Dores

Ser hipocondríaca dói. Dá mesmo dores no corpo, daquelas que moem, preocupam, nos levam ao médico. Felizmente na maior parte das vezes não é nada e das outras são coisas sem grande gravidade. Tudo se vai resolvendo. Diz a minha tia-avó que sou uma menina, que não tenho nada para me preocupar. Só tenho de cuidar, ser atenta. Por e para mim, para e pela minha filha. De resto, tudo o que eu tiver agora se há-de resolver.

Sabe mesmo bem ouvir e sentir estes mimos. O hipocondríaco é aquele ser que precisa de ouvir várias vezes ao dia ‘vai correr tudo bem’. Mas atenção, se esta frase for proferida numa altura em que efetivamente está tudo bem o hipocondríaco fica em pânico a pensar no tipo de coisas que poderiam correr mal. Ó hipocondríaco é um ser muito suscetível e com uma imaginação muitíssimo fértil.

O hipocondríaco acha-se ainda muitíssimo especial. Não é necessariamente pessimista, nem necessariamente otimista relativamente à vida, mas acredita piamente que todas as doenças do mundo, por mais raras que sejam lhe possam acontecer. Mesmo aquelas que só dão na Amazónia, quando o dito ser vive na Amadora. Mesmo quando a estatística é 1 em cada 10 milhões de pessoas que têm a doença, o convencido do hipocondríaco acha que é iluminado suficiente para ser o eleito entre milhões. Até nas doença nunca antes diagnosticadas em absolutamente ninguém, acha que é distinto o suficiente para receber a honra de ser o único eventual portador no mundo da patologia.

O hipocondríaco não pode passar férias, se tiver um salário normal, porque gasta o suficiente para ir a Cabo Verde com meia pensão para duas pessoas, ao longo do ano, em idas aos vários especialistas. Está sempre com medo de não voltar a acordar e quando adormece, tem geralmente ótimas noites.

Um hipocondríaco é capaz das mais incríveis dietas, de comer alimentos que não gosta, só porque ‘faz bem’, ou pelo contrário porque determinado consumo é ‘nocivo’. Às vezes, ‘de evitar’ já dá motivação suficiente para nem chegar perto. Faz os maiores esforços e faz limpezas com entusiasmo, porque casa limpa é meio caminho andado para livre de doenças. Lava sempre as mãos e não respira quando cumprimenta alguém que parece constipado.

Geralmente as dores passam com um bom filme, uma boa conversa, uma boa noite de sono, uma ida ao médico, ou às urgências. No meu caso todas estas servem, às vezes cumulativamente, mas o que me deixa nas nuvens, ou melhor, de pés na terra, é um bom banho. Já diz o povo, ‘água e sabão só não lavam as mas linguas’. E na água do banho correm todos os males, lá vão eles pelo ralo abaixo, desinfectados no detergente corporal e esvanecidos na água quentinha. Ainda assim de cada vez que tomo banho e me sinto mais aliviada, menos tensa, penso por que raio não havia de me sentir assim sempre?? Porque é que ando sempre em exaustão psicológica do terror de um vírus ou bactéria resistente pairar sobre mim?? A meditação tem realmente ajudado. Mas às vezes acho que o que é mais pertinente é o desejo de parar com isto. Concentrar-me verdadeiramente no meu objetivo. Deixar de ser hipondriaca e conseguir ver o lado positivo da vida. Não só evitando imaginar o pior, comogozando realmente todos os bons dias em que não há sequer doenças a pairar.

Bons son(h)os…

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