A idade

Ponho-me a pensar naquilo que sou capaz hoje é naquilo que era capaz há uns anos. Esperamos sempre que a idade traga mais e melhor. Seja do que for. De sabedoria, coragem, força, etc. Mas e quando não é exatamente assim, um gráfico muito certinho sempre a subir? Eu chamo-lhe maternidade.

Atribuo à primeira década da minha vida a fase de aprendizagem, à segunda a autonomia, à terceira confiança, e à quarta maternidade. Nos primeiros 10 anos de vida é tudo novo. Todos sabem mais que nós. Até os que são mais novos, nesta fase, podem saber pelo menos algo que nós desconhecemos. Esta é sem duvida a fase de vida em que aprendemos em maior quantidade. Nem a universidade dá cursos de vida tão completos em tão pouco tempo. Depois vem a autonomia. Já temos 10,11,12 e por aí fora, já somos ‘crescidinhos’ e conseguimos fazer cada vez mais coisas sozinhos. Aos 20, vem a fase que até agora considero mais interessante. Nem melhor, nem pior, só mesmo mais interessante. Acreditamos ser capazes de tudo. Somos finalmente autónomos, ainda que não financeiramente, já aprendemos muita coisa, e em princípio estamos na universidade. Sabemos mesmo muitas coisas, mais do que alguma vez soubemos na vida, e sabemos mais do que muita gente, os que estão para baixo e alguns dos que estão para cima. A nossa confiança está no máximo. A nossa saúde é excelente. Não há medos, medos de quê? Temos a vida toda pela frente. Aquele comboio onde vão os crescidos, trabalhar, casar, ter filhos, passear, gastar dinheiro, reformar-se e por fim, terminar as suas vidas, nós ainda nem entrámos nele. Estamos desejosos de o fazer, mesmo, mas sabemos que ainda não estamos lá. E por isso não há receio que nos aflija. Nós podemos refazer tudo, nada está perdido, e essa confiança faz-nos acreditar. Acreditar em nós, nas nossas capacidades e até damos uns conselhos espetaculares. Aqueles conselhos que só alguém confiante pode dar. Não quer dizer que não existam dúvidas! Existem muitas, e alguns medos, mas nada que umas boas conversas com amigos, a mãe, o pai, o namorado ou namorada não resolvam. Somos invencíveis. É a idade, por isso mesmo, em que a malta faz mais disparates…

Depois vêm os 30. No meu caso os 30 trouxeram a maternidade. E essa fase deita por terra todas as teorias. Bem que a minha madrinha dizia, ‘deixas de ter certezas’. Mas não me explicou que às vezes a sensação era de terem tirado o chão debaixo dos pés. Porque não esperamos que depois de uma fase de plena confiança pudesse vir a sensação de que precisamos de aprender tudo de novo. E às vezes, a olhar para a minha filha, para os passos que ela está a dar, parece que me coloco nesse nível de aprendizagem, regredindo em todas as expectativas que poderia ter face à nova fase de vida. Pensei em chamar-lhe a fase do medo, mas por outro lado também teria alegria, ansiedade, cansaço, duvida, descoberta… Mas só há uma palavra para isso, maternidade.

No meio disto tudo vejo a minha filha crescer e a ver fotos antigas, desde o seu nascimento, apercebi-me que o meu bebé é agora uma menina. Afinal tinham razão, o tempo passa depressa. Pensei que em breve posso começar a a ler-lhe estórias e imaginei os autores que iria (re)visitar. Entre umas palavras de Sophia de Mello Breyner, Stau-Monteiro e Miguel Torga (assim muito rápida e superficialmente) e emocionei-me a ler algumas frases. Porque às vezes é preciso voltar às coisas mais simples para nos lembrarmos de como são importantes. Talvez seja isto mesmo a maternidade. Um retrocesso. Não significa que saibamos menos, nem se trata de desaprender. Trata-se, talvez, de voltar atrás e reaprender algumas coisas. De permitirmos que os nossos filhos tenham algo para nos ensinar. E que ao acharmos que não somos invencíveis sejamos mais cuidadosos. E que por não sermos só confiança tenhamos a humildade de admitir que também erramos.

Este ano oferecemos à nossa filha um livro do princepezinho com pop-up’s. Tem o texto integral e os desenhos também. É um livro grande é uma obra de arte, na verdade. Foi uma amiga minha que mo mostrou há alguns anos, que comprara para os seus filhos. E aqui estou eu no mesmo trilho. A tentar, não apenas ensinar à minha filha o que é verdadeiramente importante, mas aprender com ela essas lições de vida. A todos um bom Natal e um excelente próximo Ano Novo.

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2 thoughts on “A idade

  1. A minha fase dos trinta foi fascinante em todos os aspectos. Também ela me trouxe a maternidade. Mas não foi apenas por isso. Acho que foi a década em que vivi com mais intensidade, a par com essa lucidez de que não somos imortais. Por vezes, ainda suspiro por ela… 🙂 Bom ano! 🙂

    • Obrigada, bom ano! Sim, serve para pensar, às vezes parece impossível ver além da fase que estamos a viver, tanto que parece que nem a vamos ultrapassar. Parvoíces, medos. Coisas que a maternidade trouxe e que sabe bem quando na boca de outras mães que já passaram por aqui, até vem a saudade desta fase.

      Beijinhos!!

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