Pedrita no sapato

Quando a minha filha está doente essa é a única coisa que está a acontecer na minha vida. Por isso, é apenas depois de começar a sua recuperação que eu me vou abaixo e adoeço. Bom, claro que terá algo que ver com a acumulação de noites mal dormidas, a pressão psicológica, o período de incubação dos vírus que passam nos beijinhos, etc.

Mas é o qualquer coisa. O ser hipocondríaco é como ter uma doença autoimune. Enquanto o corpo tem com que se entreter combate os agentes agressores externos. Mas quando não tem nada com que se (pre)ocupar vira-se contra si próprio. E com os hipocondríacos é um bocado assim. Enquanto há uns medos que são vigiados com exames e umas doencinhas reais, os dias vão passando, entretidos. Mas na noite em que não há nenhum medinho ou preocupação, vem aquela sensação… E agora? Com o que é que deveria estar assustada? E então vêm os medos autoimunes, os ditos infundados.

E vale tudo. Qualquer coisa que entretenha o pensamento e que somatize os medos do momento, sejam eles físicos, psicológicos, sobre trabalho ou afetos. Até agora o meu modo zen é concentrar-me em arquitetura. Penso em projetos em curso e trabalho-os mentalmente, tomo decisões, faço testes de cores. Resulta quase sempre, mas uma vez ou duas lá tem de falhar.

Nessas noites não durmo nada de jeito e ainda acumulo uns problemazinhos para a noite seguinte. É assim como quem anda com uma pedrinha no sapato. Preciso de saber que está lá para ocupar o meu pensamento sobre formas de a retirar. Se a pedra não estiver lá não posso pensar em formas de a retirar, sinto-me perdida. Mesmo que a pedra no sapato seja mais dolorosa parece estranhamente mais confortável.

Porque preferimos sempre esta versão de estar atento, vigilante, preocupado? A natureza preparou os nossos sentido para que não fôssemos distraídos. Mas realmente por muito que retiremos o homem da natureza não fica fácil eliminar a natureza do homem. E sobretudo à noite. É inevitável. Vem o sono, mas também a sensação de vulnerabilidade. Somos frágeis a essa hora. É a consciência disso que nos salva. Mas sem exagero. A ideia não é fugir antes do tempo, mas apenas se necessário. Acho que estou a ficar perto… Até lá vou escrevendo. As palavras empurram as pedras do sapato para um lado e para o outro. No meio de tanta agitação, com sorte, ainda uma ou duas se perdem pelo caminho…

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4 thoughts on “Pedrita no sapato

  1. Deve ser por isso que os meus medos são quase sempre nocturnos. Já cheguei a ter uns ataques de pânico durante a noite porque acordei assustada e tinha medo que o meu coração parasse, coisa tão parva!

    • Ahahahah!! Tenho de rir, porque prefiro isso a chorar e porque realmente já me aconteceu… e até senti formigueiro nas mãos e nos pés. Parei quando percebi que quanto mais lia sintomas na internet sobre paragens cardíacas mais sintomas tinha. Felizmente posso rir-me disso porque aprendi a lidar com os ataques da melhor forma. Mas no momento em que estamos no turbilhão de emoções não tem graça nenhuma e parece-nos mesmo o fim do mundo. Felizmente também é uma coisa muito parva sim 🙂 Mais parva do que séria.

      • O problema destas coisas parvas é que não as conseguimos controlar e acontecem a muita gente, por isso não devíamos achá-las tão parvas assim. Mas espero que não aconteçam regularmente!

      • É mesmo… A verdade é que numa primeira fase tinha, confesso, muita vergonha disso. Quando consegui falar sobre isso percebi que várias pessoas também ‘sofriam’ deste mal. Perceber isso ajudou e construtivamente consegui usar o testemunho dos outros positivamente, aprendendo com essa experiência sem ter de passar por ela novamente. E no final rir é sempre um bom remédio desde que se tenha aprendido algo com isso 😊

        Um beijinho 😉

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