Sombrinha

Adora as sombrinhas da Regina, aquelas de chocolate, quando as vê aqui no supermercado do bairro. Ainda não sabe o que são, no outro dia lá trouxe uma para casa, mas o seu conteúdo continua na sua ignorância. Mas não era desse tipo de sombrinha que queria falar.

É a minha sombrinha. Faz tudo o que eu faço. Diz as expressões que eu digo. Diz-me ‘bom dia’ quando acorda e dá-me beijinhos como eu lhe dou para a acordar, calça os meus sapatos, veste a minha roupa. Recentemente voltei a usar um colar ou pulseira de vez em quando, e por força quer pôr um colarzinho também. Vamos na rua e olha para trás para ter a certeza que está a fazer exatamente o mesmo percurso que eu. Quer comer do meu prato, com o meu garfo, beber do meu copo. Põe creminho na cara de manhã, põe a cabeça para baixo para pôr espuma no cabelo.

Eu que sou uma tagarela de primeira estou sempre a falar com ela. No carro, em casa, de manhã ou a fazer o jantar, explico-lhe os objetos, os ingredientes, os procedimentos. Vou fazendo juízos de valor, ‘isto cheira mal’, ‘hum, que bom que isto é’, isto é bom? É bem bom!’, ou ‘ui que frio!’, etc. Nesta saga da constipação lá vem a malfadada máquina dos aerossóis, às três e quatro vezes por dia, ao fim de 4/5 dias já dá umas vinte vezes, imagine-se!, já desesperamos todos, vamos à vez, até a miúda já fica sem programa naqueles 20 minutos, desde contar embalagens de soro, a ler livros, a cantar, a ver o programa de TV favorito no YouTube, a cortar as unhas ou lavar os dentes, já toda a gente está cansada daquele fuminho irritante que apesar das nossas queixas teima em embaciar-nos as ideias.

Lá vamos nós para a casa de banho, eu e ela, antes de deitar, as duas cansadas destas noites mal dormidas, ela chega ao pé da máquina e deita-se logo no trocador. Eu percebo que está exausta, começo a fazer festinhas nas pernocas, a massajá-la, e pergunto-lhe, ‘é bom filha, gostas dos miminhos?’, ela fecha os olhinhos e sai-me com a minha frase de contentamento: ‘é bem bom!’. ❤️ E foi assim que junto à máquina de aerossóis tivemos um momento lindo de afetos e carinho, mesmo com fuminho, mesmo constipadinha.

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É desta

A tentar vesti-la, na correria da manhã,ela a tentar mexer em tudo e a querer vestir as calças dela ao Nenuco, volta para mim, vira-se de costas, eu já em desespero:

-Filha, pára com isso! O que é que estás a fazer? Não vês que a mamã te está a tentar vestir? Oh, onde é que vais?

-‘O IKEA!

É desta, vou começar a pedir Royalties…

Minha bebé

O melhor anúncio da estação fria que se aproxima é o primeiro fungo no nariz e a garganta a arranhar. Cá em casa, entre a descida de temperatura e o vento maluco que anda para aí, hoje juntámo-nos os três e concluímos que estávamos todos a chocar uma constipaçãozinha.

Acontece que não temos arrecadação, e mesmo que a tivéssemos, não coloco, nem colocaria, a minha roupa de inverno por lá (abandonadinha) no verão e vice-versa. Quando o mau tempo vem, ou o bom tempo, simplesmente continuo a ir ao mesmo sítio do armário, mas num cabide diferente. O equivalente a ir buscar a roupinha ao sótão é para mim ir buscar a máquina de aerossóis, revestir o armário dos medicamentos de frasquinhos individuais de soro, água do mar, fenistil gotas, aspirinas e brufen. Sinto-me um esquilo a trazer mantimentos para a árvore, versão apocalipse vamos-para-a-guerra.

A minha bebé está a ganhar as suas defesas e imunidades. Apesar de ficar bastante perdida quando a vejo nestes estados tenho de fazer um esforço para me recordar que por mais que a proteja ela terá de se adoentar. Far-lhe-á bem e a mim também. Tento por isso, não sofrer com o que não posso controlar. Aceitar o que não posso prever. E fazer, obviamente o melhor que posso com o que tenho e o que surge.

Por aqui ela fica muito frágil. Pede mais miminhos e aquela expectoração toda entope-a até ficar mal-disposta. Já o Z. fica todo aflito também e tem de começar logo a tomar medicação, pois a constipação +alergias são um cocktail que o deixa k.o. Eu fico sempre para o fim. Fico a tomar conta dos dois, a fazer chá de gengibre com mel e limão e a espalhar cebolas abertas pela casa (inibe a tosse e desintoxica da constipação). Faço aerossóis a todos e caldinhos de frango e espargos (à moda da minha mãe). No fim, se der, lá fico eu doente também. Mas só depois de muitos cuidados prestados, e dos pacientes estarem curados e autónomos, claro…

O primeiro post

Este é o meu blogue, não o meu diário. Escrevo sobre o que me apetece e não dou exatamente justificações sobre isso nem costumo pedir sugestões para os temas abordados. Também não tenho exatamente uma lista infindável de fãs, nem será isso que me move. Este blogue já foi um espaço de vários tipos de desenhos, já partilhei receitas, já publiquei posts com 2 linhas e já dissertei sobre momentos privados nesta minha travessia de mãe, mulher, profissional, esposa, e nessa partilha encontrei alguma paz para as minhas inquietações. Aparentemente também trouxe luz a algumas outras pessoas. Por isso escrevo e continuo a escrever.

Não esperava trazer este tema hoje, nem queria escrever sobre ele. Mas não consigo continuar este blogue sem uma referência à minha perda. Perdi a minha avó e não me apetece sequer dissertar sobre isso. É esmagador. É tudo o que tenho para dizer.

De resto a vida continua ‘normalmente’. Como pode? Não devia. E realmente não é isso que sinto. A minha vida não continua ‘normalmente’.

Este é o primeiro post que escrevo desde o que aconteceu. Não o queria escrever. Na verdade não queria que tivesse acontecido. Mas não podia escrever sobre qualquer outra coisa como se nada tivesse acontecido. E não quero parar de escrever.

Naaaaaaaaão!!

MR-Não! Bebé fa!! Bebé fa!!

Significa ‘bebé faz’. Mas na verdade significa mais do que isso. Significa que quer fazer sozinha, que o seu corpo acha que está na altura de se tornar independente, ou pelo menos de se preparar para essa viagem. Diz que não. Muitas e muitas vezes. Diz o que quer fazer e exatamente como quer que seja feito. Olha para mim num tom exagerado como se o mundo dependesse da sua capacidade de executar determinada tarefa e lança aquele imperativo sobre si mesma, ‘o bebé cá!!’, significa, ‘o bebé calça.’

Fico a olhar para esta miúda orgulhosa, a pensar que é bom sinal que ela queira tomar conta de si, que ela queira sentir a sua individualidade não apenas como uma extensão de mim ou de nós. Este é um processo crucial de crescimento dos bebés e dos papás (pai e mãe). Temos todos de aprender estes movimentos de autonomia mútua, pois a dependência é um sentimento com (pelo menos) dois lados.

De resto a minha filha é muito segura nos seus afetos e pouco possessiva (ao contrário de mim). Desde que chegue para ela na quantidade que considera necessária podem vir os que quiserem. E por isso de cada vez que ouve um bebé chorar diz-me ‘bebé có mamã!’, empurrando-me ligeiramente enquanto sugere que eu pegue no bebé ao colo para o acalmar. Deve pensar, ‘aquele está com a mãe errada, aqui ao colo da minha nunca choro…’ E pronto sempre a pensar como ajudar o próximo. O que é bastante curioso, da forma como a minha filha sempre foi tão dependente de mim e do meu colo e atenção achei (achámos todos) que uma outra criança nesta casa a deixaria um pouco perdida. Bom, só saberemos quando acontecer, mas parece-me que o cenário não será bem esse.

Ultimamente quando estamos em espaços comuns e vemos outras famílias com bebés a minha filha cola-se a elas como se preferisse aquela turma em vez da que tem lá casa. Então fica doida com bebés, mais pequeninos que ela, e vem sempre mostrar-mos, como quem me diz ‘era isto que eu queria, percebes? Lá em casa vocês são dois, como é que achas que eu me sinto? A ver se me dão par senão isto é difícil…’ E às vezes fica mesmo coladinha a estas famílias, dá-lhes a mãozinha e tudo, assim tipo, ‘vou já com estes que parecem boa gente.’

Ok filha, prometemos que vamos pensar nisso…

Sonhar

Quando eu nasci a minha mãe era muito nova. Às vezes vejo fotos de álbum antigas e até fico enternecida ao perceber como a minha mãe era tão mais nova que eu quando teve o seu primeiro bebé (eu). Não faço ideia como conseguiu, mas no seu caso acho que a tornou mais forte, mais segura. Por outro lado acho que houve momentos na minha educação que claramente revelaram a sua faixa etária. Na parte em que nunca acreditei em nada místico nem para além do ceticismo do real, penso que tenha revelado um desses momentos.

Nunca acreditei no Pai Natal, nem no Menino Jesus, nem fadinha dos dentes, ou coelhinho da Páscoa, nem tão pouco éramos praticantes de uma religião, ou acreditámos noutra forma de energia não científica ou natural. Sempre gostei desta versão e achei totó os meus amigos acreditarem nessas coisas. A verdade é que quando o meu irmão nasceu já foi banhado com uma série de personagens que pontuavam o calendário e nos divertiam a todos.

Mas isso não é uma queixinha, nem um pedido de mais diversão, nem um termo de comparação. Constatei que por nunca ter desenvolvido um lado mais…. chamemos-lhe espiritual, me senti e sinto muito mais responsável. Às vezes de uma forma sufocante. Por várias vezes oiço amigos ou conhecidos exprimindo a frase ‘o que tiver de ser, será’. E fico cheia de inveja por aquele estado de conformação que atingiram.

E é mais do que uma conformação, é um consolo, bem lhe chamou ‘o consolo da filosofia’, Alain de Botton. Quer dizer que quem tem o conforto da religião ou de uma forte filosofia de vida que siga tem também muito mais o consolo das coisas que lhe acontecem na vida. Quando não temos um sistema em que acreditar todos os eventos da nossa vida são da nossa responsabilidade. É bom, naqueles em que são positivos, mas nos básicos, fracos e maus é terrível. Sentimos que somos um falhanço total. Que a nossa vida está mal por responsabilidade nossa. Que devíamos ter sido mais cautelosos, previdentes, esforçados, melhorados.

And guess what? Não é justo para nós mesmos que nos sintamos assim. Não é verdade que seja tudo responsabilidade nossa, há um sem número de fatores que dependem de nós, de outros, de estarmos no lugar certo, de condições climatéricas, físicas, familiares, económicas, etc. E mesmo quando não acreditamos num Deus, ou nas forças do universo, temos de dar esse descanso a nós mesmos de achar que não somos o centro nem do nosso universo.

E dito isto tudo assim parece que já escalei 3 montanhas de conhecimento e posso dedicar-me finalmente ao ensino. Mas não é assim também. Na maior parte das vezes escrevo para não me esquecer. Para acreditar, para entranhar. Para perceber através da coerente organização do pensamento. E às vezes, muito discretamente algumas coisas lá vão de facto mudando.

Para já quanto à minha filha vai levar com todos as figurinhas mágicas que eu aguentar. É verdade que pode apanhar algumas desilusões à medida que vai crescendo. Mas também terá uma memória ternurenta das recordações infantis. E o seu cérebro treina a magia e a expectativa em vez de se concentrar (apenas) na relação direta entre fazer para aparecer feito. Há coisas que simplesmente são deliciosas por aparecerem misteriosamente… 😊❤️