Medo

Medo de ter medo. Medo de ficar parada. Medo de morrer. Morrer de medo. Se esta última fosse possível já não estava cá há muito tempo.

Porque é que as pessoas são ansiosas? De onde vem o medo? De onde vem a paranóia, aquele medo louco de tudo à nossa volta. Até onde chegamos com esse medo contraproducente? O que querem as pessoas que têm medo?

Tenho medo porque quero ser longeva. Então desde que tenho filhos quero muito ser longeva. Quero ser velhinha para eles. Ser mãe e avó e bisavó já muito velhinha. E cozinhar para eles. Desenhar… desenhar espaços e projetos para eles e para mim. Quero sentir e dar amor, fazer festinhas e miminhos. Quero ser velhinha para me levarem a passear. Quero ser velhinha como a minha avó.

E choro. Sim, às vezes choro. Porque do medo de tanta coisa vem a certeza de que nunca chegarei lá. Num mundo onde as incertezas são tantas, onde tanto e tudo pode correr mal, fico com a certeza de que lá não chegarei. E não sei porque me convenço disto. Se é porque de verdade acredito numa adversidade ou se porque custa tanto viver neste pânico constante que a ideia de não perdurar a vida se torna um alívio.

Mas continuo a querer chegar lá. A esse quadro de mim velhinha com um grupo de gente capaz de me adorar e passível de ser adorado. E ando pela vida a evitar pisar aqui ou ir ali para potenciar a hipótese de lá chegar.

Diz-se que a longevidade tem um segredo que ninguém conhece. Seja a felicidade, a boa alimentação, a meditação, o ‘estar em paz’. Deve ser um bocadinho de tudo isso. Tudo isto é pólvora nas mãos de um ansioso, ‘nunca chegarei lá’, só pode ser a conclusão.

Numa altura em que a religião volta a ser prato do dia e em que as pessoas parecem virar-se para a fé de forma a ultrapassar ou gerir o conhecimento que têm dos males do mundo, tenho pesquisado sobre várias religiões. Dizem os budistas que a melhor forma de conseguir a paz é controlar o apego. Nada é teu por muito tempo e nada está no teu controlo. Então uma das formas de aceitação deste lema é imaginar que perdemos algo que gostamos ou prezamos muito. Seja uma casa, uma pessoa, uma jarra, a nossa vida. Devemos concentrar-nos em imaginar que um dia, qualquer, aquilo vai acabar. Consciencializamos isso, acreditamos nisso e até podemos ficar um pouco tristes. Depois, saímos desse estado e percebemos que aquilo ainda existe. Então é uma coisa boa, ainda está lá. A cada dia que aquilo lá estiver e continuar vai ser uma coisa boa, vamos agradecer e desfrutar daquilo. Quando um dia terminar sabemos que ia acontecer, portanto não lamentamos o evento, agradecemos o que pudemos viver para além disso.

Não é fácil. Sobretudo para um ocidental. Sobretudo para um ansioso. Mas talvez seja um primeiro caminho. Talvez seja uma forma de tentar.

Que formas usam para lidar com a ansiedade?…

❤️

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