Parar

Acontece pouco. Muito pouco na vida de um casal trabalhador com um, imagino mais, filho pequeno. Até termos direito de nos sentarmos sossegados no sofá muito banho tivemos de dar e de tomar, muita sopa voou, muita loiça se arrumou, roupa, bebé a brincar, bebé a dormir, enfim, já são perto das 22h quando nós sentamos e geralmente vamos ainda tratar de algo, ou pagamentos ou arrumar/ organizar uma gaveta e depressa chagam as 23.30h e ‘o último a chegar é um ovo podre!’, é a corrida para a casa de banho e a cama.
No início as tarefas da bebé eram todas minhas. Era uma cena que nos assistia a todos e estávamos bem com isso. Desde a parte óbvia do alimentar, à troca das fraldas, ao adormecer, mãe. E só a partir dos 8/10 meses é que o pai começou a ficar mais envolvido nestas questões e começámos a partilhar a criança.
Confesso que me soube bem. Os momento em que o pai entra sempre são aqueles que acontecem depois de jantar, limpar o bebé, mudar a fralda e adormecer. Havendo sempre coisas para fazer, nesses minutinhos acabo por ir para a cozinha e fico a tratar da loiça e da roupa. E nestes minutinhos não estou a correr, como durante o dia, não a oiço chorar nem estou a cantar a canção das ‘bochechas’, não estou a contar como foi o meu dia, estou só a estender roupa enquanto, no máximo, faço uma lista mental do que fiz, ou falta fazer ou farei no dia seguinte.
E não me interpretem mal, preferia estar a ler, a ver televisão, a comer um chocolate no sofá ou gozar minutos a sós na casa de banho, mas na verdade esta tarefa, a esta hora, é mel. Um momento a sós, em paz, no silêncio da noite. A está raramente tenho um ataque de pânico e estou aliás muito feliz por estar a desempenhar uma tarefa sem ter de pensar nem na dita nem em mais nada. Afinal o Fernando Pessoa tinha mesmo razão e ser inconsciente é a melhor forma de não sofrer. Ou seja, não pensamos demais, a nossa mente fica, sem outro remédio, quieta, por oposição ao inquieta. Abre caso, estende as mangas para trás, pega na mola, prende na peúga, estica o lençol…
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Vamos (todos) comer

Havia uma revista que os meus pais liam quando eu era adolescente que se chamava ‘A Grande Reportagem’. Era uma revista generalista cujo diretor era o Miguel Sousa Tavares, que os meus pais também adoravam, e gostavam tanto da publicação que presumo que tenham os números todos. Eles liam a revista à vez, a dois e às vezes liam-me ou eu lia trechos de artigos. Mas havia uma secção que líamos todos juntos, assim estilo momento familiar. Era uma página em que se gozava com coisas que tinham sido ditas publicamente, por ilustres conhecidos, claro está, e às quais era atribuído um prémio, num registo muito irónico, cómico e informal. Pois havia um que ficou para sempre entre nós, em que aparentemente alguém tinha um caso com a mulher de outro alguém que por sua vez descobriu e ofereceu porrada ao primeiro. Ele, o primeiro, dizia então ‘Eu já nem como’, e o prémio era ‘Ai comes, podes ter a certeza que comes!’

Bom e o título que queria dar a este post era exatamente esse. A MR sempre foi de comer pouco desde que começou a comida pós amamentação. Chegámos a fazer análises pois preocupava-nos, e à pediatra, o seu baixo peso. Desde que está no infantário sentimos que come um pouco melhor e sobretudo com mais entusiasmo. E esse entusiasmo passa por querer agarrar o prato da comida, a dita comida, o garfo, a colher, a tosta, o importante é sentir tudo.

Começa assim, eu vestida limpinha e cheirosa. O Z a medo, já com farda de trabalho (t-shirt velha e calções de treino). A MR acabadinha de sair do banho com cabelito ainda a secar e tudo. Na mesa a sopa, o pratinho com carne e arroz, por exemplo, a taça com a fruta e a nossa comida, pratos e talheres respetivos para isto tudo.

Eu começo a dar colheres de sopa e a MR decidida, vira a cara. Como parece que eu não percebo as suas intenções e volto a tentar, à segunda vez ela não tem outro remédio senão dar um safanão na colher, ficar com sopa na mão, na cadeira e na perna e estrear as minhas calças, as tais que estavam limpinhas há 5 minutos atrás. Tento então mostrar-lhe o garfo com a fruta, ela entusiasma-se, abre a boca e eu muito depressa enfio uma colher de sopa e só depois lhe dou a fruta. Sente-se meio enganada, mas gosta da recompensa e por isso lá deixa passar. Isto resulta mais umas duas vezes, pelo meio tenho de ir buscar umas caixinhas decorativas que ela adora abrir e fechar, mas depois é necessário outro tipo de comida, 3 vezes fruta já chega. Então vem a carne com arroz, novamente com sopa primeiro. Desta vez o entusiasmo com a coisa nova é tão grande que me agarra na mão que tem a carne (sim, tenho de usar as duas mãos para lhe dar comida) e cai um bocado de arroz para cima das caixinhas. Ela espreita os dois grãozinhos de arroz e cheia de perícia pega neles delicadamente, tenta levá-los à boquinha, mas oh!, não conseguiu, e eis que os grãozinhos vão para a cadeira. Continuo a alternar entre fruta e carne, sempre com a sopa antes, e a aproveitar que tinha a boca aberta quando disse ‘olá’ para a televisão, cai um pingo de sopa nas minhas calças e a tentar limpar com um guardanapo esqueço-me que tinha arroz na outra mão, cai tudo na camisa. Apanho os bocadinhos e ponho no cantinho do meu prato enquanto levanto os olhos e percebo que o Z teve de lhe dar a comida do nosso prato pois ela estava desesperada a apontar e dizer ‘dá!’ Volto à sopa, dou-lhe uma tosta e tento novamente com fruta e arroz alternado. Põe a tosta na boca, mas percebe que não era isso que queria, tira da boquinha dela e gentilmente entrega-me aquele bocadinho lambido, ‘dada’ que significa ‘obrigada’, que é o que dizemos sempre que ela nos dá algo. ‘obrigada, sim filha! Tão bom, a mamã vai por aqui no cantinho do prato.’ Ok, mais umas colheradas, do meu prato já nem sei qual é o direito e o avesso, o Z a partir bocadinhos de comida que vai dando à MR também e para mim, para que eu coma alguma coisa. De repente decide que quer comer sozinha, sim, esse restinho, já chega eu decidir o que lhe dar, ela quer o pratinho. E eu dou-lhe o pratinho, o Z a rir-se, ela a pegar na comidinha com uma mãozinha e a colocá-la no garfinho que a outra segura. Depois tenta equilibrar tudo até à boca mas no caminho cai, suja as perninhas, ela bem tenta agarrar mas cai tudo para o chão. Pois nada pára esta criança determinada e eis que pega no pratinho e enterra a cabeça lá dentro, tentando apanhar qualquer coisinha às dentadas a tudo o que não mexa.

Nesta altura eu tenho o braço todo bedungado de ela me agarrar carinhosamente, o meu prato é uma testemunha da batalha de comida ainda me curso, já estou a comer com as mãos e nem sei quando é que isso aconteceu, o Z está a dar-me comida à boca e a MR tem arroz no pescoço, fruta no cabelo e sopa nos braços.
Suspiro. Olho para o Z que se está a rir a olhar para a figura dela e que diz, ‘até o chão come!’ E solto uma gargalhada a imaginar o título ‘ai comes, pode ter a certeza que comes!’ E quem estiver por perto come mesmo, se não for pelos métodos tradicionais alguma coisa lhe há de chegar, nem que seja via tópica.

Regresso às aulas

Bom, neste caso não é um regresso. Nada desde que a MR nasceu nada é uma repetição. É na verdade assustadoramente tudo novo. E finalmente conseguimos colocá-la no infantário. Fizemos um período de transição, começámos por deixá-la lá por 2 horas, depois a almoçar, e agora dorme e lancha também. Está a correr bastante bem, dorme esgotada do dia agitado e até come mais.

O único problema são os ritmos. Os bebés adoram ritmos. E por muito que nos custe implementá-los a verdade é que a curto prazo já estão a compensar. Os miúdos adoram saber o que vem a seguir e mesmo quando não gostam de uma tarefa ajuda que está seja feita sempre à mesma hora pois acabam por aceitá-la um pouco melhor. Presumo que seja porque sabem que tal como começa sempre à mesma hora e da mesma forma também termina.

E neste caso temos de readaptar a MR aos ritmos do infantário, agora que estávamos a conseguir implementar os nossos… De modo que ela almoça às 11.30h em vez das 13h e lancha duas vezes à tarde em vez de uma vez de manhã e outra de tarde. Também só dorme uma vez em vez de duas e por isso às 18h está exausta. O pior desta hora é que não é bem carne nem peixe. Já é muito tarde para sesta mas é cedo para dormir a noite toda. Mas como é a hora em que ela sucumbe eu não posso fazer grande coisa senão aceitar. E depois adormece só às 22h e no dia a seguir é uma seca acordar. Suspiro, ainda estamos todos a acertar-nos, como disse.

E talvez seja por estar na fase de adaptação ou porque anda a ser abandonada por mim (sim, porque as mães são as responsáveis por tudo o que acontece aos filhos) no infantário, a verdade é que anda zangada. Sempre me regozijei pelo facto da minha filha ser uma miminha de primeira! Bem ao meu jeito e ao meu gosto. Mas ultimamente anda zangada, opinativa e dá assim umas patadas violentas em mim (sobretudo) ou no pai. Enfim, entendo a sua zanga e valido os seus sentimentos (que remédio) e mais não posso fazer. Presumo que tal como eu tenho direito de a abandonar no infantário ela tenha o direito de se zangar com a minha opção. Este direito de opção e de opinião que atormenta famílias por todo o mundo acabou de começar por estas bandas. E como diz o meu marido, ‘agora olha, aguenta-te à bomboca!’

Momentos a dois

Acontece que (alguns) casais discutem. Acontece. Têm problemas, zangam-se, irritam-se, tentam com muita força chegar a acordo, mas às vezes tentam com tanta força que não conseguem. E depois da zanga vem o porquê. Porquê? Porque é que nos passámos tanto ou estamos tão irritados? Esperançosamente atingimos o momento de clareza em que decidimos que precisamos de passar mais tempo juntos, ou mais momentos de lazer.

Assim combinámos que quinzenalmente a MR iria passar uma manhã a casa dos avós ou padrinhos para nós termos momentos a dois. É preciso antes de explicar o que fazemos nesses momentos, um bocadinho mais sobre nós. E sim vou revelar o que fazemos nessas horas.
Os orientais, mais concretamente os japoneses, consideram o espaço da casa uma extensão de si e nesse sentido também a sua limpeza faz parte da sua higiene pessoal. Eu sinto-me nesta linha de pensamento. E por sorte ou destino ou escolha, acontece que o meu querido marido partilha deste sentimento. Antes de ter engravidado começávamos as limpezas sábado de manhã, logo a seguir ao pequeno-almoço, eu tratava das zonas húmidas (casa-de-banho e cozinha), ele tratava dos motores, vulgo aspirador, depois era limpar o pó e arrumar para mim, lavar para ele e quando acabávamos tomávamos banho. Acabávamos por volta das 16horas exaustos mas felizes, no sofá, num almoço tardio, a inspirar profundamente o ar limpo e fresco da nossa casinha. Todos os sábados.

Quando engravidei enjoei horrores e não podia sentir o cheiro de nada, muito menos produtos de limpeza. Quando passaram mais os enjoos fiquei inchadíssima por isso nem me baixar podia. Finalmente a MR nasceu e eu não tinha tempo para nada, mal dormia e o tempo livre acabava por ser para trabalhar, resumindo, soube muito bem ter ajuda de uma empregada nestas alturas.

Acontece que há algum tempo desabafei como tinha saudades dessas manhãs/tardes de limpezas. E imediatamente trocámos um olhar cúmplice. Percebemos que precisávamos desse nosso ritmo de limpar alma enquanto esfregávamos um pedacinho de chão. Ridículo, pensam vocês, tiramos uma manhã de 15 em 15 dias para limpar?!?! É exatamente isso que fazemos. Entregamos a cachopa a cuidados familiares e limpamos a fundo uma parte da casa. No fim vem o nosso banho e a sensação de limpeza a partir de dentro.

Hoje foi dia de limpar. Bom, se algum dia nos cansarmos disto claro que podemos tirar a manhã para o que raio nos apetecer, mas isto é exatamente o que nos apetece agora. Limpar. Já reza o ditado, ‘não há nada que água e sabão não limpe. Só as más línguas.’ Neste caso até a alma fica purificada. E nem foi preciso esfregar muito.

 

Baixar as espectativas

Não é novo. É um assunto novo nestes últimos 70 anos, mas tem vindo a ser mais e mais explorado. Eu já falei disso noutros posts, já toda a gente referiu isso pelo menos uma vez à hora de jantar ou quando chega à cama. A Sónia Morais Santos escreveu um livro sobre culpa maternal. É difícil ser pai e mãe. Como dizem os ingleses, ‘parent’. É difícil, mas tem sido daquelas coisas em que o passar do tempo de experiência da humanidade não tem ajudado. Parece que piora até, se é que isso é possível.

Porque agora o instinto não chega. Há imensas ponderáveis. Há 800 manuais (pelo menos) sobre o assunto e mesmo assim também estes não chegam. Levamos o bebé ao pediatra todos os meses, comunicamos ao pediatra todas as pontinhas de febre que os nossos filhos têm. E isso parece que também não chega.

Não chega para nos sossegar. Para que não entremos no domínio da insanidade. Até parece que alimentam tudo isso. E não me interpretem mal, não estou nem contra o sistema, nem a desdenhar todas estas coisas, estou assim como que a escreve-las todas juntas, assim para avaliar significados, sei lá. Como todos os outros pais eu também só procuro a paz de espírito, a luz.

E nesta busca incessante de batimentos cardíacos mais suaves descobri Jennifer Senior, escreveu um livro sobre o qual fiquei muito curiosa, e deu um TED Talk sobre o dito. A palestra chama-se ‘For parents happiness is a very high bar’. Para os pais a felicidade é uma barra pesada. E é mesmo. Ficamos tão concentrados em deixar os nossos filhos felizes que não percebemos que estamos a enterrar-nos numa angústia que arrasta todo o agregado familiar. Entramos em crise. Porque quando pensamos na felicidade dos filhos essa é quase uma coisa abstracta.

Eu explico o meu ponto de vista, e reforço, não me interpretem mal, felizmente a história alterou o lugar que as crianças ocupavam no mundo. Eram pequenos adultos que sabiam menos, estragavam mais, chateavam e traziam algum dinheiro/comida para casa. Hoje têm direitos, têm a nossa atenção, têm o nosso dinheiro, o nosso amor e a protecção de toda a sociedade. Ótimo! Espetacular, nada contra.

Mas de facto este estado de espírito é novo na história da humanidade. Tão novo que temos de lidar com as novas consequências que vêm com ele. E as novas consequências são depressão, ansiedade, crise. Crise conjugal, familiar, social. Eu quando engravidei decidi que queria ficar em casa com a minha filha até aos seus 3 anos. E, claro que continuaria a trabalhar. A partir de casa. E ia ter 3 filhos e ficar com cada um 3 anos em casa, cada um teria a diferença de 2 anos e meio e seria tudo perfeito. Só eu é que não fui capaz. comecei a chorar depois da MR nascer e ainda não parei. Desde sentimento de culpa por não conseguir trabalhar tudo o que precisava e de me sentir falhada profissionalmente, a sentir-me desamada e incapaz de amar neste coisa nova que éramos nós os dois pais de alguém, até me sentir péssima mãe por me sentir a precisar de espaço pessoal e desejar até deixá-la num infantário.

Como é que eu podia falhar naquilo que a humanidade faz desde que existimos? A coisa mais fácil de sempre, supostamente, porque todos os seres vivos têm uma. Ser mãe. E realmente anos e anos de humanidade não nos prepararam para isto. Ser mãe, ser pai, ser trabalhador, marido e mulher, amigo, familiar, tudo ao mesmo tempo. Temos de ser capazes de fazer cada vez mais e melhor. E o pior de tudo é que os anúncios televisivos, os livros de auto-ajuda, as estórias de vida inspiradoras, tudo nos encaminha para a ideia de que para sermos só precisamos querer muito e trabalhar em igual medida. E não é. Não é só uma questão de trabalho, vontade e inspiração divina. A vida é feita também de coincidências, de circunstâncias, de boa e de má sorte. E não faz sentido que nos sintamos responsabilizados por tudo o que nos acontece, por todas as nossas conquistas atingidas ou sonhos por alcançar.

E só isto descansa. Não é baixar braços nem armas, nem desistir. é relativizar. Acreditar que damos o melhor que podemos, a nós aos nossos pais, aos nossos filhos, aos nossos amigos. Que temos a capacidade de nos corrigir sempre e de melhorar, mas de descontrair. Acreditando que não temos controlo de tudo. Muito menos da felicidade dos nossos filhos. Podemos tratá-los bem, dar-lhes amor, escolher as melhores escolas para eles, tratar da sua alimentação o melhor que sabemos. E esperar, como diz Jennifer Senior, que a felicidade chegue por estes caminhos.

Para eles, por eles. E para nós. Por nós.

Comparações

Don’t compare your beginning to someone else’s middle.

Vi esta frase hoje, através do google, no fim de um dia difícil de trabalho e foi assim um cair que nem ginjas, como diz o meu pai.

Falava ainda há poucos dias nisto com a minha madrinha. Sobre o conseguir/ querer/ gostar de ficar em casa com um bebé. Aparentemente comigo não resulta, não resultou, não dá. Não consigo trabalhar com ela em casa nem fazer nada, mal dá para deixar a casa em dia se não tiver trabalho e a parte do ‘eu’ então, ui, nem dava para entrar aqui. Se a isto acrescentarmos o ‘nós’ então quando olham para mim já caí para o lado.

E ao pensar nisto apercebi-me, o pior de todas as comparações nem são aquelas feitas entre bebés. Sim, quando falo da minha filha imediatamente me perguntam, ‘Já anda?’ ao que respondo ‘Não.’ E todos, ‘Ah… Então já fala.’ ‘Hm, bom diz umas coisinhas, mas não sei se fala…’ ‘Ah…’ respondem as pessoas um bocado desiludidas com o espetáculo como se tivessem pago um bilhete tão caro e afinal não havia nada para ver. Mas ocorreu-me que na verdade a comparação não era entre filhos… é entre mães.

Quando a pergunta é ‘O que é que essa criança faz?’ significa na verdade ‘O que é que tu, como mãe, já a puseste a fazer.’ E pronto, está aqui a base de tudo. O que esta criança é, é um reflexo das capacidades das mães e as mães relatam as suas vidas justificando o desenvolvimento dos filhos e mostrando as heroínas que são nas várias áreas da sua vida.

Bom, a ver, também não estou a defender que o melhor seja uma rodinha de mães a ver quem tem uma vida pior, mas ocorreu-me nas palavras da minha madrinha, que esta sensação daquilo que a minha filha é e do estado de exaustão a que me senti chegar era para mim um ponto de honra de algo que me sentia responsável. As minhas capacidades. Face, claro está, Às capacidades das outras (mães).

E parece que foi sempre assim que expus o assunto. ‘Não consigo ficar em casa com ela, trabalhar ou não trabalhar, tratar de tudo, dela, de mim e de nós. Simplesmente não consigo.’ E este peso é um desabafo que traz um não-fui-capaz por trás. Como se alguém fosse. Perdão, como se importasse se alguém o é. Como se na tabela da maternidade perdesse pontos face às que aguentam.

E ocorreu-me nesta frase que não faz sentido. Comparar realidades distintas, experiências diferentes, formações diferentes, horários trocados, outros empregos, ausência deles, apoios, etc. Fica tão sem sentido como comparar o início de algo ao meio de outro, já anunciava a frase. E assim, neste sacudir de pensamentos, decido dormir sobre o assunto. Não há nada que não tenha conseguido fazer porque isso implicaria uma meta. Não há essa meta. Pode, aliás, ser qualquer uma que nos passe pela cabeça. E assim até podemos dizer que a vencemos. Passamos de perdedoras a vencedoras. Afinal está tudo na nossa cabeça. Porque não utilizar o lado melhor disso e tornar tudo mais positivo?

Consegui. Dei o meu melhor. O meu pessoal melhor. E agora decidi outro caminho, colocá-la no infantário. E até aqui consegui trabalhar com ela em casa. E consegui organizar coisas, fazer remodelações e manter a casa minimamente arrumada e limpa. Outras fizeram melhor ou pior. Para agora não importa. Esta comparação é muito simples. Só cá estou eu. E o que eu penso de mim.