Ser mãe

Ser mãe tem disto. É que não é isto nem aquilo. Tem fases, tem dias, tem noites. Tem tudo, as horas todas em que ainda se estão a matar saudades e as horas em que estamos a tentar não nos matar uns aos outros.

E eu adoro-vos. E digo-o a toda a hora. Sobretudo quando me zango. É que o amor de mãe (e pai) sobrevive (sobretudo) às zangas, às palmadas, às birras. E muitas vezes eu só estou desejosa que chegue a hora de ir para a cama e da minha boca só sai ‘já chega!’, acompanhado do aconchegar de lençóis enquanto se murmura mais um ‘silêncio e dormir!’

Tem tempos em que olho para os dois e penso que fiz tudo bem… acho aliás o quadro tão perfeito que me pergunto como foi possível??? Como é que eu consegui atingir esta perfeição ou o que é que eu fiz para merecer estes dois. E, geralmente é à vez, olho para um que me derrete. E que me derrete de uma forma tão profunda que eu tenho de libertar algumas lágrimas. Para deixar sair alguma emoção, ou acho que corria o risco de rebentar. Basta sentir aquele cheiro, ou lembrar-me de tudo o que já vivemos (e mesmo o pouco foi tanto!) apertar aqueles corpinhos que são meus e vieram de mim, feitos com tanto amor, e fico literalmente à beira da loucura.

Hoje tive a ajuda dos avós e fomos 4 adultos para duas crianças. O fim de um fim de semana relativamente calmo em que se cumpriram as tarefas todas e na hora de deitar o pai foi adormecer o mais novo (que agora se recusa a adormecer comigo e só adormece com o pai!) e eu fiquei com a mais velha. Acabámos de ver o filme da tarde e ficámos alinhadas no sofá, nas festinhas e miminhos a tentar adormecer. Eu comovi-me toda, soltei uma lágrimas e agarrei-a bem. Ela olhou para mim e disse ‘queria que as coisas fossem assim.’ Ela queria dizer ‘sempre assim’. Eu abracei-a ainda mais. Eu também queria e parte-me o coração não conseguir sê-lo, todos os dias da nossa vida. Mas os dias são muitos, os filhos são dois a somar à casa, ao trabalho, ao marido, à vida. E nem todos os dias eu consigo esta paz de espírito, este abraço cheio de calma, como se o dia tivesse sido cheio de sol e sem stress… e só consegui dizer toda emocionado, ‘tenho sempre um abraço para ti! Sempre. Mas vamos tentar ter este tempo mais vezes.’

Ser mãe não tem sido uma coisa fácil para mim. Passei assim a ser mãe de um momento para o outro, ora está na barriga, ora pimba!, dá-lhe de mamar! Ela passou de uma fase para outra ao ritmo dela, e nunca ao meu. Eu tive de conciliar trabalho, filha, marido e a minha própria identidade sem que qualquer livro ou história alheia fosse (muito) útil. E depois arranjei espaço para amar dois filhos sem perceber no que me ia meter… ser mãe foi a minha maior obra. Os meus dois filhos são as minhas maiores e melhores obras, por mais anos que viva como arquiteta… cansam-me, todos os dias sinto isso. Eles e sobretudo o que está à volta deles, casa, roupa, loiça, comida, escola, etc. Mas prefiro viver cansada toda a vida com eles do que estar fresca e fofa sem eles. Isto pareceu uma coisa má ou exagerada. Mas não é. É só assim, simples. Hoje estou a transbordar. Sinto que em mim algo quer rebentar. É o amor. E o amor, mesmo o mais simples, não é, nunca foi, nem nunca será linear. Mas prometo-me que vou sempre tentar que sejam mais os momentos assim, de amor e carinho infinito, do que aqueles em que transpareço o meu cansaço.

❤️❤️❤️❤️

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Porque hoje é o dia do amor

É um título um bocado mais comprido do que o costume. Mas hoje a declaração que tenho para fazer também é um bocado diferente. Sim, diz que hoje é a celebração do amor. Beijinhos, corações, declarações, rosas e chocolates. Mas o que te quero dizer é outra coisa. É que eu nunca te perdoaria.

Eu sei que faço quase tudo cá em casa. Porque sim. Porque somos 4. Porque acontece que nem temos empregada. Porque chegas tarde do trabalho e à hora que chegas eles já dormem. Porque ao fim de semana eu despacho 4 tarefas e tu arrumas 1 ou 2. É assim. Eu posso perdoar isso. Mas nunca te perdoaria que fosses embora agora. Que nos separássemos para eu cuidar deles sozinha. Porque te perdoo que o dinheiro seja curto, mas não te perdoaria o curto cheque mensal que me obrigaria a viver com os meus 2 filhos numa casinha pequenina. Não te perdoaria ter de acalmar um nos braços de noite e não estares lá para ires acalmar o outro, caso acordasse também na mesma altura.

Porque te perdoo que a nossa paixão não esteja sempre em altas, mas não te perdoaria nunca o desamor de quereres voltar quando eles estivessem mais crescidos, mais fáceis. Quando eu estivesse mais disponível. Porque é amor chegares a casa e aturares a minha má disposição, porque ainda não parei, porque acordei às 5h da manhã e quando chegas eu também tive um dia de trabalho e em cima dele carreguei 2 banhos, 4 cozinhados preparados com açúcar e com afeto, 3 birras, uma casa arrumada e milhares de brinquedos arrumados em duplicado ou triplicado. Porque é amor que de noite faças o leite ao nosso filho enquanto eu fico com ele nos braços a acalmá-lo para que não fique aflito. Porque é amor ficarmos juntos mesmo quando estamos de rastos.

Não, claro que não estamos juntos por questões técnicas. Também é amor chorarmos baba e ranho (literalmente) a ouvir ‘a vida toda’ de Carolina Deslandes ou ‘sorte grande’ de João Só e Lúcia Moniz. É amor fazermos uma festa de renovação dos votos nos 5 anos de casados, mesmo exaustos, e convidarmos 60 pessoas. É amor quando olho para ti e penso que estás ainda mais bonito desde que és pai dos meus filhos e olhares para mim e achares que o meu corpo novo de mãe te atrai mesmo quando eu não me encontro nele. É termos dormido 5.30h em três partes e de manhã dares-me um beijinho na testa e dizeres ‘Feliz dia de S. Valentim’.

Este amor é só nosso. E não pretendo nem me preocupo em descrever todas as coisas maravilhosas que me fazem amar-te. Ou todas as coisas que eu não gosto e que por continuar a gostar de ti são uma profunda prova de amor. Hoje faço a declaração do avesso. Porque o amor também tem avessos. E porque o amor é isto. Se fosse outra coisa, pontual, oportunista, comodista, não era aceitável, ou perdoável.

Não, não estamos em risco de separação, nem foi um aviso. É só mesmo uma prova de amor.

Nem sempre

Às vezes chegas e olhas para mim e eu não estou lá. Nem sempre, mas às vezes é como se tivesse ficado pelo caminho, nas várias tarefas que me levaram até ali. Nem sempre, mas às vezes quando acordo só dormi 4 horas, em duas partes, porque o mais novo acordou a meio da noite e já não queria dormir. Nem sempre, mas às vezes olhas para mim e os meus olhos estão a ver se ninguém cai no parque infantil ou a tentar ler a temperatura do termómetro no banho.

Só às vezes, a miúda mais velha fez uma birra, queria ser filha única por uma noite. E nesse dia, por mais que procures em mim, no meu corpo, as minhas mãos estão a aquecer sopas, a vestir pijamas e abrir as camas. E, só às vezes, quando eles se deitam sinto que é a parte melhor do meu dia. Quando me sento no sofá tenho as nódoas de sopa e de arroz dos jantares das crianças, tenho uma dor de costas do tamanho dos dois. E nessas vezes não estou lá. Só estou à espera de poder deitar-me e rezo por dormir 5 horas seguidas, pelo menos… às vezes, mas só às vezes, olhas para mim e eu não estou.

E a (minha) maternidade não é isto nem outra coisa. Não é um mar de rosas, não. Nem é um sofrimento pegado, isso muito menos! É apenas a coisa mais incrível que já me aconteceu. E essa descrição jamais caberia em post algum do mundo.

Por isso, nem sempre, mas às vezes eu só não estou. Mas amanhã já volto. ❤️