Ciclos

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Ajudam-nos a passar o ano. São pontuações que nos vão distraindo. E no ram-ram do quotidiano, na correria diária, entre trabalho, infantário, casa, cama, temos algo que planear, desejar e festejar.
Imagino na minha cabeça uma circunferência, começamos o ano e o primeiro evento é o carnaval, logo depois a Páscoa, depois vem o verão, o São Martinho, a correria para o Natal e o ano novo. Pelo meio ainda temos a vantagem dos aniversários de quem gostamos e o nosso, claro. Geralmente são uma coisa positiva.
Ah, sim, o meu ‘ano novo’ é o último evento do ano. Sempre. É assim como o banho, a coisa que lava o ano velho, que já passou. É o momento em que fazemos os desejos, limpinhos, do próximo e imaculado ano. É o ‘este é que vai ser!’, o ‘vou portar-me tão bem!’ É verdade que tudo isto é sobretudo um começo, mas é um (re)começo intimamente ligado àquilo que ficou por dizer no ano passado, por atingir, por conseguir. É por isso é que para mim é sobretudo um fim. No sentido em que é a hipótese de fazer sempre melhor, a partir do imaculado dia 1, do que aquilo que já foi feito.
E comecei este texto com os ciclos, estes são a nossa chance de percorrermos o ano sem que fiquemos presos à angústia do que já atingimos na semana 7, porque nessa altura é a Páscoa, ou o aniversário da tia, e não sendo exatamente uma distração vão sendo entre-metas nos nossos objetivos maiores, pequenas conquistas nos dias cansativos encadeados.
E é por isso que quando antevemos o próximo ano, mesmo quando pensamos que pode ser tudo igual, sentimos nos eventos que se repetem o conforto sazonal de mais um ano a preencher as nossas vidas e essa excitação do evento conhecido que entusiasma até o indivíduo mais sisudo, menos otimista ou menos pro-ativo.
Vamos a isso.

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A sério, não tenham filhos

Não, não estou a brincar… Tenham, claro que sim! Isto é lindo. Não, bolas também não consigo mentir assim… Vamos tentar outra vez, tenham, se quiserem muito. É sim, acaba por ser lindo, pelo menos nalgumas partes, mas não se prendam muito a esse conceito.
Uma prima quem passei parte da infância dizia-me, numa sessão familiar, que queria ter filhos, e em jeito de pergunta aberta, questionava-se se seria o momento. NUNCA é o momento. Ou melhor, o momento é quando se desejar muito. Porque só esse desejo (maluco) pode colmatar as dificuldades que se esperam e expectam. E elas vão chegar.
Contava-me o meu marido que fizeram um estudo nos EUA sobre a felicidade sentida por indivíduos com e sem filhos. Aparentemente pretendiam perceber se as pessoas com filhos eram mais felizes. A questão é que os inquiridos com filhos tinham-nos ainda a viver sob os seus tectos. Que grande armadilha! Convenci-me logo que este estudo tinha sido feito por pessoas sem filhos que queriam incentivar outras pessoas a seguirem o caminho da não-perpetuação da espécie. Pois CLARO, que quando se pergunta a alguém que tem miúdos em casa se se sente feliz, imediatamente essa pessoa vai pensar como se sente nesse momento-exausta, porque de certeza que o seu filho ou filha dormiu mal. Por ser bebé, ou por estar doente, ou porque não gosta de um professor na escola ou porque está apaixonado, seja porque for, dificilmente um pai/mãe com os filhos a viver em casa tem uma noite boa. Depois, mesmo que não se sinta muito cansado, vai pensar no que fez no dia anterior. Começa de manhã, por acordar de uma noite geralmente mal dormida, para acordar estremunhado com uma criança a pedir colo e água e comida ainda mal de olhos fechados, ou a vestir crianças, pegar em malas para infantário, escola, etc., enfiar uma família inteira no carro, apanhar um rasto de coisas que alguém perdeu pelo caminho, descobrir que alguém saiu com nódoas, que outro não lavou dentes, e isto é num dia bom. De seguida é o dia de trabalho que comparado com isto é um spa, mas que efetivamente não é e acaba por trazer responsabilidades, tarefas, planeamento, criatividade, etc., e o pesadelo de todos os pais, o regresso a casa. Trazer o pessoal das instalações onde estavam ‘depositados’, levar tudo para casa, malas outra vez para cima, banhos, o terror dos TPC, jantar, cama. Pela altura em que o progenitor visualiza o seu rabinho a cair no sofá já está tão cansado que só sai um sopro sem voz, como resposta. Se a seguir se lembrar de pensar na sua conta bancária e perceber que anda a trabalhar para manter a sua família viva e com os confortos muito básicos ‘à disposição’ das sociedades modernas ocidentalizadas acho que vai desatar a chorar. Se a pergunta era sobre felicidade já estão a ver onde é que isto já vai…
Se formos rapidamente à casinha de alguém da mesma idade sem filhos, vamos, com facilidade, encontrar pessoas jovens, que dormem bem, que decidem o seu programa a cada dia, que poupam o seu dinheiro e que viajam, ou leem, ou vão ao ginásio, acordam de manhã e ‘saúdam o sol’ antes do pequeno-almoço, bebem um cocktail antes do jantar e os seus problemas são zangas com o chefe, não saber o que oferecer à irmã pelo natal ou próximas férias, praia ou cidade?
Claro, que num grupo de inquiridos com acesso à educação, informação, formação, trabalho, abrigo, segurança, saúde e conforto emocional, os inquiridos a viver com os seus descendentes vão responder à pergunta ‘é feliz?’ Com um ‘nem por isso’, ao passo que a malta sem criancinhas pode dizer mais facilmente um ‘sim claro, mas agora vou mesmo fazer este salto bungie e já falamos quando lá chegar a baixo.’
E sim, confesso, foi mais ou menos isto que descrevi aos meus primos. No final até parecia que estava a detestar a experiência ou a desincentiva-los, mas até acabei a dizer que estava a considerar repetir a experiência num futuro próximo. Ficaram meio em choque acho eu, ou se calhar acharam-me doida, não sei. Mas a verdade é esta, quer dizer, era esta a verdade que eu tinha para lhes dar. Sim, é delicioso e maravilhoso quando é se se deseja muito. Porque é também super intensivo, doloroso, preocupante, não -relaxante, claustrofóbico até, toda esta vivência de dedicarmos a nossa existência a um ou mais seres que amamos mais que tudo é mais do que alguma vez julgamos possível amar.
Uma vez li numa entrevista on-line alguém que dizia sobre o sentimento que teve aquando do nascimento do seu primeiro filho, que o seu coração passará a bater fora de si. E é isto mesmo, assim, tão bem explicado. Um amor profundo, louco, nas palavras de Herberto Hélder, mas tão perturbador e desconcertante, desafiando as leis da própria natureza. Não há incentivo possível para isto, nem momento certo. E desejá-lo e deixará a natureza fazer o resto. E como diz a minha mãe, a Natureza é sábia…

Descalibrada

A nossa família tem um problema de calibragem. Por exemplo, eu. Tenho sempre frio. Mas de uma forma completamente louca. Desde que engravidei que lá estabilizei um bocadinho (acho que foi porque ganhei uma gordurinha corporal), mas antes da minha filha nascer, até no pico do verão eu usava um casaquinho de malha. Já a minha querida filha está descalibrada nos dias da semana. Eu explico.

Fica doente à sexta feira. Porquê minha filha, porquê? A tua mãe é que sabia fazer isto bem. Quando eu era pequenina adoecia ao domingo. Assim, perguntava à minha mãe no domingo de manhã, ‘Mãe, hoje é domingo?’, ‘Sim.’, ‘E amanhã é segunda, dia de ir para a escola?’, ‘Hm, sim.’, ‘Ok’. Ok, no final do dia estava com febre. Era mais ou menos isto. Já a caganita cá de casa adoece à sexta não percebendo que nesse dia nós já íamos estar todos juntos em casa!! Para quê ficar doente então? Isso compensa é ao domingo, segunda, ou à quarta, para ter um fim de semana maior.

Não sei quanto a vocês mas eu cá recuso-me determinantemente a adoecer entre sexta feira e sábado. Os dias em que adoeço são de segunda a quarta, de preferência. Mas isso sou eu.

Eu estou convencida que a MR à quinta tem medo que a semana já não acabe. Deve pensar algo do género, ‘É desta, vamos ficar na quinta feira para sempre, estou a sentir que é desta!’ E pimba! adoece para ter a certeza que provoca o fim de semana. Só pode ser.

E se não for isso só se for o medo da ideia de ficar connosco em casa por 2 dias… ops! Espero que não seja esta última… Eu sei minha filha, que às vezes somos difíceis, mas não somos más pessoas. Vais ver que com o tempo começas a achar-nos um bocadinho mais de gracinha 🙂 Por isso calibra lá o relógio e vamos curtir o fim de semana. Este vem mesmo aí e já está a chegar ❤