Culpas

Esta coisa de ser mãe deixou-me no geral, melhor. Melhor que pessoa. Mais generosa com o mundo, mais cautelosa, mais calma, mais segura e mais desconfiada. Também faz parte. Há pouco tive a visita da madrinha da minha filha a Lisboa e resolvi tirar um dia de férias para matarmos saudades uma da outra. Foi assim tipo, tempos de faculdade. Primeiro senti-me culpada, ‘imagine-se!’ Sentei-me à mesa do restaurante e pensei, ‘que horror, estou aqui a divertir-me e não estou com a minha filha. Nem estou a trabalhar! Sou um ser humano fútil e horrível!’
Porque é que nós haveríamos de sentir assim? A minha madrinha ofereceu-me o livro da Sónia Morais Santos, ‘A culpa não é sempre da mãe!’ e realmente alguma coisa está errada, nas nossas cabecinhas, claro! A minha querida amiga coitada, nem queria acreditar que vinha de tão longe, que tínhamos tirado férias, que eu tinha um dia de folga pela primeira vez em meses e no fim daquilo tudo… Sentia-me mal…
Enfim, felizmente, por alguma razão será a madrinha da minha filha, lá conseguiu tirar-me aquilo da cabeça e em pouco tempo só me apetecia era chorar a perguntar porque é que eu não tinha aqueles programas mais vezes, e sobretudo, porque é que Londres não era já ali, ao lado de Lisboa…
Li o livro da Sónia, falo com mães recentes, mães-avós, com amigas e com educadoras e ainda não consegui perceber porque é que nós sentimos assim culpadas. Sobretudo nós as mães. O que vale é que estas pessoas todas apesar de não terem todas as respostas lá vão sacudindo o peso do mundo que trazemos às costas e lá dizem, ‘não pode ser!’, ‘espaço para a mãe!’, ‘o casal também conta!’, ‘tempo para ti!’, ‘para a criança também é bom!’, e de boca em boca lá vamos sentindo mais e mais que aquele espacinho que estamos a conquistar não só nem tanto nos é devido, mas sobretudo é tão apetecido que se lixe tudo o resto… E a culpa lá fica caladinha, que remédio. Mas às vezes penso se não é justamente esta sociedade que dá toda a esta carga também. Bom, a Sónia Morais Santos refere-o sem dúvida, e lá estão as ideias das mães perfeitas que têm partos sem dores e crianças que só se sujam para o anúncio da skip a assombrar-nos e esmagar-nos como se a nossa vida não fizesse sentido se não atingirmos aquele estado e família elevados.
Somos um ser complexo. Pensamos e muitas vezes pensamos de mais. Às vezes parece que somos nós que montamos as próprias armadilhas em que caímos. Cada vez mais me convenço que o poeta é que tinha razão. Só se pode ser feliz se se for inconsciente. Todos os outros andam por aí a pensar demais… Esse é que é o derradeiro erro…
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Quando o tempo não chega!

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A MR está finalmente no infantário e a adorar. A adaptação tem sido espetacular, não podia estar mais feliz. Todos os meus/nossos receios foram brindados com resultados melhorados, come melhor, dorme melhor, brinca melhor. Já anda. Já diz que tem cocó na fralda, pede as coisas, diz que não, dá miminhos e pede para fazer ó-ó.

Nós estamos melhor. Eu estou melhor. Tenho finalmente algum bocadinho do meu dia só para mim. Um bocadinho. Mas sabe a mel. É ouro, é o meu bem mais precioso a seguir à minha filha. Tenho os 5 minutos de carro desde o infantário ao meu trabalho. Tenho o percurso contrário para a ir buscar. E as horas de almoço.

AS HORAS DE ALMOÇO! Parecem 3 horas por dia e ao mesmo tempo voam em 30 minutos. É na verdade uma hora e meia. Dá tempo de vir a casa, tirar loiça lavada da máquina, deixar lá a suja, tratar do meu almoço enquanto adianto e planeio o jantar, fazer uma máquina de roupa se for caso disso e/ou tirar roupa do estendal. Fazer as camas, descalçar-me… E almoçar sentada no sofá, geralmente a ver tv. Tão simples, limpo, fútil, só e somente, eu, o sofá, a sopinha e uma sitcom.

Ser mãe é uma coisa maravilhosa. Mas quando se diz que é um trabalho a tempo inteiro é exatamente isso. É limpar, arrumar, amar, cuidar, ser enfermeira, saber negociação e um pouco de todas as áreas, é ser professora, atriz, costureira e cozinheira. E o trabalho decorre 24 horas por dia, lá podemos dormir, mas se houver trabalho temos de estar disponíveis a qualquer hora. E com um sorriso na cara, de preferência. Felizmente estes serezinhos têm-nos nas palminhas e ao ver aquela carinha, seja a rir ou a chorar não há coração de mãe que não se derreta. Obrigada Natureza, por facilitares esta parte do trabalho.

Desde que a MR nasceu que estive em casa com ela, e sim, dediquei-me 24 horas por dia a este amado trabalho. Ao fim de 13 meses tive um momento verdadeiramente a sós. Que não era ir a uma reunião a correr, nem ir comprar leite, nem beber um cafezinho de pé que nem dava tempo para sentar. Este tempo de almoço, que também serve para arrumar a casa da noite anterior ou do pequeno almoço, dá-me nem que seja meia hora em que não estou a pensar em nada. Se ela acorda, se tenho de pôr comida a fazer, se temos uma conversa a dois, nada. E desculpem-me, nem telefones atendo. Depois de arrumar a casa a correr, comer o meu saboroso almoço, que já não vai para as calças, chão e toalha, tenho um bocadinho mais para nada fazer. E muitas vezes penso o que posso fazer com este meu tempinho. Chego a fazer listas. Mas na hora da verdade o que eu faço mesmo é nada. Às vezes chego a ficar de tv ligada e cabeça no abstrato.
À tarde quando volto já estou com a minha caganita. Estou disponível, dou-lhe toda a minha atenção, depois banho, jantar, cama e mais umas horinhas partilhadas a dois e a arrumações.

E neste bocadinho entre o deitar-se dela e o nosso é o esticar o tempo ao máximo. Para nós e para cada um de nós. Pôr em dia todas as coisas por favor, e tentar que o dia de amanhã não comece logo à meia-noite. Mas lá vem o dia seguinte inevitavelmente e a caminho da azáfama que às vezes parece que começa à meia -noite mesmo, sempre sorrio e adormeço a pensar no que vou fazer no dia a seguir, na minha hora de almoço 🙂

Parar

Acontece pouco. Muito pouco na vida de um casal trabalhador com um, imagino mais, filho pequeno. Até termos direito de nos sentarmos sossegados no sofá muito banho tivemos de dar e de tomar, muita sopa voou, muita loiça se arrumou, roupa, bebé a brincar, bebé a dormir, enfim, já são perto das 22h quando nós sentamos e geralmente vamos ainda tratar de algo, ou pagamentos ou arrumar/ organizar uma gaveta e depressa chagam as 23.30h e ‘o último a chegar é um ovo podre!’, é a corrida para a casa de banho e a cama.
No início as tarefas da bebé eram todas minhas. Era uma cena que nos assistia a todos e estávamos bem com isso. Desde a parte óbvia do alimentar, à troca das fraldas, ao adormecer, mãe. E só a partir dos 8/10 meses é que o pai começou a ficar mais envolvido nestas questões e começámos a partilhar a criança.
Confesso que me soube bem. Os momento em que o pai entra sempre são aqueles que acontecem depois de jantar, limpar o bebé, mudar a fralda e adormecer. Havendo sempre coisas para fazer, nesses minutinhos acabo por ir para a cozinha e fico a tratar da loiça e da roupa. E nestes minutinhos não estou a correr, como durante o dia, não a oiço chorar nem estou a cantar a canção das ‘bochechas’, não estou a contar como foi o meu dia, estou só a estender roupa enquanto, no máximo, faço uma lista mental do que fiz, ou falta fazer ou farei no dia seguinte.
E não me interpretem mal, preferia estar a ler, a ver televisão, a comer um chocolate no sofá ou gozar minutos a sós na casa de banho, mas na verdade esta tarefa, a esta hora, é mel. Um momento a sós, em paz, no silêncio da noite. A está raramente tenho um ataque de pânico e estou aliás muito feliz por estar a desempenhar uma tarefa sem ter de pensar nem na dita nem em mais nada. Afinal o Fernando Pessoa tinha mesmo razão e ser inconsciente é a melhor forma de não sofrer. Ou seja, não pensamos demais, a nossa mente fica, sem outro remédio, quieta, por oposição ao inquieta. Abre caso, estende as mangas para trás, pega na mola, prende na peúga, estica o lençol…

Momentos a dois

Acontece que (alguns) casais discutem. Acontece. Têm problemas, zangam-se, irritam-se, tentam com muita força chegar a acordo, mas às vezes tentam com tanta força que não conseguem. E depois da zanga vem o porquê. Porquê? Porque é que nos passámos tanto ou estamos tão irritados? Esperançosamente atingimos o momento de clareza em que decidimos que precisamos de passar mais tempo juntos, ou mais momentos de lazer.

Assim combinámos que quinzenalmente a MR iria passar uma manhã a casa dos avós ou padrinhos para nós termos momentos a dois. É preciso antes de explicar o que fazemos nesses momentos, um bocadinho mais sobre nós. E sim vou revelar o que fazemos nessas horas.
Os orientais, mais concretamente os japoneses, consideram o espaço da casa uma extensão de si e nesse sentido também a sua limpeza faz parte da sua higiene pessoal. Eu sinto-me nesta linha de pensamento. E por sorte ou destino ou escolha, acontece que o meu querido marido partilha deste sentimento. Antes de ter engravidado começávamos as limpezas sábado de manhã, logo a seguir ao pequeno-almoço, eu tratava das zonas húmidas (casa-de-banho e cozinha), ele tratava dos motores, vulgo aspirador, depois era limpar o pó e arrumar para mim, lavar para ele e quando acabávamos tomávamos banho. Acabávamos por volta das 16horas exaustos mas felizes, no sofá, num almoço tardio, a inspirar profundamente o ar limpo e fresco da nossa casinha. Todos os sábados.

Quando engravidei enjoei horrores e não podia sentir o cheiro de nada, muito menos produtos de limpeza. Quando passaram mais os enjoos fiquei inchadíssima por isso nem me baixar podia. Finalmente a MR nasceu e eu não tinha tempo para nada, mal dormia e o tempo livre acabava por ser para trabalhar, resumindo, soube muito bem ter ajuda de uma empregada nestas alturas.

Acontece que há algum tempo desabafei como tinha saudades dessas manhãs/tardes de limpezas. E imediatamente trocámos um olhar cúmplice. Percebemos que precisávamos desse nosso ritmo de limpar alma enquanto esfregávamos um pedacinho de chão. Ridículo, pensam vocês, tiramos uma manhã de 15 em 15 dias para limpar?!?! É exatamente isso que fazemos. Entregamos a cachopa a cuidados familiares e limpamos a fundo uma parte da casa. No fim vem o nosso banho e a sensação de limpeza a partir de dentro.

Hoje foi dia de limpar. Bom, se algum dia nos cansarmos disto claro que podemos tirar a manhã para o que raio nos apetecer, mas isto é exatamente o que nos apetece agora. Limpar. Já reza o ditado, ‘não há nada que água e sabão não limpe. Só as más línguas.’ Neste caso até a alma fica purificada. E nem foi preciso esfregar muito.

 

Casinhas

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Passo a vida a fazer, organizar, pensar e desenhar casinhas lindas arranjadinhas. Para os outros. A bem dizer, penso nisto constantemente, quer dizer, um bocado como defeito de profissão, sempre que estou num espaço construído peno no que poderia fazer para o melhor, se não me sentir plena no mesmo. Por isso acabo por fazer este exercício inúmeras vezes, em trabalho e fora dele. Ainda por cima tenho um marido que adora os meus projetos (<3) e está sempre a fazer-me perguntas do género ‘O que é que fazias ali? E quanto é que custava? E se não tivesses limites?’ E claro, estou constantemente a pensar na minha casa, no meu espaço (que são coisas profundamente ligadas apesar de ligeiramente diferentes).

Acho que muitas pessoas perguntam como serão as casas dos arquitetos, designers, e outras pessoas ligadas ao pensamento do espaço e do estético. Bom, a verdade é que alguns destes profissionais têm na sua casa o seu cartão de visita, por motivos de facilidade/ interesse profissional, também haverá outros que conseguem tudo o que querem na sua casa, o que é fantástico. No meu caso tive a sorte de ter um enquadramento familiar com especial bom gosto. As casas da minha mãe são e sempre foram lindas, especiais, nem demais nem de menos. A minha mãe tem bom gosto, conhecimento e chama bons profissionais para fazer o que não sabe e o resultado é notório. Enfim, não era intenção estar a gabar, mas para dizer que não tive de aprender tudo no meu percurso académico e profissional porque tinha já uma boa base. E por isso sempre tive casinhas bonitas desde que saí de casa e comecei a compor os meus próprios espaços. A casa onde vivi sozinha durante 1 ano apareceu na revista do Ikea e tudo e eu fiquei toda contente.

Mas, este espaço pessoal, geralmente, tem condições. Condições de peso, geralmente económicas. Começa com a base. O tipo de casa que se pode comprar. Ou arrendar. E se for arrendar o tipo de melhoramentos possíveis de fazer fica limitado. E depois dos melhoramentos fica a faltar o recheio. Este tem de servir sobretudo o propósito funcional. E depois mais uns pozinhos perlimpimpim para a parte estética. Ora, no final é raro querermos exibir o nosso espaço como o nosso melhor projeto. É o melhor projeto face ao valor disponível, claro está. Mas parece que queríamos ter sempre mais e melhor.

E no final do dia chego da casa de um cliente, que fica sempre linda quando de lá saímos, sem coisas desarrumadas, sem pó, com as peças no lugar certo, sem excessos, etc., e olho para a minha linda casinha, com bonequinhos de bebé, e sapatinhos à entrada para não sujar o chão onde o bebé gatinha, e casacos no cabide porque chegámos e fomos logo mudar a fralda ao bebé, e na sala uma manta no chão para o bebé brincar, mais a cadeirinha com o individual às cores e um restinho de fruta do almoço, e as camas que ficaram por fazer e ahhhhhhh!! Dá vontade de voltar para trás. Abrir a porta e fazer de conta que aquela família é o cliente, ser o arquiteto que diz tira daqui e põe dali e sair de mansinho enquanto está tudo arrumadinho…

Suspiro, que não me interpretem mal, adoro a minha casinha. E sim tenho um ótimo resultado com esse tal valor que estava disponível, mas às vezes acho que o meu marido tem razão, eu só estava bem a viver numa casa cheia de armários brancos,de alto a baixo, a fazer de paredes. E lá dentro estava tudo guardadinho, até a ele o guardava se pudesse. Enfim, acho que resistiria a este último ímpeto, mas confesso que me delicio com esta ideia de tudo arrumadinho, limpinho, organizadinho…

Quando entro nesta fúria de organização nem o computador escapa. Faço pastas e mais pastas e pastas para essas pastas e às vezes até tenho dificuldade em encontrar ficheiros e documentos neste labirinto de caminhos virtuais. Talvez em vez de guardar e arrumar esteja a precisar de sair um bocadinho. Para um sítio sem armários nem pastas nem arrumação. Só por causa disso decidi arranjar o nosso esquecidinho terraço. Assim como ponto de fuga. E nestes dias mais difíceis posso sempre entrar em casa, pegar na família e voltar a sair. Assim estilo, ‘vá para fora cá dentro’.

Correr

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É como fugir. Mesmo quando não é. Bem sei que é o desporto que está na moda, mas sempre adorei correr. Não é para me salvar da manada de corredores, nem fui sequer nunca uma corredora por excelência, daquelas que correm todos os sábados, faça chuva ou haja sol. Corria. Descobri isto lá para os meus 15 anos, corria com umas amigas da minha turma, descobri que tinha bastante jeito e uma boa endurance e vamos lá disto.

Quando engravidei interrompi a corrida e enquanto amamentava também não dava muito jeito, quem não sabe a que me refiro fique sabendo que dói. Entretanto parei de amamentar e entre o não-tenho-tempo e o estou-em-baixo-de-forma, não consegui voltar às passadas largas. Finalmente nas férias, em família, consegui babysitter para a cachopa e lá fui correr com o Z.

F-A-B-U-L-O-S-O!!! Ahhh!… Damos uma passada, e pomos o pé à frente do outro e parece que os nossos pés lutam para ver quem chega primeiro, e o nosso corpo é arrastado sem sequer ter pedido, e lá vamos nós, e o mundo fica para trás, pequenino, pequenino, porque nós vamos a correr e a correr saímos de todas aquelas coisas que estão mal na nossa vida, porque o vento nos bate na cara e no corpo e sacode os problemas.

E fica difícil, queremos desistir, o nosso corpo fica a tremer, a perguntar, porquê continuar? E bate no chão com força a cada passada e olha para trás, mas está tudo tremido, só se vê para a frente, onde o vento limpa a cara dos cabelos que se soltam. E continuamos, resistimos, mesmo devagarinho os nossos pés não param, um depois do outro, a ver quem chega primeiro.

E de repente, correr deixa de ser fugir, e começa a ser um regresso. Ao meu corpo, ao que era, ao tempo para mim. A mim. Mim. Mim, mãe, meu, minha Maria. Mas esta volta é só minha e esta passada sabe-me a libertação. Em chamas, o corpo aos gritos, em busca de uma meta. Minha, única e pessoal. E de repente o que começou com uma partida, largada e fugida, é um simples regresso.

Ser mãe é o momento mais altruísta da vida de uma mulher (o mesmo será equivalente para um homem) porque é o verdadeiro escolher outro em detrimento de si. Quero muito pintar unhas. Mas tenho de trabalhar e quando não estou a trabalhar estou a cuidar do bebé, ou a dar banho à criança, ou a ajudá-la nos trabalhos de casa, ou a tratar da casa para haver roupa, comida e outros confortos básicos. E o tempo não chega para arranjar as unhas, o cabelo, correr, ler, e outros ócios. O tempo não chega. Vai chegando. Como quem sai para uma corrida e tem de voltar. Voltar.