Miminho

Nas línguas, por mais que se possam traduzir palavras, expressões, cultura, a verdade é que cada uma tem uma forma muito própria que fica alduterada nesta passagem. Parece que cada vez mais pessoas de todo o mundo comentam e reconhecem a palavra ‘saudade’ como única no mundo. Só em português é dita assim e com esta intensidade e afinal é até uma coisa muito nossa e muito marcada pela época dos descobrimentos.

Mas para mim a palavra única em português é a ‘miminho’. Sim, sei que se pode dizer em muitas outras línguas (provavelmente até em todas pois é algo tão primário e primordial), mas que eu saiba em nenhuma se diz assim desta forma em que só a sua dicção é, já em si, um miminho.

Foi das primeiras coisas que a MR aprendeu a fazer, a dar um miminho. Ante o derreter de toda a gente, a MR dá miminhos e já mimetiza relações, andando com um bonequinho de um lado para o outro a fazer-lhes, claro está, miminhos.

Hoje ouvi um pediatra, na rubrica ‘Pais e Filhos’ da TSF, que dizia que as massagens ao bebé são importantes na medida em que são a extensão do toque dos pais. São tempo disponibilizado e afeto físico. São um miminho e nesse sentido, aconselhadas. E é isto. Este povo português dos ‘inhos’ e ‘inhas’, coisinha, jarrinha, lá encontrou a palavra para este ato carinhoso. É um miminho. E cura dores, ajuda a tratar constipações. Um miminho aquece a alma e o coração. ❤

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Pedrita no sapato

Quando a minha filha está doente essa é a única coisa que está a acontecer na minha vida. Por isso, é apenas depois de começar a sua recuperação que eu me vou abaixo e adoeço. Bom, claro que terá algo que ver com a acumulação de noites mal dormidas, a pressão psicológica, o período de incubação dos vírus que passam nos beijinhos, etc.

Mas é o qualquer coisa. O ser hipocondríaco é como ter uma doença autoimune. Enquanto o corpo tem com que se entreter combate os agentes agressores externos. Mas quando não tem nada com que se (pre)ocupar vira-se contra si próprio. E com os hipocondríacos é um bocado assim. Enquanto há uns medos que são vigiados com exames e umas doencinhas reais, os dias vão passando, entretidos. Mas na noite em que não há nenhum medinho ou preocupação, vem aquela sensação… E agora? Com o que é que deveria estar assustada? E então vêm os medos autoimunes, os ditos infundados.

E vale tudo. Qualquer coisa que entretenha o pensamento e que somatize os medos do momento, sejam eles físicos, psicológicos, sobre trabalho ou afetos. Até agora o meu modo zen é concentrar-me em arquitetura. Penso em projetos em curso e trabalho-os mentalmente, tomo decisões, faço testes de cores. Resulta quase sempre, mas uma vez ou duas lá tem de falhar.

Nessas noites não durmo nada de jeito e ainda acumulo uns problemazinhos para a noite seguinte. É assim como quem anda com uma pedrinha no sapato. Preciso de saber que está lá para ocupar o meu pensamento sobre formas de a retirar. Se a pedra não estiver lá não posso pensar em formas de a retirar, sinto-me perdida. Mesmo que a pedra no sapato seja mais dolorosa parece estranhamente mais confortável.

Porque preferimos sempre esta versão de estar atento, vigilante, preocupado? A natureza preparou os nossos sentido para que não fôssemos distraídos. Mas realmente por muito que retiremos o homem da natureza não fica fácil eliminar a natureza do homem. E sobretudo à noite. É inevitável. Vem o sono, mas também a sensação de vulnerabilidade. Somos frágeis a essa hora. É a consciência disso que nos salva. Mas sem exagero. A ideia não é fugir antes do tempo, mas apenas se necessário. Acho que estou a ficar perto… Até lá vou escrevendo. As palavras empurram as pedras do sapato para um lado e para o outro. No meio de tanta agitação, com sorte, ainda uma ou duas se perdem pelo caminho…

Ok!

Então basicamente já retirei o penso, retomei a ‘normalidade’ da vida e o mais importante de tudo, como estava este ouvidinho? Ótimo! Intacto! As good as new! Ahhhh!!! 🙂 agarrei-me ao médico que ficou um bocado perplexo. Fui rápida no abraço, mas não contive as lágrimas.

Eu explico, desde os 2 anos que fazia muitas otites. Aos 8 anos tive uma perfuração e desde aí fiz tratamentos para evitar a propensão a otites, tive imensos cuidados no banho, não podia mergulhar em piscinas, etc. A boa notícia é que o tímpano foi fechando e decidiu-se não operar. A verdade é que o tímpano fechou uns anos mais tarde e portanto, tudo ok, podia fazer a minha vida normal. Fruto de ter estado tantos anos em cuidados no banho para não entrar água para os ouvidos, aprender a nadar sem molhar os ouvidos, acabei por manter alguns desses hábitos mesmo sabendo que estava tudo bem. Acontece que fiquei muito tempo sem ir ao otorrino, nos anos de final de faculdade e nos anos em que comecei a viver sozinha, quando finalmente no ano passado fui fazer um check-up recebi a notícia de que o tímpano estava perfurado e quase não tinha tímpano, aliás. Afinal parece que depois do tímpano ter fechado naturalmente bastava um assoo veemente para o romper novamente.

Bom, ao longo destes anos fui perdendo audição, no ouvido afetado, mas achei sempre que eram memórias da perfuração. Afinal era a dita perfuração. Tanto que ao deitar-me numa almofada em cima do ouvido ‘bom’ deixava de ouvir qualquer som que não fosse um bocado alto.

Pois quando o médico me disse que estava tudo ok, imaginam o que senti. Foram 25 anos de ouvido por resolver e tudo ficou como que arquivado de uma forma muito positiva. Vim o resto do caminho a chorar e a mandar mensagens aos amigos todos e família, ‘tenho o ouvido bom, tenho o ouvido bom!!’. Foi mesmo muito especial.

Mas depois de tirar o penso também comecei a ouvir ligeiramente melhor. E um dia estava deitada na almofada, em cima do ouvido que ouve melhor e o Z. sussurrou. E eu ouvi. E desatei a chorar. Parece um bocado exagerado, não é que eu tivesse ouvido pela primeira vez, mas a verdade é que nunca mais pensei em voltar a ouvir melhor. E de repente ali estava eu a ouvir sons numa posição em que tal me era impossível há 1 mês. Desatei a chorar e a rir. E aos beijinhos ao Z.

E de repente até dei razão ao descontraído do meu médico. Isto foi quase assintomatico. Sobretudo nesta relação custo-beneficio. Vivam os tímpanos saudáveis. E eu tenho dois 🙂