De onde vêm os bebés?

MR- Olha mamã tenho um bebé na minha barriga!

Eu- Tens filha??

MR- sim, deixei-o lá ‘dento’….

Eu- ah, ok!

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Manos&manas

Eu-Gostavas de ter um mano ou uma mana, filhota?

MR-Sim. Uma mana mais caxida [crescida].

Eu-hm…. É capaz de ser mais difícil… E se for uma mana ou um mano bebé, assim para passear no carrinho e mudar a fralda?…

MR-hm, não mamã, quero o meu Nenuco…

Ok, acho que estamos conversadas, voltamos aqui mais tarde…

Coisas

Coisas que fazemos assim porque nos disseram que era a forma certa de as fazer. Muitas delas nem sabemos porquê, mas estão mecanicamente nos nossos atos. Como por exemplo, encher um saco de água quente e retirar cuidadosamente todo o ar antes de o fechar. Sabemos que é isso que devemos fazer para que as coisas corram bem, e por isso fazemo-lo.

Fazemos isso para nossa proteção e por uma questão social. Somos um bicho social. E mesmo quando achamos que não queremos, dependemos dos outros em qualquer coisa, de qualquer forma. Um dia uma amiga minha promoveu um jogo em sua casa em que nos pedia que déssemos um título ao livro da ‘nossa vida’. Achei o exercício muito interessante e quando conheci o meu marido (muito antes de o ser, claro) foi das primeiras perguntas que lhe fiz. A verdade é que já nem me lembro do título que dei ao livro da minha vida. Mas nunca mais me esqueci do dele. ‘Resiliência assistida- um homem pode ser tudo o que quiser, mas não sozinho.’

Resiliência. Aprendi o significado dessa expressão desde que estamos juntos. Não necessariamente porque ele ma explicasse, mas sobretudo pelas coisas que vivemos individualmente e como casal desde que estamos juntos. Gerir o fim da faculdade, o primeiro trabalho, o casamento, filhos. Na vida é preciso ser resiliente. A vida não é má, nem boa. É o que vamos fazendo dela misturado com a sorte que vamos tendo. É isso que a faz maravilhosa. É o que esperamos dela, e o que dela exigimos. É esse ajuste com a realidade que nos faz resilientes. Porque até os génios tem de ser descobertos e apoiados, ou serão uns ‘ilustres desconhecidos’ perdidos em altos mares ou queimados em fogueiras.

Até da Vinci recebeu uma encomenda para pintar a Mona Lisa, e alguém achou que aquilo era brilhante. Foi preciso isso para que todo o mundo a pudesse ver anos mais tarde atrás de um vidro anti-bala no Louvre. Até da Vinci foi resiliente. E há uma parte da resiliência que aprendemos enquanto vivemos e outra que já vem de um ensinamento das pessoas que nos rodeiam e nos passam as suas experiências. E nós seguimos esses conselhos. Por vontade de proveito próprio e por posição social. Todos queremos pertencer.

E nessa tentativa damos, recebemos e esperamos coisas uns dos outros. Não significa que estejamos a dar esperando receber. É a nossa complexidade racional e emocional. A troca é instinto de sobrevivência, a generosidade é emocional. E esperamos. Com mais ou menos justiça, ou maior ou menor reciprocidade. Esperamos de todos, mais tarde ou mais cedo que nos dêem. Porque já demos, ou porque acreditamos que havemos de dar. Ou simplesmente porque estamos a precisar. No outro dia alguém me perguntava, ‘dás generosamente’? Pensei. ‘Sim, dou, sem dúvida. Mas quando preciso espero generosidade, não reciprocidade, mas generosidade também.’ E nessa necessidade a gestão de expectativas ensina-nos a ser resilientes.

Às vezes olho para o homem com quem construí das coisas mais lindas da minha vida e sinto que apesar disso conseguimos ficar tantas vezes muito longe um do outro e de nós mesmos. E às vezes tento dizer-lhe, ‘deixemos de ser resilientes, tenho saudades tuas, onde é que nos reencontramos?’ Mas os nossos caminhos também são individuais para além de comuns e às vezes andamos à procura de cada um de nós ao mesmo tempo que nos procuramos mutuamente. Não é uma coisa má, nem triste, nem frustrante sequer. É só o que é.

Ouvi recentemente uma entrevista a um arquiteto, muito bonita, de um ponto de vista muito humano e menos técnico da profissão. O entrevistador perguntava-lhe se a arquitetura dependia de terceiros, ao que ele respondia enfática e positivamente. E o entrevistador reforçava, é algo negativo então, na profissão? E o arquiteto disse mais ou menos isto: não, é simplesmente um dado adquirido, faz parte. Só vai para arquitetura quem ama o diálogo com as pessoas.

O arquiteto é um ser muitíssimo social. Depende na maioria das vezes de uma encomenda, depois de uma boa boa equipa de executantes e por fim de um público/júri que escolha o entendimento e o deleite pela sua obra. Este fim de semana estivemos com uns amigos num encontro muito especial, entre a natureza e a cultura, em conversas, intimidades e confissões. Pelo meio visitámos um Museu com projeto da minha empresa de arquitetura e design, e o Zé viu uma parte do meu trabalho, com uma dimensão considerável, pela primeira vez ao vivo, sem ser através de fotografias ou projeto. Adorou e deu-me os parabéns. E quando mo disse eu percebi que aquele caminho que me tinha levado àquele resultado tinha sido feito com ele. E com muitos outros elementos da minha vida, pessoas, formação, mas naqueles parabéns, estava o homem que me acompanhou nos projetos, nas obras, nestas minhas mais recentes conquistas, mesmo quando não estava fisicamente ao meu lado. Também não fiz o projeto sozinha, tive uma equipa fabulosa comigo. Nem a empresa é minha, eu trabalho nela erguendo a camisola com entusiasmo. E pensei que a resiliência assistida era isto. Às vezes encontramos aquilo que precisávamos numa coisa ‘pequena’ e talvez por isso inesperada, e vemos mais do que pensávamos existir. E esse encontro, vale ouro, é a vida a ser generosa e a ensinar-nos a dar através do prazer de receber.

E é isso que fica dito em menos palavras ou num único olhar quando já construímos muitas coisas juntos. Há uma profundidade nesse caminho que mesmo quando andamos mais distantes nos aproxima muito mais rapidamente.❤️👌