter vergonha escolhi desabafar com alguém. E esse alguém disse-me, ‘Sim eu também já tive. Os meus eram assim…’ E surpreendida com a resposta acabei por desabafar com outra pessoa que me disse ‘Ui, agora estou muito melhor, mas tive dois anos que foram do pior, a mim acontecia-me assado…’ E eu respirei. Em vez da sensação de garganta fechada os meus pulmões encheram-se livre e profundamente de ar e pensei, ‘Não sou a única. E isto não é uma loucura com exclusividade.’

E porque quando revelei os meus sintomas a estas pessoas o seu alívio não era chegar à parte final da estória para largar a bomba ‘então, afinal não era nada?’ Pois, é que para quem sente ataques de pânico, ‘afinal era tudo’. Foi a sensação que a vida nos fugia ali em 30 minutos. Ainda que a origem seja psicológica os sintomas são absolutamente reais e a sensação é de estarmos a ter verdadeiramente um ataque cardíaco, ou uma crise de asma profunda, ou a desmaiar, etc.

E sim, senti que a partilha me aliviou. Me acalmou e me fez pensar que mais gente no mundo, muito mais do que pensava, anda a tentar sobreviver psicologicamente a estas coisas. Que alívio sim. Da próxima vez que me sentir assim posso fechar os olhos e imaginar mais uma centena de pessoas a tentar controlar os seus sintomas. E lembrar-me ‘Ninguém morre de ataque de pânico.’ Apesar de ser essa a sensação…