Tempo

O tempo é igual para todos. Pode dizer-se que é daquelas coisas universais. Seja qual for a condição de alguém, Terra, país, estado de consciência, os relógios acertam-se e batem segundos com a mesma cadência. Os tempos mudam e as expectativas também. O sonho do homem médio é mais ou menos constante numa época. E se a última moda foi sonhar com a família, cão, casa e carro, penso que estamos a assistir à época em que o sonho é ‘o tempo’. Aquilo que cada um consegue enfiar nas 24 horas do dia que todos temos oportunidade de viver.

E claro que já não chega ter tempo para trabalhar, dormir e comer. Todos querem ter tempo para a família também. Jantar em família, todos os dias. Ao fim de semana, estar com mais família e amigos. Mas também não chega. Já é considerado um ‘básico’ para além disto tudo conseguir ter uma atividade complementar. ‘Mexa-se, pela sua saúde!’ Ir ao ginásio, caminhar, correr… mas não chega. E quando há miúdos devemos levá-los ao parque várias vezes por semana. Se não conseguimos é porque trabalhamos demais, seja como for, coitados dos miúdos que é casa-escola-cama… e ao fim de semana devemos ir com eles fazer atividades lúdicas familiares, ou fazer picniques, ou se não há miúdos devemos cultivar a mente, ir a um museu, ler muito em esplanadas ou sair à noite, que a vida é para aproveitar. Nas férias temos de viajar, ir a vários sítios, de preferência. Só podemos estar de papo para o ar se for na praia a queimar bronzear a pele ao sol.

E o tempo não chega. Os que vivem o sonho, à custa de não dormirem, ou não comerem, ou falharem noutra atividade qualquer, são os deuses na terra. Estão a viver o derradeiro sonho e devem ser uma inspiração para os comuns mortais e de preferência contar como conseguem. E é fácil. Basta estar organizado. Mesmo que isso signifique não parar. Não parar. Todos os minutos do dia ocupados. Até os minutos da noite. Todos contados para dar aquele número de horas mínimo para garantir o correto funcionamento do sistema.

E eu também sonho. E com dois filhos e um marido que só chega a casa na hora de os deitar, tenho mesmo de ser organizada. Mas não paro. Faço tudo. Até lavo o chão de 2 em 2 dias, para o bebé gatinhar à vontade. E cozinho para as marmitas da semana. E levo-os ao parque. E amamento. E dou carinhos e banhos e escolho a roupa no dia anterior. E corre bem. Corre. Corro. Quando chego ao sofá são 22.30/23h e eu ainda não parei. E adormeço em 10 min, porque às 6h toca o despertador. E são fases, eu sei. Eles vão crescer, e até vou ter saudades. Mas o sonho sai do pelo. E para caber tudo nas 24 h do meu dia às vezes tenho de ir roubar uns minutos ao dia seguinte. É lindo este sonho. Mas tem de haver uma versão mais equilibrada entre o sonho e o sacrifício. Ou em prole do sonho esgotam-se as baterias necessárias para o desfrutar. Não faria sentido.

Sim, eu adoro estes dois e todo o tempo que empenho neles. E não tem mas, é só isso. E há dias em que o dia tem tantos minutos e tantas tarefas que o acabo estafada. E é só isso também. E vai abrandar, eu sei que sim… ❤️

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