Medos

Já sei que já falei disto. E tenho de falar. Eu já era (um bocadinho) hipocondríaca mas parece que depois de a minha filha nascer dei todo um novo sentido aos (meus) medos. É mais do que ‘intensificaram-se’ ou ‘batem mais forte’. Depois do parto comecei a ter sonhos com edifícios a desabar, barcos que afundavam, janelas que se estilhaçavam em mil pedaços. Estava sempre com o meu marido, a MR com 2 ou 3 anos e mais 1 ou dois bebés. E geralmente só eu é que sobrevivia e acordava em pânico (isto tudo naquela hora e meia que conseguia dormir quando a minha filha era pequenina e mamava de 2 em 2 horas…).
Vou poupar-vos da descrição de todos os meus pesadelos, que já o meu marido se queixa que são piores que assistir a um filme de terror, mas preciso de pelo menos este para explicar o meu ponto de vista.
O tempo foi passando e de pesadelos passei aos ataques de pânico. Estava a chegar a algum lado, finalmente isto saía. Sim, hoje percebo que me deprimi. Deprimi e fechei-me de tal forma que ninguém conseguiu perceber. Ninguém conseguiu chegar até mim. E olhando para todo este percurso não foram os 9 meses com vómitos constantes diários, nem o parto que muito custa, nem sequer o dormir pouco que mais me assusta. É o estado psicológico em que me senti. Como um buraco, escuro, frio e assustador. É isso que é estar em pânico e ser hipocondríaco a tempo inteiro. É uma espécie de caverna onde sentimos que vivemos e de onde ouvimos todos os outros dizerem que aquilo não faz sentido, que venhamos para a luz e nós nem sabemos para que lado é que isso é.
Com sorte, e com trabalho, qual trabalho de parto, aquilo é só o começo, devia chamar-se ‘trabalho continuado do parto à maternidade pela vida fora’, mas enfim, eu percebo que se encurte, lá se vai curando algumas taras e manias, percebendo alguns medos, e a pouco e pouco, mesmo que ainda dentro da caverna, parece que em dias de muito sol se vislumbram uns raiozinhos de luz.
Ultimamente e com a memória de todos estes ataques tenho percebido cada vez mais que imensas mulheres se queixam de ter medo da sua morte depois dos filhos nascerem. E pergunto-me, será que tenho medo da morte ou de não sobreviver? Às vezes parece que é apenas isso que conta, conseguir sobreviver a um dia de cada vez.
Mas regresso ao meu sonho. Num edifício, todo de vidro, com o meu marido e 3 filhos (o meu grande desejo), à beira-mar plantado, com uns 5 pisos, e a perfeita visão de uma onda gigante a vir sobre nós, incapacitados de fugir, de nos proteger ou de nos salvar. E penso, aqui ao leme sou mais do que eu. Não sou um povo que quer o mar que é teu. Sou só uma mulher. E às vezes mais que o medo de morrer, é o medo de sobreviver e ter de ser capaz de enfrentar o monstrengo que está no fim do mar. Não há morte que assuste mais do que o monstrengo a rodar três vezes, aquele que nunca ninguém viu, que por isso todos temem. E essa maternidade que nunca ninguém viu nem sentiu até estar preso ao leme é uma permanente passagem no cabo Bojador. E novamente a dificuldade em respirar fundo. São as cordas que me atam ao leme.
Porque aqui ao leme sou mais do que eu, na noite de breu a minha nau no mar, manda este amor louco que me ata ao leme a conquistar este mar sem fundo.

2 thoughts on “Medos

  1. Acho que é verdade, sentimos mais a nossa condição terrena, efémera com a maternidade. É uma preocupação pela vida fora, como bem diz; para além de hoje em dia os filhos serem dependentes até cada vez mais tarde, nunca deixaremos de viver intensamente os seus problemas pessoais, familiares, de saúde e profissionais. Não creio que, nos dias que correm, sejam muitos os pais a sentir que podem morrer descansados.

    Se antes me aventurava de forma responsável, mas algo desprendida nos meus hobbies mais radicais (sou uma amante de escalada/rappel), hoje em dia penso duas vezes antes de me atirar de um helicóptero para fazer pára-quedismo. Não que não continue a fazer, mas penso muito mais nos riscos e no impacto resultante na vida das minhas três meninas filhas.

    O ter uma filha mais vulnerável em termos de saúde também me deixa com o coração nas mãos… Sei que não é minimamente comparável a ter um filho com uma condição que determine invalidez, ou efetivamente uma doença crónica incapacitante, mas pensar que posso deixá-la de alguma forma desamparada faz com que o peito me doa, corrói-me por dentro.

    Já não é um sentimento que afete necessariamente mais a mãe do que o pai. Mesmo os pais já demonstram preocupação com a vida pessoal, e não apenas profissional dos seus filhos adultos jovens, embora os homens possam tender a preocupar-se com aspetos mais pragmáticos e objetivos, enquanto as mulheres têm uma percepção mais sensitiva do conceito de felicidade e sucesso dos filhos.

    O poder “não estar cá” é um sentimento avassalador quando se tem no mundo um ser que depende de nós. Mantém-se no entanto a ambivalência que tão bem explora no seu sonho, do sobreviver e ver-se no confronto com o desconhecido. Como se o “não estar” nos penalizasse por um lado no não estarmos para vê-los crescer e acompanhá-los, mas nos aliviasse o fardo da responsabilidade e deveres constantes.

    O simples fato de estar é uma esperança no sentido da continuidade, da possibilidade de um dia melhor. Não necessariamente por circunstâncias melhores ou piores por si só, mas porque temos a oportunidade de aprender a adaptar-nos, a moldar-nos aos desafios e às exigências da realidade que se vai revelando por detrás do véu do desconhecido.

    Estar é, quase sempre, uma coisa boa. Mesmo quando nos assusta. Mas quase sempre tem um sentido, ainda que por vezes esse nos seja oculto.

    Às vezes os pesadelos não passam disso mesmo. E nós vamo-nos permitindo viver o sonho 🙂

    Um beijinho e resto de boa semana ☺️

    • ‘Como se o “não estar” nos penalizasse por um lado no não estarmos para vê-los crescer e acompanhá-los, mas nos aliviasse o fardo da responsabilidade e deveres constantes. ‘

      Sim, acho que é isto mesmo. E às vezes é um medo tão grande de pensar os nossos medos que resulta só numa paralisação – que até se pode tornar física- até ficarmos naquele limbo patético do ‘medo de ter medo’. Sobretudo, sinto que a maternidade é algo absolutamente novo a todos os níveis. Acredito que ter mais filhos não simplifique este tipo de emoções, do género, ‘já senti isto com o 1, agora com o 3 já nem me afeta’. Mas sinto que seja com um ou com 7, as mães e os pais, mas mais as mães nas suas constantes subidas e descidas hormonais, o turbilhão de emoções é atordoante, novo, vertiginoso e nada seguro. Como se pela primeira vez tomássemos todas as nossas decisões com a maior segurança do mundo achando que é o melhor, com a profunda insegurança de não saber ‘se é mesmo mesmo’. Porque queremos que seja. E nesse tentar às vezes também desesperamos.

      Beijinhos grandes e boa semana para os 5+1

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