Expetativas

Todas as mães as têm. Ui, e não são poucas. Claro que diferem de mãe para mãe e de filho para filho até (suponho), mas elas andam aí, poucas (os) escapam. Eu também tenho as minhas, ou nem faria sentido vir aqui neste queixuminho.

E as minhas expetativas até eram muito simples. Ficar com o meu bebé em casa (na altura ainda por nascer) até aos seus 3 anos de vida, continuar a trabalhar, claro!, de preferência ao fim de 2 anos nascia o segundo e o terceiro vinha quando o mais velho tivesse uns 5. Perfeito. O que é que pode correr mal? Pois o pior é mesmo quando nada correu mal. A vida, poderia dizer-se, simplesmente correu. E nós, para mal dos nossos pecados, ficamos com o peso de tomar uma decisão contrária aos nossos planos. Por culpa nossa, exclusivamente algo se alterou. Então essa culpa transforma-se numa falha, e um plano tão linda desabrocha numa realidade tão desiludida.

Queria isto tudo e ao fim de uns 10/11 meses tive de perceber, no meio de uns quantos ataques de pânico, para que não restassem dúvidas de que não estava MESMO a conseguir, que não poderia estar mais neste sistema de trabalho, troca fraldas e faz jantar tudo ao mesmo tempo. Nem mesmo com toda a ajuda que tive. E por muito que já me tivessem dito que ia ser muito difícil, EU ia conseguir. Claro, EU, a invencível. Até.
 
Até experimentar a tristeza mais profunda associada à alegria mais imensa. Até experimentar novos estados de exaustão. Psicológica, de desgaste. Até perder espaço dos dois. Até perder o meu espaço. Até quase me esquecer de mim.
E claro, vem a reavaliação dos planos. 3 filhos? 9 anos seguidos em casa? Ahhhhhhhhhh! Pronto, pronto, venha lá o infantário, senão perco já a vontade antes de chegar ao segundo… E lá fui eu procurar poiso neste mundo difícil das vagas nas cresces, cheia de vontade de a ver entrar e ao mesmo tempo com a dupla sensação de que falhei e de que esta separação é dolorosa.
 
A minha madrinha ofereceu-me o livro da Sónia Morais Santos, autora do blogue ‘Cocó na Fralda’ que eu li de um trago, em 3 dias, imagine-se, fartei-me de roubar nas horas de sono mas não conseguia parar. É um livro sobre culpa. E quanto mais não seja às vezes parece que a culpabilização dos outros nos desculpa um pouco a nós, ou até a descoberta de que os medos do outro eram ridículos e isso descontrair-nos a nós, seja como for, li-o enquanto o diabo esfrega um olho. Porque é que sentimos tanta culpa? Quando na maior parte das vezes são motivos alheios à nossa responsabilidade?
 
Bom, muitas respostas são dadas e teorias exploradas neste livro, adorei todas e identifiquei-me com bastantes. Mas acredito que a realidade ainda tem uma pequena perversão escondidinha. Nós temos o poder de escolha. E já diz o povo que com grande poder vem grande responsabilidade, e esta coisa das escolhas infinitas tem este poder de de nos apontar o dedo na curva, ‘foi o caminho que escolheste’.
 
No outro dia sonhava sobre isto tudo. Ainda acordada. A parte pior de ter um bebé a dormir descansado que sabemos que acordará dentro de umas 6 horinhas é mesmo sentirmos-nos às voltas na cama, desperdiçando tempos desesperando em pensamentos (em vez de aproveitar para dormir). E a propósito de sonhos pensava esta desilusão é também uma representação de algo que se perdeu. É um luto e por isso é [uma sensação] tão pesada. Porque nestas passagens, nestas transições, encerramos uma fase para iniciar outra. E enquanto iniciamos e não iniciamos há algo anterior que tem de ser enterrado. O bebé de leite já não é meu. É da minha memória. E agora este bebé que aqui tenho é outro. Vai para o infantário e passa o dia sem mim. E aqui está, eu que jurei não ter saudades fico também às voltas na cama com esta transição. Não é terrível, quando racionalizamos isso, é só doloroso porque pensamos com o coração. Acho que nisto dos filhos é a única coisa em que podemos todos concordar. Pensamos com o coração. E nesta desculpa nos desculpabilizamos um bocadinho…

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