(Saber) pedir ajuda

Às vezes parece que os medos não acabam. Ficam ensurdecedores. Enlouquecem até. Tento concentrar-me nas coisas boas e positivas e tento aprender a fazer a coisa mais difícil. Não pensar no que não posso controlar. Não posso controlar o futuro. Por isso de que vale a pena ter medo do que vai acontecer? O leque de possibilidades é tão vasto que dou em doida a pensar em todos.

Mas como se faz isso? Estou a tentar fazer meditação e tem corrido muito bem. Ainda não acabei o programa de 7 dias e já passou um mês e meio, mas isso é um pormenor. Tenho tentado compensar com umas leituras mas neste caso o tempo disponível parece não ajudar. Parece que esta sociedade louca corre atrás do tempo para tudo. O tempo já não é suficiente para tudo o que nos convenceram que conseguimos fazer.

Tenho tentado pensar qual a origem desse medos. Chegar a esse ponto e poder resolvê-lo. Não sei exatamente qual é, mas sei seguramente quando foi despertado. Desde o nascimento da minha filha.

Decidi experimentar algo novo… Depois das perguntas que a querida Marta do Passinho a Passinho apontou, num comentário a um post em que falava do parto da MR, pensei que tinha levado uma série de medos para o parto dos quais ainda não me livrei. Tenho falado com uma amiga e nas conversas sobre o nascimento da MR ela levantou-me uma série de questões às quais eu própria ainda não tinha resposta. Falou-me então, das Doulas e abriu caminho à uma série de documentação nessa área. Fiquei deslumbrada. Toda uma área do acompanhamento da gravidez e puerpério se desdobrou para meu conhecimento e percebi que ia ter de desmontar o parto da minha filha para conseguir iniciar um novo caminho (mesmo que não envolvesse ter mais filhos).

Encontrei uma doula, fabulosa e comecei a falar. Para mim o parto sempre foi um mal necessário com uma grande compensação pelo qual teria de passar, para ter filhos. E quando pensei e disse isto em voz alta desatei a chorar. Não fazia ideia que tinha tanto para chorar sobre este assunto e afinal quando rebentaram as águas alguns temas/medos/incapcidades(?)/ansiedades foram libertados também. Eles já lá estavam todos, só precisavam de um motivo para sair da bolha, e o nascimento pareceu(-lhes) uma excelente oportunidade.

Há também um grande estigma a propósito desta profissão de Doula, e no geral ou são muito acarinhadas ou profundamente desprezadas. Como em tudo há bons e maus profissionais, mas eu sei que encontrei uma excelente. Ela é excelente para mim e é sobretudo disso que se trata. Não são necessariamente pessoas que defendam o parto desta ou daquela forma, claro que podem ter preferências ou de forma informada aconselhar e preferir o parto de determinada forma, mas sobretudo apoiam a mulher naquilo que ela precisa, respeitando as suas decisões e não as julgando/condenando, informando-as naquilo que é o seu saber específico referente à área/tema. Dão apoio personalizado e têm de ter tirado um curso específico. São excelentes ouvintes e excelentes oradoras. A minha Doula conectou-se comigo, e às vezes isto é algo mais ao nível do sensorial do que qualquer outra coisa. Connosco funcionou. E sinto que o meu caminho começa aqui. ❤️

Animais

Está a aprender na escolinha que a vaquinha é, na verdade, uma vaca, e o me-mé uma ovelha, e o patinho um pato, e outras correções desse género. Então a rever os animais num livrinho chegamos à quinta. Aponto a vaca:

MR- muuuu!…

Eu- sim filha, é a …

MR- vaqui!!

Eu- pois, a vaquinha, quer dizer, é a vaca! Ok, e esta é a…

(Aponto uma galinha)

MR- Gala!!

Afinal a anedota do Agostinho existe mesmo…

Cor-de-rosa

Era a minha cor favorita em miúda. Mas mesmo favorita. Usava-a em tudo e só não usava mais porque a minha mãe lá punha alguns limites. Por mim teria o quarto em cor-de-rosa de alto a baixo, vestia sempre cor-de-rosa, etc., já estão a ver a ideia…

Pois tanto que usei, adorei e abusei da dita cor que quando engravidei da minha filha tive a certeza que não ia comprar nada cor-de-rosa. O quarto seria em tons de branco, creme, pastel e preto, aliás, fosse menino ou menina. A onde era tons neutros e softs… A roupinha ia ser a condizer com o quarto e a abusar dos cinzas, etc. Cores fortes a rasgar estes tons neutros. E se fosse uma menina ia vestir-lhe muitos vestidinhos azuis. Adoro ver meninas de azul. É assim fiz, cumpri com tudo. Só que toda a gente à nossa volta nos ofereceu o que bem lhe apeteceu e as cores que estiveram na ordem do dia foram as tendências de cada um. A minha madrinha por exemplo adora o vermelho e o azul, a tia do meu marido adora o cor-de-rosa e o lilás, para a minha mãe um pouco de tudo, a minha avozinha insistia no verde e amarelo, ficámos com imensa roupa de uma sobrinha já crescidinha que também assentava basicamente no rosa, e foi disto que se foi compondo o nosso armário.

Mas no geral, de cada vez que alguém nos oferecia algo, na dúvida, escolhia o cor-de-rosa. E de repente o ‘dessa cor não vestirei nunca’ transformou-se de em ‘vou fazer uma máquina de [lavar roupa] cor-de-rosa’. Já estão a ver. Hoje posso dizer que 60% da roupa da minha filha é desta cor. É também a única cor que ela absolutamente nunca confunde. E é a sua preferida. 

Mas pelo menos fechava o armário e o quartinho continuava branco, creme e preto. Eu tinha cedido mas mantinha os meus princípios. Valha-nos isso. E veio o Natal. E foi o descalabro… TODOS os brinquedos são cor-de-rosa, ou têm pormenores desta cor, ou qualquer coisa em tons de rosa. Eu nem sequer culpo a família, basta irem à secção de brinquedos e tentem encontrar brinquedos para menina que não tenham qualquer coisa em rosa. É um desafio impossível. Parece que a namorada cor-de-rosa do monstro das bolachas explodiu ali e deixou tudo daquela cor. Não dá mesmo para fugir.

Mas pronto ela está feliz é o que importa. Ia dizer que pelo menos ainda não tive de pintar paredes de rosa e/ou lilás. Mas só posso dizer ‘por agora’. Só faltam três anos para os cinco e não tardam os possíveis pedidos a surgir. O ‘nunca’ associado à maternidade pode ser usado, desde que fique explícito que tem duração curta…

A idade

Ponho-me a pensar naquilo que sou capaz hoje é naquilo que era capaz há uns anos. Esperamos sempre que a idade traga mais e melhor. Seja do que for. De sabedoria, coragem, força, etc. Mas e quando não é exatamente assim, um gráfico muito certinho sempre a subir? Eu chamo-lhe maternidade.

Atribuo à primeira década da minha vida a fase de aprendizagem, à segunda a autonomia, à terceira confiança, e à quarta maternidade. Nos primeiros 10 anos de vida é tudo novo. Todos sabem mais que nós. Até os que são mais novos, nesta fase, podem saber pelo menos algo que nós desconhecemos. Esta é sem duvida a fase de vida em que aprendemos em maior quantidade. Nem a universidade dá cursos de vida tão completos em tão pouco tempo. Depois vem a autonomia. Já temos 10,11,12 e por aí fora, já somos ‘crescidinhos’ e conseguimos fazer cada vez mais coisas sozinhos. Aos 20, vem a fase que até agora considero mais interessante. Nem melhor, nem pior, só mesmo mais interessante. Acreditamos ser capazes de tudo. Somos finalmente autónomos, ainda que não financeiramente, já aprendemos muita coisa, e em princípio estamos na universidade. Sabemos mesmo muitas coisas, mais do que alguma vez soubemos na vida, e sabemos mais do que muita gente, os que estão para baixo e alguns dos que estão para cima. A nossa confiança está no máximo. A nossa saúde é excelente. Não há medos, medos de quê? Temos a vida toda pela frente. Aquele comboio onde vão os crescidos, trabalhar, casar, ter filhos, passear, gastar dinheiro, reformar-se e por fim, terminar as suas vidas, nós ainda nem entrámos nele. Estamos desejosos de o fazer, mesmo, mas sabemos que ainda não estamos lá. E por isso não há receio que nos aflija. Nós podemos refazer tudo, nada está perdido, e essa confiança faz-nos acreditar. Acreditar em nós, nas nossas capacidades e até damos uns conselhos espetaculares. Aqueles conselhos que só alguém confiante pode dar. Não quer dizer que não existam dúvidas! Existem muitas, e alguns medos, mas nada que umas boas conversas com amigos, a mãe, o pai, o namorado ou namorada não resolvam. Somos invencíveis. É a idade, por isso mesmo, em que a malta faz mais disparates…

Depois vêm os 30. No meu caso os 30 trouxeram a maternidade. E essa fase deita por terra todas as teorias. Bem que a minha madrinha dizia, ‘deixas de ter certezas’. Mas não me explicou que às vezes a sensação era de terem tirado o chão debaixo dos pés. Porque não esperamos que depois de uma fase de plena confiança pudesse vir a sensação de que precisamos de aprender tudo de novo. E às vezes, a olhar para a minha filha, para os passos que ela está a dar, parece que me coloco nesse nível de aprendizagem, regredindo em todas as expectativas que poderia ter face à nova fase de vida. Pensei em chamar-lhe a fase do medo, mas por outro lado também teria alegria, ansiedade, cansaço, duvida, descoberta… Mas só há uma palavra para isso, maternidade.

No meio disto tudo vejo a minha filha crescer e a ver fotos antigas, desde o seu nascimento, apercebi-me que o meu bebé é agora uma menina. Afinal tinham razão, o tempo passa depressa. Pensei que em breve posso começar a a ler-lhe estórias e imaginei os autores que iria (re)visitar. Entre umas palavras de Sophia de Mello Breyner, Stau-Monteiro e Miguel Torga (assim muito rápida e superficialmente) e emocionei-me a ler algumas frases. Porque às vezes é preciso voltar às coisas mais simples para nos lembrarmos de como são importantes. Talvez seja isto mesmo a maternidade. Um retrocesso. Não significa que saibamos menos, nem se trata de desaprender. Trata-se, talvez, de voltar atrás e reaprender algumas coisas. De permitirmos que os nossos filhos tenham algo para nos ensinar. E que ao acharmos que não somos invencíveis sejamos mais cuidadosos. E que por não sermos só confiança tenhamos a humildade de admitir que também erramos.

Este ano oferecemos à nossa filha um livro do princepezinho com pop-up’s. Tem o texto integral e os desenhos também. É um livro grande é uma obra de arte, na verdade. Foi uma amiga minha que mo mostrou há alguns anos, que comprara para os seus filhos. E aqui estou eu no mesmo trilho. A tentar, não apenas ensinar à minha filha o que é verdadeiramente importante, mas aprender com ela essas lições de vida. A todos um bom Natal e um excelente próximo Ano Novo.

Por ser a melhor

Quando ainda não era mãe achava que a minha filha/filho ia ser o melhor de todos. Os meus filhos não iam chorar de noite. Iam comer bem, nem de mais, nem de menos. Não iam fazer birras, não se iam portar mal. Os meus filhos não iam ser perfeitos mas iam portar-se bem, iam entender as minhas explicações. Iam ser pacientes, iam perdoar, iam ser generosos.

No fundo qualquer criança que pertencesse ao meu agregado familiar iria ser maravilhosa. E ia sê-lo não porque eu confiava num poder absoluto dos genes ou porque achasse que ia simplesmente ter sorte, iam ser crianças maravilhosas porque eu ia ser tão boa mãe. Eu sim ia ser a mãe perfeita, sem dúvida, e até nos erros seria perfeita. E por isso as crianças à minha volta iriam entender os benefícios dos meus métodos e iriam simplesmente corresponder de uma forma natural e inequívoca.

Provavelmente toda a gente já sentiu nalgum momento da sua vida que era bom ou mau em determinada coisa ou que seria bom ou mau noutra que ainda não tinha experimentado. No meu caso aos 7 anos eu já sabia que queria ser mãe. E agora mãe de uma criança continuo a ter o desejo de ter uns 3 ou 4 filhos, o que significa que ainda não perdi a vontade… Mas antes de ser mãe não era tanto um número que imaginava, mas um estilo. Nisto de ser mãe eu não ia falhar e ponto final.

E a vida é assim, acontece enquanto estamos distraídos a planeá-la, já alguém o disse. De repente eu sou mesmo mãe e tenho mesmo uma filha. E essa filha é uma criança normal, sem mais nem menos birras que as outras crianças, é uma dificuldade a comer, tem 2 anos e ainda dorme mal de noite precisando da nossa presença, e da nossa cama, tem muitas vitórias, ter largado as fraldas é uma delas, falar tanto é outra, é uma querida, faz chantagem emocional, testa os nossos, e sobretudo os meus, limites, faz asneiras em casa, porta-se bem na escola, não gosta de dormir a sesta e à noite faz birra com sono. É só uma criança como as outras todas. Com coisas boas e menos boas, ora simples ora complexa, amorosa e rabina, avançada nuns temas menos ligeira noutros. Como as outras crianças todas.

E eu tive de aprender a gerir as birras, as zangas, as asneiras, os confrontos, tudo. E tive de perceber que a minha filha não vinha com aquele pacote de serviços e vantagens que eu esperava. Tive de perceber mais que isso, eu não era a mãe perfeita que planeara. E tive de perceber ainda que existiam coisas que eram responsabilidade minha e outras que nem por isso, seja porque são as contingências da vida, ou porque eu sou ansiosa, ou porque ela tem tendências… Hoje em dia julgo muito menos os outros pais. Mas posso dizer que os julgo em coisas que não me ocorreriam antes e sou muito mais benevolente noutras, e não necessariamente aquelas em que me revejo ou com as quais concordo.

A MR está adoentada desde o início de novembro e no último fim-de-semana achámos por bem tirar um fim de semana de 4 dias para irmos até Espanha, na esperança que a mudança de ares e atitudes também criasse um movimento positivo para mandar as doenças todas embora. Fomos ter com uns amigos que também tem uma miúda e quando chegámos as diferenças eram notórias, não só nas crianças, como nos pais, como na relação com as crianças. Como é que eles conseguem? Comecei por pensar… E com a convivência percebi que aquele método funcionava lindamente com a miúda deles. Lindamente. Eles tinham crescido como pais com aquela filha e ela tinha crescido como filha daqueles adultos e o método usado funcionava com eles. A miúda é espetacular, terna, descontraída e autónoma. Já a nossa era isto tudo através do processo oposto. Nem sei por isso se há métodos infalíveis ou milagrosos para que os miúdos sejam assim ou assado. Nem sei se vale a pena escrever os mandamentos dos pais num cartaz gigantesco para que não os esqueçamos… Sinto que nisto da maternidade vai tudo acontecendo num equilíbrio muito delicado em que uma série de coisas entram para a equação e por sua vez a equação muda todos os dias. Prever seria uma loucura e vamos todos aprendendo a ser pais e filhos uns dos outros um dia após o outro. Mas a perfeição, aquela mãe tão boa que os filhos vão todos para o quadro de honra? Esse posto é corrido na hora que um espermatozóide conhece o óvulo…