Rato da cidade

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Vivo, sempre vivi e só me vejo a viver na cidade. Aparentemente aquelas coisas chatas de que toda a gente se queixa eu adoro. As luzes a baralhar os passarinhos às 2 horas da madrugada, o barulhinho de fundo dos carros a passar, sempre ligado, a máquina de lavar roupa da vizinha a trabalhar depois da meia noite, o sino da igreja a tocar, alguém que regressa do café às 22h, o vizinho constipado, enfim… Podia ficar aqui até mais não e havia sempre de me lembrar de mais uma distraçãozinha… Mas há quem goste, quem se adapte e acabe por aprender a viver nesta chamada selva urbana.
Mas se há coisa que todos gostam, mesmo os amantes da azáfama da cidade, é da visita ao campo. Aparentemente é para todas as idades, os mais novos podem pular e brincar, os jovens passeiam, os pais respiram ar puro, os mais velhos curam o reumático e recordam os bons velhos tempos.
A minha querida madrinha tem aquilo que se chama um paraíso na terra. Uma casinha perto da Serra, com árvores à volta, um caminho atrás da casinha, toda em pedra, recuperada, com árvores de fruto, tem limões, diospiros, medronhos, pêssegos, avelãs, bolotas, tem uma piscina, e cama de rede, tem lareira e forno a lenha, a casinha está lá no cimo, numa terra sem correios, nem bombeiros, nem cinema, nem supermercado, só a casa do povo e um café, de manhã o sol entra pelas janelas e de noite não há pingo de luz. É o paraíso.
Este fim de semana estivemos todos lá em cima, decidimos aproveitar o Carnaval e fugir da correria da cidade. Dorme-se melhor, respira-se bem, a comida é mais saudável. Todos os ratinhos da cidade se transformam em ratinhos do campo e adotam os seus métodos de vida. A MR adorou. E é de facto adorável. E eu adoro estas idas de grupo… Mas o meu ratinho da cidade nunca se consegue converter ao primo do campo. O inverno consegue sempre ser mais aprazível que o verão pois a bicharada foge um bocado, mas como a razão da fuga é o frio, aqui para o ratinho da cidade a solução é mesmo enfiar o rabo dentro da lareira e rezar para que ninguém dê por mim enquanto tento assar viva para não sentir o frio. Já o estar na rua é para mim uma atenção constante a posicionar-me no meio do grupo para ver se não vem lá um cão, ou se não passa uma abelha demasiado perto dos meus ouvidinhos, zum-zum, que aflição! Pelo meio encontramos um rebanho lindo com um pastor a tomar conta, a MR a gritar de entusiasmo, ‘mee-mee-mee’, e eu a tentar desviar os olhos das ovelhas a ver se nenhuma decide investir, ‘sim, é o mé-mé, aí que lindo!’, digo eu muito calminha, e o passeio prossegue comigo a afastar-me de galinhas ou a saltitar para aquecer e sobreviver ao frio rigoroso do vento do Norte. De noite cai um silêncio profundo. Não fosse a casa estar cheia não ficava aqui de certeza, que medo, e tão concentrada que vou na estranheza nem me lembro de pensar que os perigos que receio pertencem à cidade e vozes de burro não chegam às portas do céu, lá tudo adormece em descanso e respiração profunda e ainda estou eu a imaginar os sons da auto estrada para fechar os olhinhos.
Mas tudo isto é o meu mau treino desta paz de espírito por todos desejada. Os dias acabam por voar, a caminha parece ter qualquer coisa que nos faz dormir melhor, a sinusite regride e a alma faz as pazes com o mundo. O meu ratinho da cidade, teimoso e incapaz de o admitir, sai sempre melhor do que quando chegou e parte sempre infeliz por chegar a hora da despedida.
Este pedacinho é mesmo um bocadinho de céu, e até para os mais céticos ficam as saudades dos cheiros, da luz da lua e do som do rebanho a passar de manhã. Lá se volta aos computadores, luzes e sons da cidade. O sobressalto da cidade instala-se nos pulmões purificados e retomam-se os velhos hábitos. Pelo menos adormecer é mais fácil com o ribombar de sons que neste regresso até parecem intensificados. E embalada pelos carros fecho os olhos devagarinho… Meu ratinho da cIdade… ❤

2 thoughts on “Rato da cidade

  1. Gosto da cidade, mas há cidades e cidades. Só fui para Lisboa para estudar e lá vivi os anos que o meu curso durou mais os primeiros anos de vivência conjunta com o meu marido, o que durou até aos meus 28 anos. Depois comprámos a casa perto do mar e pusemos a casa de Lisboa a arrendar. Ambiente urbano, pertíssimo de Lisboa, mas num equilibrado enquadramento na natureza, perto da praia, com ar puro, um microclima próprio como se estivéssemos geograficamente a quilômetros infindáveis de distância, e a beleza pitoresca e romântica da parte antiga da vila.

    Cada local tem o seu encanto. E cada um de nós tem as suas preferências e o seu estilo de vida. O centro de Lisboa já não é para mim, apesar de não nos termos desfeito da casa. Lisboa cria-me uma sensação de claustrofobia iminente. Tem os seus encantos que são muitos, Lisboa menina e moça, e não perdi de todo o espírito cosmopolita, simplesmente optámos por uma envolvência mais “híbrida”. Um bocadinho da cidade, da prontidão e disponibilidade de recursos e cultura, mas também de natureza, mar, ar puro 🙂 E estamos muito felizes com a mudança, que foi de fato regeneradora a muitos níveis.

    Vivi experiências tão ricas em lugares tão diversos, a nível cultural e emocional, e encontrei paz, tranquilidade e conforto em locais que imaginava como desérticos. Conheci o encanto das paisagens áridas, mas férteis do nosso Alentejo, a beleza montanhosa e imponente das Beiras e do Norte do país. Deixei-me deslumbrar pela Natureza, pelos climas, pelo calor das pessoas, pelo trato que também varia consoante as regiões. Não seria propriamente capaz de viver numa aldeia com 30 ou 40 famílias apenas, mas aprendi que conseguiria adaptar-me a certas cidades alentejanas e ribatejanas, por exemplo.

    Gosto de ser assim. De gostar de variar. De aprender e desfrutar. De trazer um bocadinho de cada lugar em mim. E assim ter algo em mim que é multicultural, que me torna mais tolerante, mais humilde e mais feliz.

    um beijinho 😘

    • Delicioso! Sim, também adoro essa capacidade de adaptação a vários cenários. Ultimamente temos procurado casa e realmente acho que ainda não encontramos o nosso sítio, híbrido, campo, cidade. E nisso, confesso tenho imensas saudades de morar em Lisboa, mas talvez tenha saudades de um período /vida que vive enquanto lá morei 😊 não sei, era divertido ter um poiso em cada distrito do país e poder saltitar conforme o ‘vento’ interior me dava. Mas assim no geral, acho que escolhia carros e pessoas em vez de pinheiros e esquilos, mesmo com o meu lado hipocondríaco … 😎😋 nesse sentido a hipótese do ‘hibrido’ é perfeita, é um pouco de tudo com o melhor dos dois mundos. Talvez deva procurar por aí. Mas mar para mim não dá, demasiado medo de tsunamis 😕 talvez pelos montes, bem pertinho de Lisboa! muitos beijinhos 😘

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