Estás uma seca

Quando me arranjo de manhã o Z. gosta sempre de comentar. É uma coisa nossa fofa, até porque são os 10 minutos em que vemos naqueles preparos. Mais tarde quando ele chega a casa já eu tomei banho com a MR e estou de pijama, ou, convenhamos, já um dia passou por mim, com pessoas, viagens, processos, às vezes parece que até eu chego amarrotada ao fim do dia… E então este momento matinal é a hipótese que temos de nos apreciar mutuamente.

Quando calço uns sapatinhos que façam barulho, invariavelmente o Z. reage  e comenta algo do género, ‘hm, estás tão sexy…’, sabe muito bem 🙂

Pois no outro dia entrei na cozinha e a miúda estava ao colo do pai a tomar um pequeno almoço que me impressiona imenso, montes de farinha Cerelac com um fio só de leite. É lá uma cena de pai e filha. Aquela argamassa nem para assentar tijolos dá… Levanta a cara do prato olha para mim e a tentar dominar aquela papa diz-me:

‘Olha, a mãe está tão ‘seca’!’

E foi isto. Saí de casa super orgulhosa 🙂

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Doente

AGAIN!!!!! Sim, sabem foi a primeira semana de escolinha depois de umas férias que por acaso foram brutais mesmo, sem ironias. Mas não foi suficiente para a miúda. Naaaão, a miúda não gosta de voltar à escola. E por isso adoece, a ver se a mãe percebe assim. Tipo, ‘isto significa que eu não gosto’. Ok filha, eu também não, mas é assim, às vezes as coisas menos boas ou chatas da vida ajudam a dar mais significado às que são boas. Mas ela não se convenceu.

O ano passado estava doente de 2 em 2 semanas. Ia para a ama, adoecia, vinha para casa, ficava boa, voltava, adoecia, etc. o inverno todo. Tomei 3 vezes antibiótico nesse inverno. Enquanto eu desesperava as pessoas diziam-me (para me animar), ‘ah, é o primeiro ano fora de casa. Para o ano corre melhor, vais ver.’ Este ano ela deixou de estar na ama e passou para a escolinha com muitos meninos… Tem sido a mesma estória, doente constantemente, só muda o facto de eu não andar a adoecer (este ano decidi que não ia ficar doente, é uma imposição ao meu corpo!), todos dizem, ‘ah, são muitos meninos, mas é só até aos 3, depois dessa idade já só adoecem 1 vez por ano, vais ver’.

Sim, estou cá para ver…

(Divertida)mente

É o filme ‘Inside Out’ no título original, uma animação da Pixar trazida pela Disney no verão de 2015. O filme é de facto genial, complexo e profundo. Tão típico da capacidade imensa da Pixar, o público alvo são aparentemente as crianças, mas os adolescentes adoram, os pais entendem a mensagem e até os avós acham graça.

SPOILER ALERT!!! Vou falar de e dos conteúdos do filme a partir daqui. Quem quiser ser surpreendido no mesmo, não leia o resto deste post.

É sem dúvida um filme sobre a ‘mente’. Não tenho a certeza que seja ‘divertido’, mas personifica os nossos principais sentimentos, passando-se na nossa mente, neste caso especificamente na mente de uma miúda até aos seus 12 anos mais ou menos. São eles, segundo esta interpretação a alegria, o nojo, o medo, a raiva e a tristeza. Ao longo do filme sentimos que é a alegria que comanda todas as operações na mente da miúda, e ao vermos momentaneamente a mente da mãe percebemos curiosamente que é a tristeza que controla as operações, e no caso do pai, a raiva. A grande missão do filme é que a alegria perceba que a miúda, em cuja mente habitam, precisa da tristeza tal como da alegria, e que ter memórias tristes não a fará infeliz, mas dar-lhe-à capacidade de sentir. Durante todo o filme assistimos então à penosa luta da alegria para afastar a tristeza até à sua percepção de que só a tristeza poderá salvar a miúda do estado em que se encontra.

É um filme lindíssimo, um pouco angustiante, triste e enervante pois os objetivos parecem ser difíceis de atingir. Um pouco  bastante como na vida real. O filme é tão brilhante que desde aí que imagino os meus 5 personagens internos a reagir aos momentos da minha vida. É aliás, muito interessante o facto de os personagens da miúda serem uns femininos, outros masculinos, com fisionomias diferentes, e por exemplo os sentimentos da mãe serem todos idênticos à imagem da mãe e os do pai a mesma coisa. O facto de os sentimentos da miúda serem tão difersificados permite-nos imaginá-los dentro de nós, pois não são personalizados.

Ficou absolutamente claro também, qual era o personagenzinho que comandava as minhas operações. O medo. Aquele bonequinho roxo que de cada vez que é preciso pensar nos imponderáveis de atravessar a estrada traz uma pilha de 3 resmas de folhas com possíveis (terríveis) consequências. Aquele homenzinho que se veste muito arranjadinho e que está sempre a roer as unhas. É o meu ‘operational controler’ e de repente isso ajudou-me a entender muita coisa.

Tenho a sensação de que quando a minha filha nasceu entre a alegria que pulava em mim, o medo meteu-se ao comando, comoveu-se e disse, ‘é a coisa mais linda que alguma vez vimos. Tenho de a proteger para sempre.’ E pimba, arranjou a cadeira maior para si e ficou a mandar em todos. A sensação de que a coisa mais preciosa que eu tinha estava pela primeira vez fora de mim. Esse sentimento foi avassalador e ainda não o consegui superar completamente. Por isso esforço-me por persegui-lo, tentando compreendê-lo na tentativa de lidar melhor com o medo.

Até naquilo que aceitar implica trabalhar com isto em vez de lutar contra isso. Torna-se mais eficaz. Já o Z. tem a raiva a comandar as operações. Os outros bonequinhos estão permanentemente a ver imagens do instagram, so aquele é que se mantém acordado. A minha filha tem o nojo. Está sempre a recusar a comida e a dizer não a tudo o que se lhe propõe. Vá lá que também solta umas boas gargalhadas e essas até arrastam pelo menos umas duas resmas de medos da minha mesa de operações. E é isso que me vale, o meu ‘medo’ ficou deliciado com a ‘alegria’ da minha filha, desde o primeiro dia que se conheceram. E quando ela me dá a mão, tenho força para enfrentar todos os medos.

Corte de cabelo

Já tinha escrito sobre isto, por isso vou ser breve na introdução. Adoro cortar o meu cabelo sozinha. É mesmo uma coisa minha. E agora com a MR tenho cortado o cabelo dela também. Tem resultado. Acontece que o corte de cabelo é uma coisa para mim, mais que física, comportamental. E realmente quando faço um corte parece que o meu estilo muda, nem que seja temporariamente.

Então ao ver o corte de uma amiga pensei, é agora. Estou a precisar de um bom corte. E pimba. O meu cabelo é super encaracolado e quanto mais curto mais encaracola e com mais volume fica. Cortei-o até ficar pelos ombros da parte da frente e pelo meio das costas atrás. Há qualquer coisa que desaparece com o cabelo que se deita fora. Fiquei mais leve, mais fresca, senti-me atrevida, mais capaz, mais exigente e mais direta. Direta comigo, com as coisas que preciso, sem estar com rodeios. E os medos são isso mesmo, rodeios.

Olhei para a minha filha que tem um cabelo ondulado que faz uns canudinhos deliciosos na ponta. Passamos o ano a fazer penteados iguais, não necessariamente a condizer, mas a verdade é que era cabelo solto ou apanhado, rabo de cavalo.soltei-lhe o cabelo, dividi-o ao meio e fiz dois totós, um de cada lado da cabeça, bem no alto. Desatou-se a rir! Adorou, brincou com o cabelo. Disse que eram dois rolinhos e abanou a cabeça para um lado e para o outro para sentir o cabelo esvoaçar. Pediu uns ténis, umas colantes, uma saia, umas cuequinhas e uma camisola. Ficou mais atrevida. E eu adoro isso nela. E em mim.

A minha amiga diz que o número de 2016 é o 9. Simboliza a mudança, como evolução. Cá estou eu a honrar esses significados. Feliz ano novo. Este vai ser um ano de conquistas.