Estás uma seca

Quando me arranjo de manhã o Z. gosta sempre de comentar. É uma coisa nossa fofa, até porque são os 10 minutos em que vemos naqueles preparos. Mais tarde quando ele chega a casa já eu tomei banho com a MR e estou de pijama, ou, convenhamos, já um dia passou por mim, com pessoas, viagens, processos, às vezes parece que até eu chego amarrotada ao fim do dia… E então este momento matinal é a hipótese que temos de nos apreciar mutuamente.

Quando calço uns sapatinhos que façam barulho, invariavelmente o Z. reage  e comenta algo do género, ‘hm, estás tão sexy…’, sabe muito bem 🙂

Pois no outro dia entrei na cozinha e a miúda estava ao colo do pai a tomar um pequeno almoço que me impressiona imenso, montes de farinha Cerelac com um fio só de leite. É lá uma cena de pai e filha. Aquela argamassa nem para assentar tijolos dá… Levanta a cara do prato olha para mim e a tentar dominar aquela papa diz-me:

‘Olha, a mãe está tão ‘seca’!’

E foi isto. Saí de casa super orgulhosa 🙂

Anúncios

Ainda me habituo…

Pronto, andamos a gostar tanto de descobrir que temos coisas que gostamos de fazer individualmente e a dois, para além de ‘a três’, claro, que voltámos a passar uma noite sem a miúda. Bom, uma breve introdução. Eu adoro, e nós adoramos estar em família. Estar a três. E estar com outros membros da família, com amigos, etc. Mas agora muito recentemente andamos a (re)descobrir o prazer de fazer coisas sozinhos. Temos hipótese de explorar coisas que gostamos, nas quais temos interesse. E por isso a MR foi passar uma segunda noite a casa dos avós 🙂

Passámos um dia calmo, basicamente não fazendo grande coisa, simplesmente desfrutando de um dia de férias sem planos. À noite fomos jantar a um sítio maravilhoso, conversámos imenso e parecíamos dois adolescentes que não conseguem adormecer com tanto para contar. De manhã o Z. foi correr, anda a preparar-se para a meia maratona do próximo fim de semana, e eu fiquei na ronha na cama até ganhar coragem para me levantar. Quando finalmente saí dos lençóis eram 10.30h!!!! 😮 E estava sozinha em casa.

Olhei pela janela e estava a chover. Fui buscar um robe, sou daquelas pessoas que sente frio quando está a chover, e sentei-me no sofá. Pela primeira em pelo menos 2 anos estou sozinha em casa, sem estar doente, nem ter de trabalhar, está tudo bem, o Z. foi correr, a MR está com os avós e eu estou sozinha :)))

Peguei no telefone, na chávena de leite com chocolate, sentei-me no sofá e liguei à minha mais-que -tudo, a madrinha da minha filha, que está a viver em Londres. ‘Querida, é sábado, estou sozinha, está tudo bem! Tenho a bebida, a chuva e a amiga! ‘Bora conversar só nós?’ 😊 E conversámos, matámos saudades, pusemos novidades em dia, por pouco estávamos mesmo ao lado uma da outra. Há poucas coisas que goste mais de fazer do que ter uma prazerosa conversa num dia de chuva. Enche-me profundamente a alma sobretudo se for a companhia certa ❤️

Foi uma sensação maravilhosa acerca de quase dois dias sem MR muito rejuvenescedores. A madrinha da MR ainda brincava ‘Bem, vais ter de fazer isso todos os fim de semana, não?’, não, não teria coragem! Mas assim, uma vez de 2 em 2 meses, isso de certeza 😊 Até a semana seguinte corre com menos incidentes e maior disponibilidade 👍 acho que já me estou a habituar…

Noites

IMG_0068

Toda a gente sabe ou parece saber o que fazer nestas situações. Diz que é deixar o bebé chorar um bocadinho na cama, ou dar leitinho à noite que dormem melhor, ou já não há nada a fazer porque nós, as mães, os habituámos mal na nossa cama ou porque não os ensinámos a adormecer sozinhos. Também há a versão extrema de acreditar que uns nascem assim, para dormir, e outros nascem assado, não gostam de dormir.
Bom, eu gosto de acreditar que há de facto um ensinamento que é possível aos bebés ainda que também acredite que existe uma pré-disposição de cada criança que não é digamos, uma tela em branco.
Pois a minha querida filha nunca foi um bebé de ficar a chorar de noite, ai que bom!, que bom!, que bom!, mas também nunca, nunca foi aquele bebé que eu deitava na caminha às 22h e às 6/7/8h lá acordava (chiuf!).
De modo que quando a caganita acorda lá vou eu aos tropeções aos cantos da casa e pego nela com carinho. Quer mimo. A qualquer hora do dia ou da noite, acorda, quer conversar, quer passear, eu digo faz o-o, e ela responde, ‘o-o’, depois eu digo, shhh, temos de dormir, entretanto o Z. ressona e ela diz, ‘papá’, sim é o papá, agora faz o-o, entretanto o pai acorda, levanta-se, assoa-se e ela grita ‘no-no’, sim é o nariz querida, dorme, vá!, ‘muuu ‘, oh!, não é a vaca, é vá! Enfim, já estão a ver a conversa.
Bom, acabo por ficar com dores de costas, e cheia de sono e levo-a para a cama comigo. Deita-se para um lado depois para o outro, depois destapa-se, depois pega na minha mão, rabinho para cima, barriga para baixo, por fim fica exausta e adormece. E eu também. De manhã ela está fresquinha e eu nem sinto metade do corpo de dormir sempre para o mesmo lado, cheia de cuidado com ela, exausta de estar sempre a acordar para a ver…
E realmente quando me levanto ko nem posso ouvir alguém dizer que lhe dei demasiado colo em pequenina ou que a devia ter deixado no berço até parar de chorar (a sério, isso existe?). No entanto não posso deixar de me recordar da primeira vez que levei a minha filha à pediatra. Enquanto estava na sala de espera uma mãe que tinha dois miúdos de volta dela olha para mim e diz-me, ‘é mãe de primeira viagem, certo? Bom não vou esperar pela resposta, vejo que sim, na forma como olha para a sua bebé, como reage a cada inspirar e expirar. Vou dizer-lhe uma coisa, com o meu primeiro filho eu reagi a cada som dele, ia a correr, literalmente, vê-lo e pegá-lo, e acho que o meu nervosismo o tornou a ele mais ansioso. Com o irmão fui bastante mais descontraída e a até o deixo chorar um bocadinho antes de o ir buscar e a verdade é que ele chora menos, é mais calmo e não tem tanta ansiedade. Se me tivessem dito isto na altura do meu primeiro filho eu não teria acreditado, mas adorava tê-lo feito.’
E acabo por recordar aquela conversa e concordar que apesar de que nunca concordaria em ter deixado a minha ou nenhum outro bebé chorar até se calar, podia não ter ido a correr. Podia não ter ido de coração nas mãos a pensar ‘O QUE SERÁ??????’ Como se pudesse sempre ser o pior. E tenho de concordar, só para mim, que podia ter sido menos ansiosa o que poderia ter deixado a minha querida filha um pouco mais calma nesta forma de acordar de noite, ou noutras.
Mas também não me parece que poderia ter sido a mãe da minha primeira filha como se ela fosse a minha segunda. Posso apenas pensar sobre isso e tentar melhorá-lo 😉

Vamos (todos) comer

Havia uma revista que os meus pais liam quando eu era adolescente que se chamava ‘A Grande Reportagem’. Era uma revista generalista cujo diretor era o Miguel Sousa Tavares, que os meus pais também adoravam, e gostavam tanto da publicação que presumo que tenham os números todos. Eles liam a revista à vez, a dois e às vezes liam-me ou eu lia trechos de artigos. Mas havia uma secção que líamos todos juntos, assim estilo momento familiar. Era uma página em que se gozava com coisas que tinham sido ditas publicamente, por ilustres conhecidos, claro está, e às quais era atribuído um prémio, num registo muito irónico, cómico e informal. Pois havia um que ficou para sempre entre nós, em que aparentemente alguém tinha um caso com a mulher de outro alguém que por sua vez descobriu e ofereceu porrada ao primeiro. Ele, o primeiro, dizia então ‘Eu já nem como’, e o prémio era ‘Ai comes, podes ter a certeza que comes!’

Bom e o título que queria dar a este post era exatamente esse. A MR sempre foi de comer pouco desde que começou a comida pós amamentação. Chegámos a fazer análises pois preocupava-nos, e à pediatra, o seu baixo peso. Desde que está no infantário sentimos que come um pouco melhor e sobretudo com mais entusiasmo. E esse entusiasmo passa por querer agarrar o prato da comida, a dita comida, o garfo, a colher, a tosta, o importante é sentir tudo.

Começa assim, eu vestida limpinha e cheirosa. O Z a medo, já com farda de trabalho (t-shirt velha e calções de treino). A MR acabadinha de sair do banho com cabelito ainda a secar e tudo. Na mesa a sopa, o pratinho com carne e arroz, por exemplo, a taça com a fruta e a nossa comida, pratos e talheres respetivos para isto tudo.

Eu começo a dar colheres de sopa e a MR decidida, vira a cara. Como parece que eu não percebo as suas intenções e volto a tentar, à segunda vez ela não tem outro remédio senão dar um safanão na colher, ficar com sopa na mão, na cadeira e na perna e estrear as minhas calças, as tais que estavam limpinhas há 5 minutos atrás. Tento então mostrar-lhe o garfo com a fruta, ela entusiasma-se, abre a boca e eu muito depressa enfio uma colher de sopa e só depois lhe dou a fruta. Sente-se meio enganada, mas gosta da recompensa e por isso lá deixa passar. Isto resulta mais umas duas vezes, pelo meio tenho de ir buscar umas caixinhas decorativas que ela adora abrir e fechar, mas depois é necessário outro tipo de comida, 3 vezes fruta já chega. Então vem a carne com arroz, novamente com sopa primeiro. Desta vez o entusiasmo com a coisa nova é tão grande que me agarra na mão que tem a carne (sim, tenho de usar as duas mãos para lhe dar comida) e cai um bocado de arroz para cima das caixinhas. Ela espreita os dois grãozinhos de arroz e cheia de perícia pega neles delicadamente, tenta levá-los à boquinha, mas oh!, não conseguiu, e eis que os grãozinhos vão para a cadeira. Continuo a alternar entre fruta e carne, sempre com a sopa antes, e a aproveitar que tinha a boca aberta quando disse ‘olá’ para a televisão, cai um pingo de sopa nas minhas calças e a tentar limpar com um guardanapo esqueço-me que tinha arroz na outra mão, cai tudo na camisa. Apanho os bocadinhos e ponho no cantinho do meu prato enquanto levanto os olhos e percebo que o Z teve de lhe dar a comida do nosso prato pois ela estava desesperada a apontar e dizer ‘dá!’ Volto à sopa, dou-lhe uma tosta e tento novamente com fruta e arroz alternado. Põe a tosta na boca, mas percebe que não era isso que queria, tira da boquinha dela e gentilmente entrega-me aquele bocadinho lambido, ‘dada’ que significa ‘obrigada’, que é o que dizemos sempre que ela nos dá algo. ‘obrigada, sim filha! Tão bom, a mamã vai por aqui no cantinho do prato.’ Ok, mais umas colheradas, do meu prato já nem sei qual é o direito e o avesso, o Z a partir bocadinhos de comida que vai dando à MR também e para mim, para que eu coma alguma coisa. De repente decide que quer comer sozinha, sim, esse restinho, já chega eu decidir o que lhe dar, ela quer o pratinho. E eu dou-lhe o pratinho, o Z a rir-se, ela a pegar na comidinha com uma mãozinha e a colocá-la no garfinho que a outra segura. Depois tenta equilibrar tudo até à boca mas no caminho cai, suja as perninhas, ela bem tenta agarrar mas cai tudo para o chão. Pois nada pára esta criança determinada e eis que pega no pratinho e enterra a cabeça lá dentro, tentando apanhar qualquer coisinha às dentadas a tudo o que não mexa.

Nesta altura eu tenho o braço todo bedungado de ela me agarrar carinhosamente, o meu prato é uma testemunha da batalha de comida ainda me curso, já estou a comer com as mãos e nem sei quando é que isso aconteceu, o Z está a dar-me comida à boca e a MR tem arroz no pescoço, fruta no cabelo e sopa nos braços.
Suspiro. Olho para o Z que se está a rir a olhar para a figura dela e que diz, ‘até o chão come!’ E solto uma gargalhada a imaginar o título ‘ai comes, pode ter a certeza que comes!’ E quem estiver por perto come mesmo, se não for pelos métodos tradicionais alguma coisa lhe há de chegar, nem que seja via tópica.

Regresso às aulas

Bom, neste caso não é um regresso. Nada desde que a MR nasceu nada é uma repetição. É na verdade assustadoramente tudo novo. E finalmente conseguimos colocá-la no infantário. Fizemos um período de transição, começámos por deixá-la lá por 2 horas, depois a almoçar, e agora dorme e lancha também. Está a correr bastante bem, dorme esgotada do dia agitado e até come mais.

O único problema são os ritmos. Os bebés adoram ritmos. E por muito que nos custe implementá-los a verdade é que a curto prazo já estão a compensar. Os miúdos adoram saber o que vem a seguir e mesmo quando não gostam de uma tarefa ajuda que está seja feita sempre à mesma hora pois acabam por aceitá-la um pouco melhor. Presumo que seja porque sabem que tal como começa sempre à mesma hora e da mesma forma também termina.

E neste caso temos de readaptar a MR aos ritmos do infantário, agora que estávamos a conseguir implementar os nossos… De modo que ela almoça às 11.30h em vez das 13h e lancha duas vezes à tarde em vez de uma vez de manhã e outra de tarde. Também só dorme uma vez em vez de duas e por isso às 18h está exausta. O pior desta hora é que não é bem carne nem peixe. Já é muito tarde para sesta mas é cedo para dormir a noite toda. Mas como é a hora em que ela sucumbe eu não posso fazer grande coisa senão aceitar. E depois adormece só às 22h e no dia a seguir é uma seca acordar. Suspiro, ainda estamos todos a acertar-nos, como disse.

E talvez seja por estar na fase de adaptação ou porque anda a ser abandonada por mim (sim, porque as mães são as responsáveis por tudo o que acontece aos filhos) no infantário, a verdade é que anda zangada. Sempre me regozijei pelo facto da minha filha ser uma miminha de primeira! Bem ao meu jeito e ao meu gosto. Mas ultimamente anda zangada, opinativa e dá assim umas patadas violentas em mim (sobretudo) ou no pai. Enfim, entendo a sua zanga e valido os seus sentimentos (que remédio) e mais não posso fazer. Presumo que tal como eu tenho direito de a abandonar no infantário ela tenha o direito de se zangar com a minha opção. Este direito de opção e de opinião que atormenta famílias por todo o mundo acabou de começar por estas bandas. E como diz o meu marido, ‘agora olha, aguenta-te à bomboca!’

Comparações

Don’t compare your beginning to someone else’s middle.

Vi esta frase hoje, através do google, no fim de um dia difícil de trabalho e foi assim um cair que nem ginjas, como diz o meu pai.

Falava ainda há poucos dias nisto com a minha madrinha. Sobre o conseguir/ querer/ gostar de ficar em casa com um bebé. Aparentemente comigo não resulta, não resultou, não dá. Não consigo trabalhar com ela em casa nem fazer nada, mal dá para deixar a casa em dia se não tiver trabalho e a parte do ‘eu’ então, ui, nem dava para entrar aqui. Se a isto acrescentarmos o ‘nós’ então quando olham para mim já caí para o lado.

E ao pensar nisto apercebi-me, o pior de todas as comparações nem são aquelas feitas entre bebés. Sim, quando falo da minha filha imediatamente me perguntam, ‘Já anda?’ ao que respondo ‘Não.’ E todos, ‘Ah… Então já fala.’ ‘Hm, bom diz umas coisinhas, mas não sei se fala…’ ‘Ah…’ respondem as pessoas um bocado desiludidas com o espetáculo como se tivessem pago um bilhete tão caro e afinal não havia nada para ver. Mas ocorreu-me que na verdade a comparação não era entre filhos… é entre mães.

Quando a pergunta é ‘O que é que essa criança faz?’ significa na verdade ‘O que é que tu, como mãe, já a puseste a fazer.’ E pronto, está aqui a base de tudo. O que esta criança é, é um reflexo das capacidades das mães e as mães relatam as suas vidas justificando o desenvolvimento dos filhos e mostrando as heroínas que são nas várias áreas da sua vida.

Bom, a ver, também não estou a defender que o melhor seja uma rodinha de mães a ver quem tem uma vida pior, mas ocorreu-me nas palavras da minha madrinha, que esta sensação daquilo que a minha filha é e do estado de exaustão a que me senti chegar era para mim um ponto de honra de algo que me sentia responsável. As minhas capacidades. Face, claro está, Às capacidades das outras (mães).

E parece que foi sempre assim que expus o assunto. ‘Não consigo ficar em casa com ela, trabalhar ou não trabalhar, tratar de tudo, dela, de mim e de nós. Simplesmente não consigo.’ E este peso é um desabafo que traz um não-fui-capaz por trás. Como se alguém fosse. Perdão, como se importasse se alguém o é. Como se na tabela da maternidade perdesse pontos face às que aguentam.

E ocorreu-me nesta frase que não faz sentido. Comparar realidades distintas, experiências diferentes, formações diferentes, horários trocados, outros empregos, ausência deles, apoios, etc. Fica tão sem sentido como comparar o início de algo ao meio de outro, já anunciava a frase. E assim, neste sacudir de pensamentos, decido dormir sobre o assunto. Não há nada que não tenha conseguido fazer porque isso implicaria uma meta. Não há essa meta. Pode, aliás, ser qualquer uma que nos passe pela cabeça. E assim até podemos dizer que a vencemos. Passamos de perdedoras a vencedoras. Afinal está tudo na nossa cabeça. Porque não utilizar o lado melhor disso e tornar tudo mais positivo?

Consegui. Dei o meu melhor. O meu pessoal melhor. E agora decidi outro caminho, colocá-la no infantário. E até aqui consegui trabalhar com ela em casa. E consegui organizar coisas, fazer remodelações e manter a casa minimamente arrumada e limpa. Outras fizeram melhor ou pior. Para agora não importa. Esta comparação é muito simples. Só cá estou eu. E o que eu penso de mim.