Limão

-Diz tu, li-mão.

-bam-bam

-(hihihihi) Limão.

-dam-nham

-hm? Então, li-mão.

-pti-pschi

-(HAHAHAHAHA) pois, liiii-mão!

-bnha-bnha…

-Limão…

É aquela palavra que ainda não percebi porquê mas sai sempre diferente…

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Papagaio

Já diz tudo. Ate diz “tudo”, assim mesmo percetivel. Diz sapato, casaco, collants e peúgas, diz mão, pé, cabeça, cabelo, rabinho, fralda, cocó, água, arroz, ovo, bolacha, pão, queijo, maçã, pêra, manga, banana (já se estão a ver os seus alimentos favoritos), diz linda, nada, ‘bora, vamos, boa, ok, avô, avó, tio, tia, as cores todas e mais o que lhe perdirmos que diga. E as sílabas que usa para dizer isto são: ba, co, go, ma, pé, pá, to, ta. Umas repete, outras vão isoladas, aponta e pronto é isto. Só algumas palavras merecem o estatuto da combinação de sílabas diferentes:

Tudo-tudo

Avó/avô-abó

Ovo-ôbo

Arroz-agô

Água-ábua

Abre-ábua

Amo-te-aaaaaaama

Pois sim, esta última até faz o meu coração palpitar, qual batata frita. É que desde que a caganita veio ao mundo que eu lhe digo “amo-te” a toda a hora é constantemente, ou quando a vejo ou quando me apetece. E há pouco tempo a cachopa decidiu começar a repetir-me! :’) ahhhhhhh… Lindo, lindo!!! No geral é sempre assim que ela aprende, repete e repete até que um dia diz por sua iniciativa. Pois começou a dizer “aaaama” por seu belo prazer e ela sabe que eu me derreto aos pés dela.

No outro dia enquanto estava a fazer o jantar ela pedia-me colo como sempre. Eu estava atrapalhada, como sempre, a tentar despachar-me, a cozinha por arrumar, comida a fazer, pôr a mesa e ainda descascar fruta, não conseguia pegar nela ao colo e por isso continuei a falar com ela, despachando-me, já estava eu a ficar enervada, ela passa do pedido ao grito e do grito ao choro, do choro à birra, eu vou tentando dar beijinhos, falar com ela, cantar, pedir coisas, dizer “Ahhhh! Olha aqui tão giro!” que só resulta umas três vezes, sendo que as últimas seis a criança já não está nem aí, e no meio daquilo ela tira o elástico do cabelo, os cabelos todos na boca, vem aflita “ba-ba”, eu com as mãos sujas ainda disse, “tonta! Porque é que fizeste isso? A mamã já te ajuda, tens de esperar um bocadinho”, ela põe-se entre as minhas pernas e o armário da cozinha e diz entre choro, “aaaama, aaaaaaamaa!!”. Bom, parei tudo e enchi-a de beijos e abraços, doida eu com aquela declaração…

E de repente acalmei o coração daquele embevecimento e pensei, “raio da cachopa que já me sabe conquistar!…” E pronto, é assim que começa.

Passado

O passado é tudo aquilo que aconteceu antes. É o ‘yesterday’ da canção dos Beatles. Às vezes há coisas que queremos esquecer no passado, ou que estamos gratos por poder melhorar no presente e no futuro.

Mas às vezes há lugares no passado que são uma espécie de refúgio de coisas que aconteceram no presente e onde desejamos voltar. Assim fechar os olhos e imaginar que estamos lá. Onde há problemas que temporalmente ainda não existem e somos felizes nessa inconsciência.

No fim do dia é também preciso saber fazer as pazes com o que passou, com o que nos calhou, com o que a vida nos deu, mas sobretudo com o que acreditamos que podemos fazer com ela.

E acreditar sempre. Acreditar que temos (algum) poder. De enchermos o nosso corpo de coisas boas que nos protegem. De nos rodearmos de pensamentos positivos afastando os ataques de pânico e outros ataques. De olharmos para as crianças e ficarmos felizes só de as ver existir. De sair. De aproveitar o dia, e a luz, e o sol. Que esse sabemos que nunca vai deixar de brilhar.

7.42

A doçura da liberdade. De poder fazer planos a longo prazo, a médio também, mas ainda assim conseguir fugir um bocadinho às rotinas. Por exemplo, chegar a casa e não jantar. Desligar as luzes todas e ficar deitada no sofá. Descobrir sítios da casa nunca antes descobertos. Por exemplo, sentir-me ao lado da cadeira do escritório e descobrir uma nova perspetiva do espaço nunca antes vista. Sair da faculdade ou já do trabalho e poder dizer, “Hoje apetece-me ir a pé”. E ir. Andar a pé até encontrar um café tão giro ou entrar numa livraria.

Entrar nessa livraria e escolher 2ou 3 livros e ficar a lê-los encostada à estante. E todos os dias pôr o despertador a uma hora diferente. Às 7.13, às 7.28, às 7.51. O ritual antes de adormecer era esse (agora o meu ritual antes de adormecer é tentar lembrar-me se lavei mesmo os dentes e cheguei a fazer xi-xi). Escolher um número como parte da minha liberdade, como parte da minha vida de adulta e de ser soberana nas minhas escolhas.

Era assim uma coisa minha. O prazer destas pequenas liberdades ou da incerteza do que faria no fim do dia. Das coisas mais deliciosas da minha vida.

E de repente encontro um homem maravilhoso por quem me apaixono profundamente que me revela que adorava começar as férias de verão desligando o despertador alinhado para as 6.30 desde setembro. Ahhhh?!? Pois, dizem que os opostos se atraem e deve ter sido aqui que ficámos estupidamente atraídos.

Realmente encontrei um homem que tem prazer na monotonia. Bom, confesso, também eu, quero dizer, a monotonia, no sentido em que reflete ritmos e ações que podemos esperar, antecipar, sem que sejam uma surpresa (boa ou má) é algo que todos gostamos pelo menos um bocadinho e sobre ela assenta o nosso modelo de sociedade.

E quando vêm os filhos, ui! Não só podemos esquecer o despertador a horas diferenciadas, como podemos esquecer o despertador, ponto! Qual ir a uma exposição no fim do dia ou andar à chuva. Saltar o jantar também não me parece uma opção. E dou por mim com essa sensação de que estou presa na incapacidade de regresso à minha liberdade juvenil.

Mas digo eu. Que no meio disto tudo, apesar de algumas diferenças estratégicas até tenho muitas semelhanças como o meu marido, e uma delas é-a nossa relação com o que é suposto, um rigidez perante o que deve ser feito que nenhum de nós consegue sacudir.

É sim, ficar com as luzes apagadas deitados no sofá sem jantar pode ser um pouco exagerado, mas talvez a minha zanga não seja exatamente por não poder ter algumas dessas liberdades mas por não conseguir proporcioná-las.

Porque não haveríamos nos de tentar sair da rotina familiar pontualmente? Poder olhar para o lado e perguntar, “O que fazemos hoje?” Sim, é fácil ser descontraído, livre e juvenil, a grande capacidade é saber sê-lo enquanto se é adulto, responsável, pai ou mãe, quando se tem contas para pagar, sono para pôr em dia é roupa para dobrar.

E para começar pode-se planear a liberdade, assim do género, às quartas é ‘noite livre’. E pode ser que um dia essa noite livre nem sequer precise de ser planeada. E seja mesmo… Livre.

Descontrai

Parece a coisa mais simples do mundo. Mas afinal é a mais difícil. Aquela que temos de aprender a fazer, de pensar e repensar. Parece a descrição daqueles penteados super descontraídos dos adolescentes que vai-se a ver não são nada descontraídos e ainda ficam 2 horas para os fazer.

E é essencial saber fazê-lo. É super saudável. E iliba doenças, cura males e limpa o colesterol das veias. Mas porquê, porque é que ficamos agarrados às comezinhas e vicissitudes do quotidiano? O outro fez e eu não gostei, a outra viu e não sei o que fazer agora, não sei quem não me tratou do papel nas finanças, as horas de espera em todo o lado que tanto desgastam, o trabalho que não vai para a frente, a procrastinação, o medo de tudo e o grande, pior de todos, medo de ter medo, estão lá, a cada esquina, dia a dia. E parece que não conseguimos ver mais além disso, estamos agarrados ao sapato, a ver se vamos longe, para isso temos de ter um bom sapato. E esquecemo-nos completamente que que não é o sapato que nos faz andar. E nem tão pouco o que está dentro dele, os nossos pés são o veículo, mas as pernas são o motor, mas precisamos do cérebro para os mexer, do coração e dos pulmões para os alimentar e por fim dos olhos para ver. Para ver para onde vamos, para escolher (bem) o nosso caminho, em vez de estarmos a pensar se os atacadores combinam com a sola, ou se a formiga do nosso caminho vai trepar pelo sapato.

No outro dia falava com o meu compadre e desabafava como me sentia bloqueada, presa e desanimada com a minha forma ansiosa de viver tudo na vida, desde a minha filha, ao meu corpo, ao ‘mundo lá fora’. Fiz-lhe imensas questões, falávamos sobre o amor, move montanhas, tem de mover. Ou nada mais fará sentido. E esta foi a resposta que ele me deu: ‘É esse o espírito. Acaba por ser uma decisão de cada um a forma como se pretende perspectivar o que sucede à nossa volta. Porque é mais fácil escolher o difícil? Porque temos consciência da nossa efemeridade e assusta-nos saber que estamos aqui de passagem e de repente sentimo-nos impotentes e sem soberania, mas a realidade é que se ontem o mundo era lindo e hoje já não o é, o problema está dentro de nós, porque lá fora nada mudou, apenas mudou a forma como o encaramos. Se o problema está dentro de nós, então afinal temos poder, e recuperamos a nossa soberania. Para além disso como poderíamos realizar a beleza sem conhecer a feiura, como podemos presenciar o bem sem conhecer o mal? Somos seres que percebem a diferença é não o estado absoluto. Faz tudo parte da forma como somos, nada de antinatural, apenas nos cabe aceitar o imutável, e abraçar a positividade da vida.’

E é isto. Vamos a isso.

Aerossóis…

Estou farta. Fartinha. Rai’s partam este inverno. A MR a adoentrar-se uma atrás da outra, eu atrás dela e o meu marido anda no mesmo carrossel… A última foi uma constipação mal tratada deu em infecção pulmonar. Um susto. Um susto tão grande que eu fiquei logo com uma infecção bacteriana, tau! Antibiótico para as duas. Desta vez safou-se o Z. E vá lá que não temos animaizinhos de estimação se não estou convencida que também levavam uma constipaçãozita para não se ficarem a rir.

E claro, soro, muito soro, água do mar, antibiótico, anti-inflamatório, xarope expectorante, anti-histamínicos e suplementos de vitamina C. De resto, o complemento das mezinhas dos antigos, mel e limão, chá, descanso e caldinhos. A casa parece a sala de espera de um consultório, toda a gente nos sofás e a segurar um lencinho. Aliás há lencinhos espalhadinhos por toda a casa, frasquinhos de soro e batons do cieiro. Há sempre colheres meladas com restinho de xarope e há um certo cheiro no ar que diz que estamos há tempo de mais em casa.

Mas há um especialmente que me irrita profundamente. É a maquineta de aerossóis. Essa safada. Com aquele fuinho a querer vaporizar-nós as ideias, aquele fresquinho que bate no queixo e até os pensamentos ficam enevoados. Não há direito na forma como aquela máquina ocupa a nossa casa de banho. E três vezes por dia lá vou eu e ela para a casa de banho respirar aqui e tossir até mais não. Faz muito bem eu sei, mas a caganita já fez isto tantas vezes que mal se senta no balcão pega no copito e diz ‘abua’ enquanto aponta para o soro, a seguir põe o tubinho no sítio dele, encaixa o bocal, e, espante-se liga a máquina no botão!!!! Enfim, a minha filha só tem 18 meses, mais do que achar que isto é um prodígio estou em achar que isto é um sinal de perigo. Perigo de excesso de exposição ao inverno… Volta verão, volta por favor que estás perdoado… Até lá é abrir janelas. E confesso, enquanto a cachopa dorme a sesta fugimos ao quintal esticar as pernas e sacudir cabelos ao sol. E namorar um bocadinho que ela está quase a despertar…