Convalescença

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Começam a parar as dores e lá me vou adaptando melhor a este estado… Estou assim, como podem ver nesta imagem fielmente reproduzida, com um ar esgazeado, inchada, algumas olheiras, o cabelo deslavado… notam mais alguma coisa? Ah sim, claro, sem importância nenhuma, aquele penso estético branco tipo proteções sexys de boxe, pelo menos esses são mais equilibrados, é uma de cada lado. Muito fixe…

Quando perguntei ao médico pormenores da operação, estava de facto concentrada em perguntar-lhe como seria na recuperação. Acho que o que me assustava mais neste procedimento era aquilo que eu me sentiria impedida de fazer na relação com a minha filha. Eu passo muito do seu tempo com ela e não só me custava a ideia de não passar como não estava bem a ver como é que podia pedir substituição temporária. Bom, mas aparentemente não era preciso. Pois, o médico disse-me, ‘Recuperação? Nem vai dar por nada, não tem dores no pós-operatório, nem complicações, é simples, não custa nada, vai para casa no próprio dia, não tem dietas, nada. Pode fazer tudo normalmente. Só não convém sair de casa até retirar pensos e pontos. Vai perceber porquê.’

Sim, percebi, as pessoas fogem de mim. Ok, fora de brincadeirinhas, adoro este médico, acho que é sério, descontraído q.b. e ainda por cima é de uma humanidade fantástica em projetos que leva a cabo até além fronteiras. Uma das coisas que adorei ouvir da sua boca foi ‘Isto tem tudo para correr bem’. É algo raro ouvir da boca de um médico. Geralmente os médicos, em prol da ‘ética’ têm de ser honestos e acreditam muitas vezes que a honestidade passa por dizerem, ‘Em princípio corre bem, mas claro que tem riscos e pode haver complicações’.

Algo que evito dizer aos médicos, sou hipocondríaca. Disse hipocondríaca? Não acho que sou uma hiper-hipocondríaca, como diz o meu compadre. Em geral os médicos não gostam de hipocondríacos e tendem a não gostar de hiper-hipocondríacos. Neste campo nem me posso queixar muito, tenho médicos fantásticos cheios de paciência para mim. Mas não há coisa que mais odeie que o ‘pode haver complicações’… E por isso acho que preferi esta ‘ligeira’ surpresa do que a antecipação da crua realidade.

Pois, a ausência de sintomas realmente deve ser para os muito fortes. Considero que tonturas, dores nos pontos, dores no ouvido interno, ausência de posição para dormir, um aperto/pressão na cabeça durante uma semana e 3 dias, incapacidade para me baixar, impossibilidade de fazer esforços durante cerca de 30 dias, enfim, já estão a ver por onde isto vai, seja algo um pouco mais que ‘sem sintomas’. Mas isto digo eu, realmente nunca fui operada à apêndice nem a outra coisa qualquer mais chata. Imagino que hajam pós-operatórios mais dificeizinhos (digo-o sem qualquer condescendência).

Mas cada um com a sua e eu queixo-me do meu. Afinal precisei de bem mais ajuda do que todos calculávamos, sobretudo com a MR. E ainda por cima não me avisaram que podia regular o penso, então nos primeiros 3 dias, associada à dor da costura, etc., tinha dores alucinantes na cabeça porque o penso estava apertado. Tanto que fiquei um bocado inchada e com um olho meio negro… Para além disso ainda não tenho sensibilidade total na língua pois isto está tudo muito ligadinho para nos fazer lembrar que a natureza é espetacular a economizar espaço e nós, por muito bons arquitetos que sejamos, nem lhe chegamos aos calcanhares.

Pelo meio vários elementos da família fizeram anos e eu fui fazendo as comemorações que pude, com este meu look alternativo, fugindo como podia às fotografias. Aproveitámos para repensar cá em casa as tarefas de cada um pois constatou-se que afinal quando eu não faço (quase) nada, muito pouco aparece feito, e por isso já agora podíamos passar a ajudar mesmo quando eu não estou doentinha… Posto isto, já se deliberou em conselho geral a miúda passa a ir para a escolinha com o pai em vez de ir e vir com a mãe que vê o seu horário de trabalho apertadíssimo nestas viagens todas. Com isto a recuperação até se faz mais animada, ainda assim um bocado exausta, cheia de comichões e sensações várias em nada equiparadas a algo assintomático. É a assim a vida de uma hipocondríaca. Sábado vou retirar o penso e saber se o meu querido tímpano decidiu fechar ou continua a insistir numa comunicação entre o interior e o exterior. A ver. Espero não começar a roer unhas até lá…

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Coisas sem importância

Há cerca de um ano percebi que tinha um tímpano perfurado. A situação já vinha de ter tido otites em miúda, era uma situação que se tinha resolvido mas numa consulta de rotina realmente percebeu-se que deveria ser operada. É uma coisa sem importância porque realmente isto não tem qualquer implicação na minha vida tirando o facto de não poder apanhar água no ouvido. De resto, nem dores, nem nada. É mais uma questão preventiva, um tímpano aberto ao fim de uns anos pode dar chatices, infeções, etc. É assim fica resolvido. Bom, na altura a minha filha tinha uns 9 meses e achámos que não havendo qualquer urgência se faria a operação um ano depois mais ou menos. Cá estamos.

Na verdade é uma coisa simples, e sem importância mas não podia estar doente ou constipada quando viesse fazer a operação. E tendo uma filha pequenina no infantario, no seu primeiro ano de infantário… Bom, compromete um pouco esta premissa. De modo que depois de vir para casa doente, constipada, pela quinta vez neste inverno acabei por decidir, uma vez que faltavam 30 dias mais ou menos para a operação, pô-la em casa, tendo ficado assim entre a nossa e a casa da minha sogra, com este propósito de a resguardar e a nós. Porque nós cá somos assim, gostamos tanto uns dos outros que quando um adoece, adoecemos todos… Bom, tê-la em casa, é de facto bastante exigente, e ao fim de uma semana, eu que estava nervosa com a operação, já pensava, ‘venha ela!!’

Uma noite no hospital tem destas coisas, uma noite inteira só para nós. Dá para dormir, para ler mais uns parágrafos do livro do momento, ainda se escreve um post no blogue e responde-se a email e mensagens em atraso. Bom… Bem vistas as coisas não são 15 dias, são umas 15 horas, pouco mais, e sendo que a intenção é uma operação o estado de espírito não é bem, ‘yes, me time!’…

Bom, mas, sendo uma hipocondríaca inveterada estou bastante orgulhosa de mim. A noite passada na clínica é antes da operação e não depois ( o que a torna- à noite- mais difícil na minha opinião), decidi que o meu marido me vinha trazer mas que cá ficava sozinha de noite, para que a minha filha tivesse uma noite o mais normal possível, e não pedi a mais ninguém para ficar comigo e sinceramente estou a aguentar-me muito bem. Nice. Deve ser da maternidade. Se é verdade que nos fragiliza em 300 coisas também o é que nos deixa mais fortes para aí noutras 500. Tinha de ser assim, senão já não haveriam mães e pais no mundo.

Bom, apesar de me sentir confiante passei o dia um bocado enervada e de vez em quando lá me imaginava a chegar à sala de operações, ou a dormir sozinha, quebrava um bocadinho. O meu querido marido que me conhece tão bem, passou o dia a tentar falar de arquitetura e projetos e ideias para novos negócios, e como isso para mim é tão inebriante como ossos a um cãozinho, não precisei de qualquer esforço para ver a minha mente atirar-se àqueles temas com garras e dentes deixando outros pensamentos para trás. Sim, se há quem pense na família ou numa praia deserta para se sentir zen, eu cá preciso de pensar em arquitetura para relativizar os meus ataques de pânico ou para adormecer em noites de insónia.

Ainda assim recebi alguns telefonemas de ânimo e boa sorte e os tradicionais ‘vai correr tudo bem’. Sim, pois vai, aliás até é uma operação simples e sem importância. Mas algumas pessoas acrescentaram que iam estar a pensar em mim ou iam rezar por mim. Bom, eu não sou católica, nem sequer batizada, mas quando me disseram isto emocionei-me e fiquei até um pouco aliviada. Sabe bem estar nas preces dos nossos. Saber que alguém ficou a pensar em nós. Mesmo que não esteja a rezar. Que nos telefonam ou mandar mensagens carinhosas e ‘força aí, que amanhã já te livraste disso!’ Sabe muito bem. Todos nós temos os nossos deuses ou as nossas energias mas sabe muito bem estarmos contemplados noutras fés. Sejam elas quais forem, importa sentirmo-nos contemplados no carinho dos outros. Seja no dia que nos proporcionam a falar de temas sem parar só para nós distrair, seja porque adormecem a pensar em nós ou porque nos querem bem e mandam ‘boas energias’. Só pode correr bem 😊 ❤️