Dia demais

O último fim de semana de férias, era o tudo-por-tudo, últimos cartuchos, fazer os últimos desejos da lista, como deitar mais no domingo, era o prolongar das 3 semanas de férias.

Marcámos um dia intenso para sábado, para que domingo fosse um pouco mais soft, já que tínhamos de deitar os miúdos mais cedo a tempo de dormirem bem antes do primeiro dia de regresso aos infantários. O programa pretendia sobretudo fazer as delícias da mais velha e privilegiava os pais, já que o objetivo PRINCIPAL era vir para casa com os miúdos a dormir e ainda ter tempo para desfrutar um bocadinho de sofá.

Consistia então o programa de festas em visitar uma quinta pedagógica, ir à praia e terminar num repasto no IKEA, essa cadeia fantástica onde as famílias são privilegiadas e as crianças brincam à vontade sem que alguém grite ‘NÃO SE SENTEM NA CADEIRA’ ou ‘NÃO PISEM O TAPETE’, para desespero dos pais a correr atrás das criancinhas.

Começámos então pela quinta, o mais novo a ver animais pela primeira vez, entusiasmado a fazer os sons dos bichos e a chamar gatos aos porcos e a mais velha a treinar os nomes em inglês (é a minha tática para fazer a mesma brincadeira com os dois em simultâneo, o V de 18 meses faz os sons dos animais, por exemplo, e a MR de 4 anos aprende a sua tradução em inglês, ou diz qual a letra que inicia o nome do animal). Corremos uns 200 metros a dar comida às cabrinhas, porcos e galinhas (que atacaram a mão da MR que encarou aquilo como uma profunda ofensa e uma ganância desnecessária) e lá avançámos para o item seguinte, a praia.

Quando chegámos a estranheza do V era notável. A areia fria, húmida, um vento que trazia grãozinhos incómodos por todo o lado, muitos adultos sentados no chão. A MR instalou-se e rapidamente ficou à vontade, começou a fazer bolinhos e a personaliza-los para o pai e para a mãe a troco de conchinhas e pedrinhas. O V adaptou-se rapidamente à novidade e, qual peixe na água, comeu areia, atirou-se com roupa para dentro de água, rebolou tipo croquete, correu, foi feliz. E uma hora e qualquer coisa depois tivemos de vir embora.

😳 ui…

Quando pegámos no V ele guinchou um pouco até perceber que o caminho era destinado ao carro e não ao mar, aí abriu as goelas a plenos pulmões e desatou aos gritos. Daquela forma que envergonha todos os pais, e põe todos os que não são pais num julgamento entre o ‘não dão educação aos filhos’ e o ‘coitada da criança, sofre com aquela família que não a compreende’, enquanto isso agarrávamos em todas as roupas, toalhas e acessórios para sairmos dali. Acho que algumas pessoas olharam para nós e questionaram-se se estaríamos a raptar uma criança. Claro que a população com filhos NUNCA pensaria em tal coisa, saberia que não tínhamos qualquer interesse em fazê-lo com uma que gritava tão alto… acho que ele esteve para cair do meu colo umas 3 vezes, tanto que esperneou. Perante todos os olhares, ares condescendentes ou reprovadores, lá saímos dali, com o V aos gritos até ao carro, em direção ao restaurante…

Jantámos. Durante as férias decidi que pelo menos nas refeições ia poupar-me. Então apesar de ter dado SEMPRE sopa e fruta aos miúdos, aquilo que para mim é ‘os mínimos olímpicos’ da refeição, depois comiam exclusivamente o que gostavam. Isso foi basicamente frango, almôndegas, douradinhos e pão. Foi portanto mais uma refeição dedicada a estes bons exemplos alimentares e os miúdos já a descambar de sono.

Fizemos umas compras a correr, metemo-los no carro e dissemos cheios de esperança ‘chegamos a casa cedinho, eles já a dormir, ainda nos sentamos no sofá’. Mas não. Depois daquele dia exaustivo, cansativo, produtivo, os miúdos não nos fizeram a vontade e chegaram a casa acordados, a cantar e para adormecer ainda meteu muito beijinho, canções e embalo. Chegámos à cama de rastos, já quase à meia noite e a perguntar-nos se éramos maus pais pelo facto de o melhor do nosso dia ser quando os enfiamos na cama… a dormir, entenda-se 😳

Não sei se somos maus pais, sei que há pais que não acham isto cansativo e outros que estariam a arrancar cabelos. Ser mãe e pai não se ensina, mas aprende-se. E nem tão pouco há uma contradição neste facto: a coisa mais linda e maravilhosa do meu dia é acordar para os ver. A melhor, é vê-los adormecer ao fim do dia ❤️

Férias das férias

Contou-me o meu irmão, que já visitou e viveu umas semanas na China, que o símbolo da casa com uma mulher lá dentro significa ‘felicidade’ mas se tiver duas mulheres significa ‘confusão’. Confesso que comecei por achar isto brilhante, algo que podia ser o prefácio de todas as estórias de amor, família e sociedade da história. Mas tive de rever esta sensação porque sinceramente começo a achar que duas mulheres em casa é o negócio perfeito.

Das três semanas que passámos de férias em família, para começar estivemos quase uma semana com a minha madrinha, seguindo depois para regime de hotel e ainda deixando uns dias para nos organizarmos em casa, antes do regresso à escola/trabalho. A primeira semana foi intensa mas correu bem. Éramos 3 adultos para 2 crianças, eles tinham a atenção dividida por todos, deu para os adultos descansarem, os miúdos tiveram todas as suas necessidades atendidas e eu e a minha madrinha tratámos da casa. Mais a madrinha com a sua experiência, despacho e carinho, mas fizemos refeições, orientámos as crianças, arrumámos as tralhas diárias e fomos decidindo o programa. Duas mulheres em casa deram muito jeito, e tenho a sensação de que se fossem 2 homens, coitada da mulher que ficasse a tomar conta das tropas….

Pois quando entrámos em regime de hotel, já só éramos 2 adultos para 2 crianças… os miúdos disputavam, literalmente, a nossa atenção por eles. Cada um de nós tinha de dar prioridade a tomar conta de um deles, e como o V. tem agora 18 meses, um de nós estava invariavelmente de pé a correr atrás dele, para não cair, para não comer pedras, para não deitar a chucha para o rio, para não deitar abaixo o candeeiro do restaurante, para não beber o café dos senhores da mesa do lado, para não cair do sofá para onde entretanto trepou, para não descer do escorrega de cabeça, para não arrancar a cabeça de um cão e não se atirar para a piscina, já estão a ver a ideia…. já a outra, muito mais sossegada, fala que se desunha, pergunta, quer saber, ‘porquê’, ‘e agora tu eras uma rainha’, ‘conta-me uma história’, ‘faz de conta que eu era uma sereia’, ‘vou cantar uma canção sobre o jantar’, etc. Acordamos todos os dias pelas 9h mas só conseguimos adormecer os miúdos pelas 23h, às vezes meia noite 😳 não é que durmamos pouco, mas os dias são demasiado grandes.

Ora, as contas são muito simples, eu e o meu marido comemos maioritariamente à vez, vamos à piscina à vez, porque geralmente o V. não quer estar dentro de água, tomamos banho à vez e quando o miúdo dorme a sesta, um fica a tomar conta e o outro fica com a mais velha a passear, fazer atividades e todo um sem número de atividades estimulantes e divertidas…

Devemos ter estado umas 4 horas diárias juntos os dois durante…. as férias todas…. e não me entendam mal, adoramos as nossas férias, adoramos os miúdos, adoramos estes programas e esta correria, adoramos os momentos de mel e vê-los rir e brincar juntos! Adoramos tanto que passaríamos mais 15 dias de férias!!… só que agora só a dois…. para compensar o tempo perdido , vá ❤️😊

E estes miúdos são daqueles bons, que nem se queixam muito, nem dão demasiado trabalho… são só… miúdos. Mas como diz a minha mãe, ‘eu nunca tive filhos que se criavam sozinhos, só conheço daqueles que dão trabalho…’

Regressar

Ser Mãe ou Pai não é seguir nenhuma receita, porque nunca resultaria. Ninguém nos diz que isto é difícil para caraças e ainda bem, não valeria a pena e também não nos ensinaria grande coisa. Ser mãe e pai aprende-se. E mais, aprende-se com os nossos filhos (apenas).

Quando conheci o meu marido apaixonàmo-nos profundamente e em pouco tempo o que mais queria era construir uma família com ele. Não pensava mesmo noutra coisa. Foi um sentimento de desejo com relógio biológico a bombar, a explodir dentro dentro de mim. Tinha de acontecer. E aconteceu. Eu fui mãe e 3 anos depois fui novamente. E foi maravilhoso. Eu apaixonei-me por aquele bebé desde antes de o sentir dentro de mim, eu soube o que era amor incondicional, soube o que era não dormir, o que era fazer sacrifícios por amor, soube que a minha vida fazia mais sentido por ter chegado ali.

Foi uma adaptação difícil porque o meu corpo estava focado na minha maternidade, todas as minhas energias, criatividade, disponibilidade se esgotavam ali. E dar o que quer que fosse fora dali era um suplício. Até falar da minha área ou de assuntos atuais ou cultura, algo que adoro fazer, deixou de funcionar. O trabalho teve um período de menos afluência o que fez a cereja no topo deste meu bolo de desmotivação e eu entreguei-me aos meus 20 kg extra por cada gravidez e a um guarda-roupa prático e confortável, quem me conhecia de saltos altos e mini-saias, justamente não me reconhecia.

de cada vez que voltava ao trabalho sentia-me cheia de culpa. Por não querer deixar os meus filhos em casa mas também por não querer lá ficar continuamente, ou muito mais tempo. Uma culpa imensa por achar que já não era capaz de produzir arquitetura mas por me recusar a deixar essa minha área.

Sim, eu tinha nascido para ser mãe. Não, eu não queria ser só mãe.

E com o nascimento do meu segundo filho, veio uma paz…uma sensação de que a minha equipa estava feita. De repente não era só eu e a minha filha, eram os meus dois filhos, e eu enquanto pudesse e no que pudesse lá estaria para eles. E com isso veio o meu regresso.

De repente eu tinha espaço para retomar o trabalho. Eu voltei a fazer pesquisa e inscrevi-me nalguns cursos para me sentir na vanguarda do pensamento da minha área. Voltei a marcar encontros com colegas, a ter discussões profundas e interessantes e a sentir o cérebro fervilhar. De repente foi maravilhoso. Os meus filhos estavam bem, nos infantários, escolas, etc. e eu estava de regresso à empresa, aos concursos, parcerias e projeto.

E tive a certeza, eu nasci para ser mãe. Mas não nasci para ser apenas isso. Comprei roupa nova, voltei a usar perfume, redefini os meus horários. Tornei-me prática onde precisava de o ser, eficiente, rápida e capaz. E permiti-me também. Errar, falhar nos meus planos em que encadeio 800 coisas e só faço 30, cansar-me e simplesmente ir dormir porque não aguento mais, ser, ficar no sofá só porque sim, porque precisava de me ouvir a não fazer nada, gostar de mim ou estar zangada. Como as pessoas podem ser e estar, todas as pessoas exceto as mães que são maravilhosas, felizes e completas com os seus filhos. Para mim foi preciso conjugar mais.

E tenho a certeza que sem mágoa nenhuma, os meus filhos serão as minha melhores obras, ganhe eu seja qual for o prémio em arquitetura. E com eles e por eles toda e qualquer obra que eu atinja em arquitetura será mais alta e fará mais sentido.

❤️