Hipocondríaca

Ser hipocondríaca. E ser mãe. Acho que estão associados. Sim, vêm emparelhados em todos os dicionários, não digam que não… A minha mãe diz que os filhos nos deixam mais seguros e reforçados. Assim como quem guarda os medos só para eles, mas mesmo assim com confiança.
Bom é verdade que eu já era um bocado hipocondríaca, sim confesso. Mas bolas, desde que a minha filha nasceu tornei-me um poço de negatividade de doenças tudo o que anda no outro lado do mundo me assusta, me deixa em pânico e tira (mais) horas de sono.
Agora imaginem o que é ser hipocondríaco e viver mesmo perto da localização do surto de legionella… Pausa para pensar…
Bom a verdade é que o dia-a-dia de um hipocondriaco não é nada fácil. Desde que acordamos que pensamos no que comemos e se nos faz bem à saúde, enquanto isso a mente viaja e pensa, ‘que mal poderia fazer?!’ E enquanto vão chegando às respostas mais estapafúrdias à pergunta já estamos a imaginar uma morte lenta e dolorosa, felizmente uma criança (no meu caso, por isso imagino nos hipocondríacos desgraçados que não têm quem os distraia, nem um gatinho coitadinhos) atira um bocado de papinha para as minhas calças ou diz ‘oum’ (quer dizer ‘olho’) e enfia o dedinho no meu olhinho. Mas isto é só o início do dia, basta depois alguém contar a história de não-sei-quem que esteve muito mal, ou era muito saudável mas, ou que foi uma surpresa muito triste mas ninguém descobriu o que tinha, é motivo suficiente para passar o resto do dia a respirar pelo saquinho e chegar a casa e perguntar ao marido ‘como estão os meus olhos???!! Vês algo estranho???? E a minha pele? Parece-te hidratada? Vês manchas? Acho que vi uma mancha!!’ Enfim, felizmente, com sorte, esse marido será um querido e, na maior parte das vezes não entrará em pânico. Quando entra pode-se sempre ligar à mãe que se ri das nossas tontarias e acaba por nos descontrair. Ou preferir um tom mais sério e ligar à madrinha que com muita paciência lá diz que isso é mesmo sintoma de quem não tem nada senão muitos medos e que também desfrutava de uma boa noite de sono. Outras vezes apetece é partilhar com amigos especiais que entendem e já passaram pelos mesmos medos e nos dão a positividade de quem saiu de ‘lá’.
Seja como for, e espante-se!, até os hipocondríacos adoecem. Lá me calhou a mim. O primeiro dia foi dedicado às dores de corpo e imensos arrepios de frio acompanhados de febre. Sem mais sintoma nenhum. Imaginei literalmente todos os males possíveis. Felizmente no dia seguinte lá vieram as dores de garganta e se localizou uma amigdalite, fiquei super descansada porque todas as minhas outras alternativas eram muito mas muito muitos piores.
Tratamento: sobretudo resguardo e chás. Bom com mais umas ajudinhas da ciência, claro. Cá em casa ainda ninguém apanhou felizmente. E eu tive direito a dois dias a sós com o meu sofá. Acho que nem me posso queixar. Só mesmo das dores de garganta…

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Super-mulher

‘O que é isto? Uma imagem arrastada? Um pássaro? Um avião? Ou um furacão?’ ‘Não! É a super-mulher!’ Perdoem-me o cliché mas não resisti começar assim. Na verdade a super-mulher não voa, nem é elástica, é ‘só’ uma mulher com forma (mais ou menos) humana que vive entre nós e consegue fazer (tudo) o que quer.

Tenho dias assim. Não são exatamente dias em que eu possa dizer que fiz tudo o que queria. Mas desde que me levanto que é um corrupio de afazeres e no final do dia lá consigo gabar-me durante 10 minutos exaustivos sobre todas as coisas que consegui enfiar em 16 horas super produtivas.

Começo por levantar-me, banho, papa à miúda- às vezes é o pai, enfiar o meu pequeno-almoço no bucho, ainda corto as unhas à caganita, visto-a, acabo de me vestir, saio de casa, infantário, caminho para a empresa a fazer telefonemas, manhã de trabalho intensa porque o tempo é pouco, ir a casa na hora de almoço, tirar loiça da máquina, pôr roupa a lavar, arrumar a mesa dos pequenos-almoços, fazer bicicleta em 20 min, almoçar em 15 e seguir para a empresa, ser super produtiva, sair a correr, ir buscar a avozinha que já não a via há quase uma semana, ir buscar a bebé, chegar a casa, fazer um empadão de arroz, fazer sopa, fazer os almoços até ao fim da semana, ainda conseguir fazer um bolo, dar banho a coisinha chata que já está a refilar, dar-lhe jantar que hoje o marido chega tarde, servir o jantar para 3, entregar a chata ao pai para o o-ó, fazer chá para a avozinha e cair no sofá enquanto o marido leva a avó a casa…

Quando chega a casa finalmente o meu homem vê o meu ar e diz-me ‘mas porque é que tu queres ser a super-mulher?!’ E eu não quero querido. Não. Eu não quero nem preciso de ser a super-mulher. Eu só quero ter o que a super-mulher tem. A super-mulher tem a casa arrumada, uma carreira de sucesso, tem tempo para os filhos, mesmo que tenha uma equipa de futebol a viver lá em casa, é linda porque tem tempo para si, trata bem o marido e é tão feliz. À super-mulher não lhe falta nada. E às vezes, há dias, em que é isso mesmo que eu quero. Que eu quero sentir que tenho. Tudo.

Culpas

Esta coisa de ser mãe deixou-me no geral, melhor. Melhor que pessoa. Mais generosa com o mundo, mais cautelosa, mais calma, mais segura e mais desconfiada. Também faz parte. Há pouco tive a visita da madrinha da minha filha a Lisboa e resolvi tirar um dia de férias para matarmos saudades uma da outra. Foi assim tipo, tempos de faculdade. Primeiro senti-me culpada, ‘imagine-se!’ Sentei-me à mesa do restaurante e pensei, ‘que horror, estou aqui a divertir-me e não estou com a minha filha. Nem estou a trabalhar! Sou um ser humano fútil e horrível!’
Porque é que nós haveríamos de sentir assim? A minha madrinha ofereceu-me o livro da Sónia Morais Santos, ‘A culpa não é sempre da mãe!’ e realmente alguma coisa está errada, nas nossas cabecinhas, claro! A minha querida amiga coitada, nem queria acreditar que vinha de tão longe, que tínhamos tirado férias, que eu tinha um dia de folga pela primeira vez em meses e no fim daquilo tudo… Sentia-me mal…
Enfim, felizmente, por alguma razão será a madrinha da minha filha, lá conseguiu tirar-me aquilo da cabeça e em pouco tempo só me apetecia era chorar a perguntar porque é que eu não tinha aqueles programas mais vezes, e sobretudo, porque é que Londres não era já ali, ao lado de Lisboa…
Li o livro da Sónia, falo com mães recentes, mães-avós, com amigas e com educadoras e ainda não consegui perceber porque é que nós sentimos assim culpadas. Sobretudo nós as mães. O que vale é que estas pessoas todas apesar de não terem todas as respostas lá vão sacudindo o peso do mundo que trazemos às costas e lá dizem, ‘não pode ser!’, ‘espaço para a mãe!’, ‘o casal também conta!’, ‘tempo para ti!’, ‘para a criança também é bom!’, e de boca em boca lá vamos sentindo mais e mais que aquele espacinho que estamos a conquistar não só nem tanto nos é devido, mas sobretudo é tão apetecido que se lixe tudo o resto… E a culpa lá fica caladinha, que remédio. Mas às vezes penso se não é justamente esta sociedade que dá toda a esta carga também. Bom, a Sónia Morais Santos refere-o sem dúvida, e lá estão as ideias das mães perfeitas que têm partos sem dores e crianças que só se sujam para o anúncio da skip a assombrar-nos e esmagar-nos como se a nossa vida não fizesse sentido se não atingirmos aquele estado e família elevados.
Somos um ser complexo. Pensamos e muitas vezes pensamos de mais. Às vezes parece que somos nós que montamos as próprias armadilhas em que caímos. Cada vez mais me convenço que o poeta é que tinha razão. Só se pode ser feliz se se for inconsciente. Todos os outros andam por aí a pensar demais… Esse é que é o derradeiro erro…

Frutos da época

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São pequenas coisas, chatas até, na maior parte das vezes. Banais e simples, quotidianas. Mas de época. Têm muito mais sabor. Assim como a fruta da época. É tão especial porque se come só uma vez por ano.

É que agora eu estou crescida. Sim, até sou mãe de família. E faço as coisas que a minha avó e a minha mãe fazem nas casas delas. Como por exemplo as compras. Ou como receber batatas e cebolas de outras mães, se for o caso de terem uma produção caseira e que partilhem algumas comigo. Porque as pessoas crescidas partilham estas coisas entre elas. Na época delas. Como as abóboras.

E se há coisa que sempre detestei foi arranjar legumes. Felizmente cada casa tem lá uma mãe que faz essas coisas por nós. Mas eventualmente um dia a sopa só chega se a arranjarmos. E esse é o dia em que sabemos que crescemos.

A minha madrinha ofereceu-me então uma abóbora. Linda mesmo. Grande. Nem a tirei do saco do medo que me fazia imaginar-me a arranjá-la. ‘Queres que ta arranje?’ Ainda me perguntou. ‘Não madrinha, obrigada.’ Até tive a oferta da minha avó. Mas não, sabia que tinha de ser eu.

E lá me meti naquela interminável empreitada. Começa-se por lavar bem a abóbora. Seca-se grosseiramente e colocam-se a jeito os saquinhos para a separar. Enquanto se corta a abóbora vai-se pensando em coisas em que a podemos utilizar. No forno com batatinhas, compota, tarte, quiche… E enquanto a faca entrava com dificuldade naquela polpa tenra cor-de-laranja viva deixei-me sentir o cheiro. O cheiro, o toque sedoso da abóbora, o cheiro nos primeiros pedaços a entrar na sopa com as ervilhas e a couve. E foi como se cheirasse a outono humano. Algo muito característico da nossa espécie e do aproveitar os recursos na data deles. E esta coisa de fazermos atividades individualmente num comportamento comum. Imaginei as outras mães noutros lares a tratar das abóboras. Até imaginei outros pais, neste caso eu não tinha o marido em casa.

E pensei como estes códigos sociais são tão especiais e como estes rituais são tão reconfortantes. Tão reconfortantes que até o arranjar uma abóbora pode ser um ato de carinho e apetecível. Talvez seja por ter uma mãe antropóloga, mas estes símbolos são como um sofá da sociedade.

E eu nem sou de modas, até fujo delas, mas de repente estes cheiros, estas memórias e estes códigos todos  deixaram-me cheia de vontade da terra. Em todo o seu esplendor. De modo que, sim com ajuda da minha madrinha, lá fomos plantar umas coisinhas. Semear, aliás. Já aprendi mais uns termos. Daqui a uns meses espero também ter qualquer coisa para a troca 🙂