F de férias

Ser o filho do patrão é do pior que há. Nem se é o patrão, nem se é colaborador. É aquela posição que não tem a maior responsabilidade, nem tem o descanso. Nem o maior nem o menor ganho. Se algo ameaça correr mal assombra a culpa… é muito pior que a responsabilidade. E se corre bem é espetacular ficamos muito felizes. Que tenhamos feito um bom trabalho e que possamos ajudar a família. Fomos bons trabalhadores. Mas o ganho não é exatamente nosso. É dos nossos e de todos nós. O coletivo.

Enfim, acho que só me entende quem esteve ou está na situação. Porque pior de tudo são mesmo as férias. Um patrão tem férias quando quer. E nunca recusa trabalho, ou seja, se houver trabalho quando tira férias, paciência, nem reclama, está lá. O filho do patrão tira férias mais ou menos como tiram os colaboradores. E tem uma ou outra benesse do patrão. Mas quando o trabalho vem, lá está, há que trabalhar.

E às vezes é uma posição que acaba por acontecer. Não é exatamente planeada, nem seguramente evitada. Mas vem, instala-se e depois não há muito a fazer. Diz-se então por aí que a primeira geração constrói, a segunda mantém e a terceira destrói. Já estou seguramente na segunda geração, mas gostava de acreditar que posso participar na construção e não apenas na manutenção. Defeitos de profissão de arquiteta… Mas dá trabalho. Muito trabalho…

E as férias… Lá se encaixam como se podem. E mesmo quando alguma coisa sobra para estes dias sempre pensamos ‘Pelo menos estamos de férias’, mesmo enquanto tratamos de trabalho.

Confissões

Olá, eu sou a Íria e tenho ataques de pânico. Coro imaginário, ‘Olá Íria!’

O primeiro passo é a aceitação, diz-se. E geralmente é o primeiro passo em todos os sistemas e propostas de grupos de auto-ajuda. Portanto é nele que me encontro. Quer dizer, sim, confesso que sou uma pessoa nervosa por natureza, e às vezes giro alguns assuntos de uma forma mais ansiosa que algumas pessoas. No entanto gosto de pensar em mim como uma pessoa equilibrada (assim naquela área que é o ‘geral’).

Os gupos existem por uma razão. Para nos sentirmos integrados. Precisamos disso. E os grupos de auto e inter-ajuda estão lá para não nos sentirmos sozinhos. E enquanto temos sensações no nosso corpo que nos convencemos que só nós sentimos, sentimo-nos, entre outras coisas, angustiados. Assim, ouvir a chamada ‘desgraça alheia’ torna-se um momento de alívio, não exatamente de felicidade pelo desconforto do outro, mas de sensação de que não estamos sós no mundo, mais alguém, sente vive e respira de forma semelhante à nossa.

Quando inaugurei este blogue na minha vida, tinha a minha filha quase 3 meses. Estava num sufoco. Passei uma gravidez calmíssima, feliz, leve (apesar dos 20 kg que engordei), fresca (apesar de não aguentar o calor de Junho, Julho e Agosto) e fofa. Começar a partilhar foi delicioso, receber comentários, ler outros blogues, conhecer pessoas que diziam ‘força aí!’ ou ‘Eu também!’ foi uma lufada de ar fresco. A ideia não era mostrar fotos da minha filha para o ‘Ai que linda!’ era simplesmente partilhar, mais um blogue de recém-mamã, como tantos outros blogues de outras mamãs na blogosfera a partilhar. E ser ‘mais uma’ pela primeira vez na minha vida soube-me imensamente bem.

Nesta coisa dos ataques de pânico foi um pouco assim. Não estou em nenhum grupo. Mas de repente em vez de ter vergonha escolhi desabafar com alguém. E esse alguém disse-me, ‘Sim eu também já tive. Os meus eram assim…’ E surpreendida com a resposta acabei por desabafar com outra pessoa que me disse ‘Ui, agora estou muito melhor, mas tive dois anos que foram do pior, a mim acontecia-me assado…’ E eu respirei. Em vez da sensação de garganta fechada os meus pulmões encheram-se livre e profundamente de ar e pensei, ‘Não sou a única. E isto não é uma loucura com exclusividade.’

E porque quando revelei os meus sintomas a estas pessoas o seu alívio não era chegar à parte final da estória para largar a bomba ‘então, afinal não era nada?’ Pois, é que para quem sente ataques de pânico, ‘afinal era tudo’. Foi a sensação que a vida nos fugia ali em 30 minutos. Ainda que a origem seja psicológica os sintomas são absolutamente reais e a sensação é de estarmos a ter verdadeiramente um ataque cardíaco, ou uma crise de asma profunda, ou a desmaiar, etc.

E sim, senti que a partilha me aliviou. Me acalmou e me fez pensar que mais gente no mundo, muito mais do que pensava, anda a tentar sobreviver psicologicamente a estas coisas. Que alívio sim. Da próxima vez que me sentir assim posso fechar os olhos e imaginar mais uma centena de pessoas a tentar controlar os seus sintomas. E lembrar-me ‘Ninguém morre de ataque de pânico.’ Apesar de ser essa a sensação…

Dores

‘Quando a cabeça não tem juízo/ O corpo é que paga’. Lembro-me de ouvir esta letra várias vezes e de achar a canção um bocado até sem graça. Foi preciso crescer, e sim, confesso, ver alguns grupos portugueses reinventar o cancioneiro de António Variações para me apaixonar pelas suas letras. Pela sua capacidade de síntese, por ser tão certeiro, pela sua pureza e até pelas melodias.

Tenho andado com imenso trabalho e privilegiando estar com a MR em casa trabalho o que consigo durante o dia e de noite vingo-me profundamente. Podia dizer-se que vivo como morcego, mas a verdade é que apesar de me deitar pelas 3 horas da manhã acabo por acordar na mesma pelas 7, vá 8 horas, num dia bom. E portanto não vivo como um morcego, a verdade é apenas que não durmo (muito).

Mas não é só isso… Bem sei que agora todos dirão, ‘oh, então o que é que querias?!’, mas mesmo assim arrisco contar. É que salto refeições. Não tenho tempo. A minha prioridade é ela. Depois o trabalho. Depois nós. Depois o Z e depois eu. E nunca sobra tempo para eu comer. Quer dizer, sobra vai sobrando e nessas sobras lá vou comendo…

E este fim de semana acordei cheia de dores abdominais… Dores que se foram intensificando loucamente apesar dos ben-u-ron’s e buscopan’s e todas as posições que me pudesse lembrar de adotar… Até que o inevitável aconteceu e tive de ir ao hospital, com suspeita de apendicite.

Depois de esperar muitas horas  para ser atendida e pensando em todo o tipo de coisas (porque é que me sinto tão vulnerável desde que a minha filha nasceu? Parece que carrego o mundo às costas e que todos os males esperam oportunidade de entrar!), lá fui atendida, carrega daqui, grita dali, raio-x e… voilá! Um túnel de ar acumulado e sem conseguir sair. Resultado, dores atrozes semelhantes a apendicite mas que eram resultado de algo, felizmente!, bem mais simples.

E lá vim para casa, o Z a rir e a citar Rei Leão, da Disney ‘Pumba, p’ra ti tudo é gás!’ Enfim, eu é que não achava muita graça que doía e bem… e pus-me a pensar se estaria a fazer algo errado… Talvez António Variações tenha razão e precise de ter mais cuidado… Ou o corpo é que paga.

Meditação

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Eu sei que o título promete. Mas o conteúdo é até bastante simples. É que a minha melhor forma de meditação é a ver televisão. E até rima, por isso deve ser um sinal…

É muito simples, quando eu ligo a televisão, desligo o cérebro. E isso é fantástico. Fantástico, sim, às vezes preciso de não me ouvir pensar só por um bocadinho, ficar a sentir… nada… Absolutamente nada, não pensar em 30 coisas em simultâneo, nem fazem 300 ligações a tudo e com tudo, nem pôr tudo à minha volta em caixas e em pastas. Só desligar. E não há como a caixinha mágica, como dizem os ingleses, para nos deixar neste estado.

E tenho esporadicamente umas séries ou programas que me interessam especialmente. Neste momento são elas ‘Uma família muito moderna’ e ‘The good wife’. Estou que não posso com ambas, choro e rio, é uma emoção. Parece que voo, que não estou cá, que estou num sonho acordada, não me esforço, não penso, é só um gozo, no sentido efetivo da palavra.

Em minha defesa, porque sabe-se lá porquê mas sinto que preciso de uma (deve ser de muito ver a ‘good wife’, uma série de advogados), as séries têm respetivamente, Christopher Lloyd como roteirista, escritor, produtor e co-criador, e Ridley Scott como realizador. O primeiro, para quem não se lembra, foi o ator que representava o Emmett ‘Doc’ Brown na saga ‘Regresso ao futuro’ e o segundo realizou filmes como ‘Alien’, ‘Blade Runner’ e ‘Thelma e Louise’. E pronto, com esta justificação já não me sinto num ímpeto tão fútil e superficial.

Mas defesas à parte, e provas dadas sobre a graça das séries e seus intervinientes, a verdade é que o dia em que estreia o novo episódio ‘The good wife’ é às quartas. E às quartas o dia é só meu. É sagrado. Ninguém vem, que não tem, nem quer, nem vai. A antecipação começa no dia anterior, vive-se dia ‘adentro’ e termina em beleza. O resto é contagem decrescente para a semana seguinte. A semana tem 7 dias e um deles é o meu. E esse dia é hoje. Beijinhos e ‘good night’. Não confundir com ‘wife’… 🙂

Maria Rita

Maria Rita

Quando a MR nasceu eu fiquei bastante em baixo. Tive uma gravidez fabulosa neste aspeto psicológico, sentia-me bem, invencível, sentia-me completa e capaz. Mas 2 dias depois de retirarem aquele serzinho delicioso, delicado, frágil, linda (como ela era linda desde o segundo em que nasceu!), comecei a ficar em baixo, em baixo, em baixo e acho que só agora me estou a recompor. Choros por tudo (e por nada), cheia de medos de tudo, dela, de mim, de nós. A incapacidade de cantar até ela ter uns 3/4 meses. A novidade de ter um bebé e ter de construir pais para ela… sei lá, não foi fácil.

A minha sogra diz que bom mesmo é ter bebés no fim do inverno, que assim que eles começama ter idade para sair à rua vem a primavera e é perfeito. Eu achava que a altura perfeita era a primavera ou o verão, mas confesso que já me rendi à sua versão. Acabamos por só sair com os bebés quando eles entram na fase dos 2/3 meses. Quem tem bebés na primavera chega a essa idade no pico do verão e dificilmente consegue estar na rua, de dia é o calor exagerado e de noite as melgas, etc. Quem tem bebés no pico do verão também não é melhor porque quando chega a essa altura entra a época das chuvas e o frio vai chegando. Nascimentos no outono também não é maravilhoso porque as primeiras saídas são à chuva e quando são horas de começar a sair à rua ainda é inverno. E assim chegamos à estação perfeita, o inverno. As primeiras saídas são um pouco mais chatas, mas os bebés gostam de estar aconchegadinhos com mantinhas e quentinho quando está frio lá fora. O que não gostam é do calor insuportável. E pronto, depois lá vem a primavera, os primeiros raios de sol a aquecer as tardes de Março e os dias de Abril e os bebés vão gozando o bom tempo que vai acompanhando o seu crescimento.

Com isto tudo dizia eu, que não conseguia cantar à minha filha. Fiquei em baixo. Tudo me deixava em pânico. Cantar entristecia-me. E ouvir música não era melhor. Não havia nada que não me deprimisse imensamente… E assim os primeiros tempos foram silenciosos. A única coisa que eu conseguia ver eram anúnicos a iogurtes, detergentes e shampôs. Às vezes uma ou outra série de tv muitíssimo superficial, mas se um avô vinnha visitar a família de fora, ou a filha mais velha acabava com o namorado eu sentia-me capaz de desatar num pranto. Talvez achem exagerado, mas enfim, foi um bocado assim que me senti.

Esta semana que passou, entre a Páscoa, o bom tempo e o mau tempo acabei por ficar com a caganita um bocado mais sozinha, por não podermos ter a companhia de quem estava de férias ou de quem estava de ressaca de constipações. Não sei se foi isso ou se foi o termo-nos todos constipado cá em casa também, ou ainda a velha desculpa dos dentinhos. A verdade é que a miudinha andava chatinha, irritada, sem paciência.

Desde adolescente que corto o meu cabelo. E tirando uma vez que a coisa correu menos bem, as outras todas tiveram resultado aprovado. No geral, sempre cortei o cabelo numa altura em que precisava de um corte. De cortar com algo, ou iniciar uma nova fase, ou encarar algo com uma nova perspetiva, percebem as metáforas? Enfim, sempre resultou muito bem. Pois a minha filha tem um cabelo imenso, farto e enorme (dada a sua idade) e achei que estávamos mesmo a precisar de um corte. E com este espírito peguei na tesoura de pontas redondas e vai disto, um corte atrás (onde o cabelo se enrolava nos fechos e botões da roupa) e dois corte um de cada lado, junto às orelhinhas (onde se enche sempre de sopa e papa…).

O nome da minha filha é uma homenagem à minha avó, Rita. Esta composição de Maria Rita surgiu-me quando ‘conheci’ a cantora, filha da Elis Regina, assim, de pele branquinha e cabelito aos caracóis, e pensei, ‘Esta mulher podia ser minha filha… Tivesse eu mais uns 20 anos, talvez.’

E de repente, aquele corte, aqueles três bocadinhos de cabelo a menos tornaram-na mais leve. Parecia que até o número de tesouradas era apropriado, um reforço da simbologia do número 3, o facto de sermos 3, não sei… A verdade é que olhámos uma para a outra, trouxe-a até à sala Peguei no CD duplo da Maria Rita em que ela canta a sua mãe, e fui direita à faixa ‘Romaria’. Selecionei o ‘repeat 1’ e ouvimos durante uma hora aquela música, trocando olhares cúmplices, mimos, brincadeiras e suspiros lânguidos. E naquele momento a nossa relação foi absolutamente recíproca. Não estávamos a ver o baby tv, nem a cantar ‘Lá na quinta do tio Manel’, nem a dar-lhe comer ou mudar uma fralda. Não estava a tentar entrar no mundo dela. Convidava-a a entrar no meu. Eu partilhava um profundo prazer pessoal com a milha filha. Romaria, pela voz de Maria Rita.

Este é um post sobre arquitetura

Trabalhar_com_Arquitectos_Frases

Esbarrei com esta reportagem há poucos dias, através de uma amiga. Não conhecia o fotógrafo, vi, revi e vi as suas outras reportagens. Parece que este fotógrafo tem muito que contar e vale a pena dar uma olhada. No seu caso há imagens que valem mesmo mais de 1000 palavras. E por isso acompanha as suas fotografias de explicações muito sucintas, deixando que a objetiva nos narre uma estória.

Aquela que me prendeu foi a ‘The Condo’, o condomínio privado ‘Bella Guarda’ em Vila Franca de Xira, inacabado por insolvência da construtora. Como tantos outros espaços abandonados pelo país fora este condomínio foi alvo de ocupação por pessoas que se viram sem outra hipótese nem saída. Os novos sem-abrigo têm abrigo. Vivem em condomínios de luxo, inacabados, sem portas nem janelas. Parece a triste canção do Vinícius de Moraes,

‘Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque pinico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na rua dos bobos
Número zero’

O próximo número da revista arqa (revista de arquitetura e arte) será dedicado às ruínas. As ruínas que já foram uma afirmação estética no romantismo agora povoam as cidades por falta de dinheiro e oportunidade para serem recuperadas. Quando estão livres do perigo de queda eminente são invariavelmente ocupadas por pessoas que se viram presas neste pior lado do sistema. Invariavelmente vemos estes espaços devolutos com os vãos violentamente fechados em tijolo e argamassa. Mas a novidade são estas ruínas da crise financeira, não são prédios devolutos, são construções inacabadas. Ninguém fecha os seus vãos com tijolo porque às vezes nem há paredes. Os vão são fechados com restos de madeira, lençóis ou pedaços de plástico pelos novos moradores, apenas para evitar que a chuva entre. Nas piscinas dos condomínios de luxo lava-se agora roupa. Estamos perante um novo tipo de ruína que é um bocado como a pescada, antes de o ser já o era.

Recentemente a Ordem dos Arquitetos lançou uma campanha incentivando o trabalho com arquitetos. A mensagem era simples e muito clara, ‘Olhe à sua volta. Ainda acha que não precisa de um arquiteto?’. E viram-se muitos cartazes fixados em espaços devolutos ou de baixo interesse arquitetónico, mas não vi imagens desses cartazes nestes edifícios. E a pergunta é pertinente, ‘Ainda acha que não precisa de um arquiteto?’

Claro que estes prédios em esqueleto, qual imagem de uma população subnutrida, os seus ocupantes à margem do sistema, não são, não estão dependentes de 1 nem 1000 arquitetos que os salvem. Mas provavelmente será altura de reunir autarquias, sociólogos, psicólogos, antropólogos, mecenas e arquitetos e discutir o que fazer com estes espaços. Saiu no público uma reportagem que anunciava que as casas vazias em toda a Europa facilmente poderiam ‘albergar todos os sem-abrigo do continente’. Num episódio do programa de carros britânico ‘Top Gear’ houve um episódio em que os testes dos carros decorreram numa cidade, em Espanha, fantasma. Era uma cidade inteira construída, cheia de casas terminadas, com direito a aeroporto e tudo, completamente deserta. Nunca antes habitada. O cenário fica mais frio que o dos filmes western, não se trata de uma cidade abandonada, trata-se de um espaço à escala de uma cidade que foi pensado, desenhado, planeado e construído para uma população que nunca chegou a aparecer.

O novo conceito de ruína antecede a vida do edifício. É um nado-morto. Uma tristeza, uma infelicidade. A ruína é agora o edifício em esqueleto, como o condomínio em Vila Franca de Xira. Não podemos dizer que não se podia prever, mas seguramente construtores falidos e ocupantes destes espaços sem condições foram surpreendidos e ficaram presos neste lado negro do sistema. Uns mais que outros, seguramente. Mas agora que aqui estamos urge pensar, o que fazemos? O que fazer com isto? ‘Olhe à sua volta’