A hora do pai

Não querendo ser injusta, nem necessariamente justa, este relato refere-se essencialmente à minha experiência, como tudo neste blogue. Mas sei que efetivamente acaba por ser a experiência da esmagadora maioria das famílias, não sei se de todo o mundo, mas em Portugal tenho a sensação que sim.

O pai chega a casa e a mãe já lá está com o bebé. Normalmente quando o Z. põe a chave à porta a MR está sentada à mesa a meio ou no fim do jantar. Ele não faz por mal, nem é culpa de ninguém em especial, acontece que o Z. trabalha a 1 h de casa, vai de transportes públicos, se há um atraso ou greve (sem comentários) lá demora o dobro do tempo e escolhemos apostar num horário mais flexível para mim, que faço o esforço de me despachar muito durante o horário de expediente, mas que felizmente a trabalhar com os meus pais consigo sair um pouco mais cedo e ir buscar a MR ao infantário a tempo de tratar dela, do jantar de todos e da casa.

Mas assim contado perdem-se os pormenores. Também não é por maldade ou por ajuste de contas, é por justiça à minha mente e corpo que preciso de explicar um pouco mais. Quando o pai chega não gosta que lhe digam logo ‘traz um guardanapo, leva isto para a cozinha e traz mais água’. Responde ‘é pá! Boa noite, deixa-me descalçar, lavar as mãos, vestir algo confortável…’ E tem razão. Sinto que não é forma de receber ninguém. Mas o pai não viu e não esteve nas últimas 3 horas do dia. Em que alguém saiu do emprego a correr, foi buscar bebé, foi às compras, subiu e desceu as escadas de casa 3 vezes com o bebé ao colo para levar tudo para cima, fez o jantar para todos, deu banho ao bebé, arrumou a cozinha, pôs a mesa, serviu o jantar e nem teve tempo de trocar de roupa.

Diz-se que os filhos põem o casamento dos pais à prova. Entre outras coisas. Dizem até que os afastam. Não é exatamente por falta de tempo. Ou que os pais discordem por sua causa. No geral essas questões resolvem-se com mais ou menos discussões. É a falta de disponibilidade que mata. Ficamos exaustos. Com a sensação de que não deu nada para nós. E cada um está a precisar de tempo para si, que o outro dê mais atenção, de silêncio e de menos tarefas. Mas como são só 2, geralmente, não há muito a quem pedir quando se está no sofá às 10 da noite a tentar não fazer barulho para o bebé não acordar e a tentar ganhar forças para chegar ao comando da TV.

E não é uma competição, não é uma zanga, é outra coisa. Os pais começam a ter vidas diferentes, com horários diferentes. E se não houver um amor e vontade, sobretudo vontade, infinitos, passa muito tempo em que se passa muito pouco.

Ultimamente temos finalmente tido cada vez mais tempo. É uma questão de organização. Finalmente conseguimos ter jantar a horas, a casa arrumada, a roupa em dia. E com a cachopa mais crescida, fica mais vezes com os avós, para os pais saírem, se ouvirem ou para não fazerem nada. E até instituímos um dia para namorar (nós somos assim, porquê contrariar? Gostamos de regras), sentimos que vamos ganhando a pouco e pouco a nossa vida novamente e com a possibilidade desses ganhos até temos mais capacidade de ouvir, ajudar e compreender o outro. Lá está, não se trata de recuperar a nossa vida. A vida não se recupera. Vamos ganhando uma outra vida a dois, a três e individualmente também. E nesta coisa do pai chegar e precisar do seu bocadinho, é justo. E na hora de deitar a bebé vai o pai. É a hora do pai. Ou melhor, é a hora da mãe. Se sentar, acreditar que tem 1 hora de relativa liberdade para descontrair, pensar, fazer coisas parvinhas e desinteressantes como ver TV, ou folhear uma revista ou ficar colada ao pinterest. Tudo vale desde que não se faça barulho e que o pai esteja a adormecer o bebé ❤ 

4 thoughts on “A hora do pai

  1. “Passa muito tempo em que se passa muito pouco”.

    Para mim, essa é a ideia-chave do seu texto. Precisamente o contrário do cenário idílico do “casamento perfeito” que cada uma de nós sonhou enquanto menina, e que tragicamente descobre que não existe, enquanto mulher.

    O cansaço, a exaustão, a claustrofobia do quotidiano, o viver em conjunto uma vida que de “conjunta” parece, por vezes ter apenas os filhos em comum e a partilha do mesmo espaço físico.

    E o que mantém o quê: é o amor que mantém a vontade, ou a vontade que mantém o amor?

    E de onde vem esta melancolia de algo que já fomos mas que não somos mais, e que talvez já nem queiramos voltar a ser, e de algo em que nos vamos tornando e, simultaneamente parece que nunca alcançamos?

    Encontros que se sucedem a (des)encontros, namorados que continuam enamorados, apenas o namoro vai dando relevo a outros valores. Se ao início da história de um casal a paixão parece o mais importante dos sentimentos, o passar do tempo e o desenrolar da vida vão dando destaque à compreensão mútua, das necessidades e das provações não só do casal enquanto unidade, mas de cada um enquanto indivíduo.

    Por vezes imaginei como seria a minha vida se me tivesse casado com outro homem e não este. Se teria sido “diferente”. Não por não amar o meu marido, nem tão pouco por necessitar de uma vida “diferente”. Mas porque por vezes senti que me perdia, e que nos perdíamos, nas entranhas da vida.

    Nós não tivemos o apoio dos pais, fomos sempre nós, depois as gémeas e, mais recentemente a mais nova. É uma casa de mulheres. Todas caprichosas, diga-se de passagem, com vontades muito próprias.

    Eu e o meu marido somos ambos da área da saúde e com carreiras muito absorventes e intensas. E, tendo eu assumido o papel mais em “full-time” da prestação dos cuidados às meninas, cheguei por vezes a sentir ciúmes do meu marido, que continuou a investir praticamente com a mesma dedicação na sua carreira, ao invés que eu tive de acabar por fazer algumas cedências nesse campo.

    Senti que era injusto, sim. E durante algum tempo acho que guardei um certo ressentimento. Mesmo que não totalmente
    consciente. E só quando me tornei consciente desse fato e o assumi perante ele com frontalidade, consegui finalmente começar a desvanecer uma certa “distância” que se tinha instalado entre nós.

    Estranha forma de amar, em que por um lado queremos o amor do outro e fazer tudo por ele, por outro queremos ter o mesmo que ele tem, e por outro ainda castigamo-lo um bocadinho, talvez por revolta, talvez por necessidade de atenção ou reconhecimento, talvez por mau feitio, ou simplesmente porque a vida não é fácil e há dias assim.

    Gosto muito dos seus textos. A minha A.B. está doente e não consigo pregar olho. Enquanto não durmo desabafo um bocadinho. Como diz, é uma “fuga”. E é um bocadinho também daquele “espaço próprio” a que cada um tem direito e que tem tanto de libertador como de saudável 🙂 Um beijinho!

    • Clara,

      Muito obrigada por este texto tão generoso. De facto, este blogue ajudou-me imenso neste meu percurso, naquilo que libertei pelos meus desabafos e nas pérolas que recebo de comentários como este.
      É verdade perdemo-nos um pouco e quando nós tentamos reencontrar nem sabemos bem do que é que estamos à procura. É sim penso mil vezes como teria sido a minha vida se tomasse outros caminhos, mas não é porque seja infeliz com este caminho, de todo, é porque fica impossível não irmos testando as nossas opções de vida quando só podemos prever o futuro quando ele se torna passado.
      Gostei muito de ler este texto é estive a partilhá-lo com o meu marido e tudo. Sabe bem saber dos outros quando eles têm vidas que afinal são tão próximas das nossas.
      3 miúdos deve ser dose, mas deve ser maravilhoso também 🙂 um beijinho grande e muitas felicidades.

  2. Adoro esta clareza de ideias. Dito assim, até parece fácil de entender. Mas quem está no meio só se apercebe com dificuldade. Às vezes, tarde demais para alguns casais…
    Subscrevo cada letra 🙂 O pai que chega tarde, a mãe que já está as últimas a suspirar pela hora de deitar as crianças, o tempo e a falta dele, a nova família que se constrói e cada um de nós que se reconstrói à medida dela. Por aqui também estamos a regressar ao nosso tempo. “Sobrevivemos” ao ajustamento que, ao contrário do que se pensa, não se faz em meses, mas demora anos. E estamos felizes com esta travessia do deserto que será a grande história da nossa vida para contar no futuro.
    Beijinhos

    • Oh Marta, gosto sempre tanto destes comentários construtivos!! Pois é, são muito mais do que meses… E nós ainda só vamos no primeiro. Imagino que de cada vez que vem outro a coisa se destabiliza um pouco novamente.
      Às vezes tenho a sensação de que mais que paciente ou qualquer outra coisa, os filhos e um casamento implicam resiliência. E sim, depois de sobrevivermos temos essa história e essa construção maravilhosa para mostrar.
      Também subscrevo estas palavras 🙂
      Beijinhos grandes

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