Medos de mãe 

Quando digo que me tornei hipocondríaca desde que a minha filha nasceu, algumas pessoas perguntam-me, ‘sobre ela?’. Não de todo. Sobre ela tenho preocupação, cuidado, atenção, mas confiança. Confiança profunda de que para mim ela será sempre imortal. Mas que disso depende, pelo menos numa fase inicial, a minha profunda e indispensável presença. Por isso quando me tornei hipocondríaca foi, sem sombra de dúvida, sobre mim.

Abateu-se sobre a minha vida, condicionando-me completamente, um medo profundo de lhe faltar. Um medo exagerado, louco, que só podia pertencer a uma mãe. Um medo de quem está permanentemente atenta, cuidando, prevendo, analisando. E as previsões quando se cruzam com os nossos medos são imagens de hipotéticos futuros que se podem ou não realizar. E sim, por vezes os nossos medos podem realizar-se e essa possibilidade deixa-me num pânico permanente.

No outro dia fomos ao Pavilhão do Conhecimento os 3 com o meu irmão. Quando ele era pequenino íamos lá imensas vezes e quis levar a MR na sua primeira visita com a companhia nostálgica do tio. Nem sabíamos o que estava em exposição de modo que nos deixámos todos surpreender. No piso inferior está ‘Loucamente’, uma viagem sobre a mente humana, suas doenças, suas inquietações. Gostei tanto que estou com vontade de lá voltar apenas para a ver novamente com mais calma.

Com uma forte presença de resultados e colaboração com o Hospital psiquiátrico Júlio de Matos, tem uma série de momentos e espaços dedicados a explicar os vários distúrbios mentais que sentimos ou não, ao longo da vida, desde o pânico que é mais um estado, à esquizofrenia que é mais considerado uma patologia. E de repente passei por um toucador antigo, com um espelho, onde podíamos interagir durante uma explicação de distúrbios como psicoses ou depressão enquanto, surpresa, vemos a nossa imagem refletida e analisamos todas aquelas sensações. Uma das explicações das psicoses é justamente que a zona responsável no nosso cérebro pela nossa sobrevivência, que está atenta a sinais, que nos protege e alerta de hipotéticos perigos, está hiper activa, não conseguindo desligar ou relativizar. Como consequência ficamos em pânico constantemente, numa sensação de frenesim emocional que não pára nem por nada.

Senti-me de repente imensamente identificada como recém mãe com a incapacidade de desligar o meu estado de alerta. Como se estivesse 24 horas por dia, todos os dias do ano, atenta a qualquer coisa que nem eu sei o que é, desde que a MR nasceu. É um exagero das mães que protege os filhos nos primeiros tempos de vida, que torna as mães cuidadosas e zelosas e os filhos mais seguros. Mas e se for exagerado? E se eu tiver o meu botãozinho da atenção e vigilância regulado ligeiramente acima do que seria necessário? Como saber isso e como regulá-lo para um nível ligeiramente mais baixo?

No final da apresentação sugeriam-se formas de tratamento destes estados, desde a medicação quando/se necessário, à atividade física e boa alimentação e, pasme-se, ao contacto próximo e afetivo com outras pessoas 😊 Achei tão bonito. E tão terapêutico, de uma forma simples e tão humana. É isto mesmo, sem exagero, mas sem desleixo, cuidar de nós, de quem temos de cuidar, comer bem, fazer exercício e estar afetivamente ligado a pessoas, a quem queremos e que nos querem bem 😊❤️

Fez-me sentido. Vim para casa e peguei na agenda. Voltar a conectar-me com alguns amigos que não vejo há algum tempo. Marcar jantarinhos no terraço, passeios à beira-mar, gelados sobre uma boa vista. Sentir que nós temos sempre o poder de viver bem a vida que temos e não de imaginar a vida com o que poderíamos ter. E vivê-la, simplesmente.

4 thoughts on “Medos de mãe 

  1. Fiquei curiosa sobre esta exposição… Por aqui estamos a tentar de quem sempre cuidou dos outros, de quem vive com o medo de não ser suficiente para cuidar de tudo e de todos. De quem vive com um medo irracional em relação a tudo o que possa acontecer… Seria bom levá-lo até lá 😉 obrigado pela partilha 😉

  2. Essa exposição é ótima, recomendo vivamente. Felizmente já é reconhecida em várias áreas médicas, para além da Saúde Mental a importância dos afetos. Esta é uma parte importantíssima e uma das mais determinantes no bem estar psicológico. Tenho amigos que optaram por Psiquiatria e em alguns hospitais existe uma estratégia de terapia ocupacional e inserção social que passa pela realização de atividades tão simples como a confecção de bolos, sobremesas, objetos decorativos, pintura, entre outras e sua partilha com doentes de outros serviços ou venda ao público. O sentirmo-nos produtivos, o intercâmbio com o próximo são fundamentais. Assim como o retirar prazer. Parte da reabilitação psicológica e emocional de indivíduos com doença mental grave, seja de que espectro for, passa pela aprendizagem da retirada de prazer de atos e tarefas simples do quotidiano – exploração de sabores que nos sejam agradáveis, como por exemplo comer um chocolate, confecionar um bolo e apreciar o cheiro enquanto coze no forno e o seu sabor, plantar e tratar de flores, partilhar uma refeição com outras pessoas, interagir com animais, etc. O prazer e os afetos são necessários e fazem parte das nossas necessidades emocionais e psicológicas, determinando repercussões físicas positivas ou negativas.

    A maioria das coisas que nos faz bem na vida faz-nos bem precisamente porque nos proporciona prazer, não sendo encarada como uma obrigação ou porque se convencionou que “faz bem” ou “é saudável”. Para cada um de nós existe o que nos faz bem e o que é saudável, de acordo com a personalidade e o estilo de vida. Até em termos biológicos não somos todos iguais e temos necessidades diferentes. E estas atividades e coisas maiores ou pequenas que nos fazem bem estão-nos acessíveis de formas em que por vezes não pensamos de imediato. Por exemplo, existem pessoas muito fisicamente ativas que não praticam formalmente desporto, nem sequer bicicleta ou passadeira em casa, e no entanto poderão estar tão em forma como quem vá duas ou três vezes por semana ao ginásio. E nem sequer fazer restrição calórica. E perguntamo-nos como é possivel. Ora, se pensarmos bem, e isto está cientificamente comprovado, numa tarde com os filhos na praia, num parque aquático, numa limpeza profunda à casa, num passeio a um shopping, a fazer jardinagem ou numa ida a um museu acabam por se gastar tantas calorias como na prática de exercício físico. No fundo, estas atividades SÃO exercício físico. Do mesmo modo, a sensação de prazer está associada ao bem estar físico e mental, repercutindo-se positivamente em inúmeras funções biológicas e metabólicas. A própria música, a leitura num ambiente descontraído, até um cheiro familiar ou um sabor doce e agradável associado a uma emoção positiva contribuem para esta regulação bioquímica e hormonal.

    O prazer deve ser usufruído e embora importante a nível individual, é importante partilhá-lo. Ninguém é uma ilha, por muita frieza e introversão que contenham os seus traços de personalidade. Os afetos devem ser cultivados, alimentados e multiplicados. É importante cultivar amizades de longa data, tanto como estimular novas ligações. Do ponto de vista de um casal isso é importantíssimo, a expansão dos laços sociais. As jantaradas, os churrascos, os aperitivos, os cocktails e as sobremesas são ótimos pretextos para um convívio interessante, para além de uma oportunidade de exibir os dotes culinários (também revestidos de importância social e familiar). Em quase todas as viagens que fazemos criamos novas amizades com quem acabamos por almoçar e jantar pelo menos umas duas vezes por ano. E o conhecer pessoas novas e trocar impressões com quem não estamos tão familiarizados desafia as nossas capacidades de adaptação, de interação e, para além dos benefícios das novas amizades ajuda-nos interiormente e mentalmente a assimilar e relativizar muitas coisas.

    A todos desejo ótimos e estimulantes convívios e trocas de impressões 😊 Beijinhos e boa semana!

    • Que interessante! Não sabia que isso se faz em psiquiatria mas faz seguramente todo o sentido!
      ‘A maioria das coisas que nos faz bem na vida faz-nos bem precisamente porque nos proporciona prazer, não sendo encarada como uma obrigação ou porque se convencionou que “faz bem” ou “é saudável”. Para cada um de nós existe o que nos faz bem e o que é saudável, de acordo com a personalidade e o estilo de vida.’ -acho esta questão muitíssimo pertinente, muitas vezes insiste-se num método ou exercício que dificilmente podem ser de aplicação geral.
      Muito obrigada por esta exposição 😊😀
      Beijinhos a todos ❤️

Também quero dizer uma coisa

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s