Domingos

Há quem os ame e quem os odeie. Sendo sábado o dia de limpezas e arrumações o domingo ganha a beleza do dia da planificação da semana que se avizinha. Tem ainda o lado do descanso (o possível com uma criancinha de 2 anos), do passar tempo delicioso em família, mas nestes dias chuvosos ganha ainda mais sentido uma das minhas tarefas de domingo favoritas: ver livros e revistas de receitas para planear os jantares da semana.

E sim, é bem verdade que na net há de tudo, também podia ver receitas num lindo site (há tantos tão bons) mas é mais uma coisa de dias de semana. Mas os livros, o papel tem qualquer coisa de especial. Estamos mais próximos da comida numa fotografia impressa, até o papel tem cheiro, às vezes, as revistas até já têm uma nódoas da última receita é isso torna a pesquisa muito mais vivida. Ao domingo pego nas revistas e fico a folhear enquanto planeio compras, imagino os sabores da próxima 3a ou 5a, e é como se estivesse a planear os prazeres da semana através da comida.

A semana ganha de repente uma aura de sessões de paladares experimentais e sedutoras em vez da carga negativa ‘lá vem segunda’. Nós os latinos temos esta ligação às pessoas através da comida, esta coisa de nutrirmos os nossos afetos, literalmente.

O que de melhor têm as mudanças de estação é a novidade da utilização das roupas adequadas e das receitas apropriadas. Mas de todas as épocas do ano, o outono é aquela em que dá mais prazer cozinhar, comer e pensar em comida. É a natureza a preparar-nos para o frio do inverno… Venham os marmelos, castanhas, diospiros, e esta semana temos espaguete com frango na panela (uma receita de pasta-in-a-pot levado pelas comunidades italianas estabelecidas nos EUA e é o exemplo perfeito de confort food). É tal e qual assim como o título:

ingredientes (serve 4):

.esparguete para 4

.2 peitos de frango

.1 chávena de tomates cherry

.2 chávenas de cogumelos frescos laminados

.2 chávenas  de folhas de espinafres

.azeitonas sem caroço a gosto

.pinhões a gosto

.orégãos a gosto

.sal e pimenta q.b.

Preparação:

Colocar todos os ingredientes, exceto os pinhões e os orégãos, numa panela com tamanho suficiente, partir o esparguete ao meio se desejar. Deitar água até cobrir e tapar. Levar a lume médio até todos os ingredientes estarem cozinhados (deitar mais água durante a cozedura se a massa ameaçar pegar no fundo, ou baixar o lume). Servir e deitar pinhões e orégãos a gosto. ❤️ Boa semana!

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Ainda me habituo…

Pronto, andamos a gostar tanto de descobrir que temos coisas que gostamos de fazer individualmente e a dois, para além de ‘a três’, claro, que voltámos a passar uma noite sem a miúda. Bom, uma breve introdução. Eu adoro, e nós adoramos estar em família. Estar a três. E estar com outros membros da família, com amigos, etc. Mas agora muito recentemente andamos a (re)descobrir o prazer de fazer coisas sozinhos. Temos hipótese de explorar coisas que gostamos, nas quais temos interesse. E por isso a MR foi passar uma segunda noite a casa dos avós 🙂

Passámos um dia calmo, basicamente não fazendo grande coisa, simplesmente desfrutando de um dia de férias sem planos. À noite fomos jantar a um sítio maravilhoso, conversámos imenso e parecíamos dois adolescentes que não conseguem adormecer com tanto para contar. De manhã o Z. foi correr, anda a preparar-se para a meia maratona do próximo fim de semana, e eu fiquei na ronha na cama até ganhar coragem para me levantar. Quando finalmente saí dos lençóis eram 10.30h!!!! 😮 E estava sozinha em casa.

Olhei pela janela e estava a chover. Fui buscar um robe, sou daquelas pessoas que sente frio quando está a chover, e sentei-me no sofá. Pela primeira em pelo menos 2 anos estou sozinha em casa, sem estar doente, nem ter de trabalhar, está tudo bem, o Z. foi correr, a MR está com os avós e eu estou sozinha :)))

Peguei no telefone, na chávena de leite com chocolate, sentei-me no sofá e liguei à minha mais-que -tudo, a madrinha da minha filha, que está a viver em Londres. ‘Querida, é sábado, estou sozinha, está tudo bem! Tenho a bebida, a chuva e a amiga! ‘Bora conversar só nós?’ 😊 E conversámos, matámos saudades, pusemos novidades em dia, por pouco estávamos mesmo ao lado uma da outra. Há poucas coisas que goste mais de fazer do que ter uma prazerosa conversa num dia de chuva. Enche-me profundamente a alma sobretudo se for a companhia certa ❤️

Foi uma sensação maravilhosa acerca de quase dois dias sem MR muito rejuvenescedores. A madrinha da MR ainda brincava ‘Bem, vais ter de fazer isso todos os fim de semana, não?’, não, não teria coragem! Mas assim, uma vez de 2 em 2 meses, isso de certeza 😊 Até a semana seguinte corre com menos incidentes e maior disponibilidade 👍 acho que já me estou a habituar…

Partilhas

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As pessoas ficam em choque quando descrevemos a forma como partilhamos dinheiro e bens. Bom, na verdade não temos muitos bens, nem muito dinheiro, mas temos muita esperança e muitos sonhos. Às vezes até nos esquecemos que há quem não partilhe assim. E por isso quando o referimos e alguém reage lá nos recordamos que somos diferentes.

É que não temos contas pessoais. Quer dizer, por acaso até temos, mas temos total uso das contas um do outro. La alguém abre a boca, ‘Mas como separam o dinheiro conjunto do individual?’ ‘Não separamos’, respondemos nós. ‘Ah! E como poupam?’ ‘Como assim?! Poupamos como toda a gente, aquilo que conseguimos poupar, só que vai para uma conta conjunta.’ Faz-se uma pausa para todos absorverem a notícia enquanto imaginam as suas vidas assim. Vê-se desconforto na expressão de alguns. ‘Isso não é justo para quem ganha mais.’, la alguém tem coragem de desabafar. ‘Bom, nós não pensamos assim. Achamos que a nossa vida é uma conquista a dois, ainda que sejamos pessoas individuais, acreditamos que a partilha é algo melhor do que somas de conquistas individuais.’

Não sei se as pessoas se convencem com esta explicação, mas entre isso e achar que não vale a pena discutir com loucos lá se esfumam os comentários perguntas. Repare-se, não digo que a minha versão seja melhor que a de ninguém. Mas é sem dúvida a minha, neste caso, a nossa. E por isso claro que a defendo.

E até explico melhor. É porque não seria capaz. Capaz de me relacionar com alguém tão intimamente ao ponto de vivermos juntos e não partilharmos uma coisa tão básica, momentânea e contextual como o dinheiro. Virtual, ainda por cima. Um papel ao qual foi atribuído um valor através do qual obtemos coisas. Essas sim verdadeiramente importantes porque nos permitem Gerir a nossa vida física. E ainda que importantes essas nem são as mais importantes. Porque essas nem são coisas. São afetos, pessoas. Estas sim temos de ter muito cuidado na escolha da pessoa com quem as partilhamos. Mas se chegamos a este ultimo patamar como podemos não ter ainda aberto as portas ao primeiro? É só isto, para mim não me faz sentido.

Mas, para mim há mais. Não querendo dizer que a minha é a versão correta estou ainda hoje à espera que me dêem uma razão plausível e não mesquinha do porquê manter as contas separadas. Todas as frases que se possam inventar vão parar ao meu, teu, menos, mais, melhor, pior. E como princípio não gosto muito de os usar.

Novamente, não digo que a minha versão seja a melhor. Ou sequer que eu tenha a relação perfeita. Ui, muitos posts podia e hei de escrever sobre isso. Mas defendo aquilo em que acredito. E como diz o padrinho da minha filha, ‘é só dinheiro, não é nada importante.’

Baixar as espectativas

Não é novo. É um assunto novo nestes últimos 70 anos, mas tem vindo a ser mais e mais explorado. Eu já falei disso noutros posts, já toda a gente referiu isso pelo menos uma vez à hora de jantar ou quando chega à cama. A Sónia Morais Santos escreveu um livro sobre culpa maternal. É difícil ser pai e mãe. Como dizem os ingleses, ‘parent’. É difícil, mas tem sido daquelas coisas em que o passar do tempo de experiência da humanidade não tem ajudado. Parece que piora até, se é que isso é possível.

Porque agora o instinto não chega. Há imensas ponderáveis. Há 800 manuais (pelo menos) sobre o assunto e mesmo assim também estes não chegam. Levamos o bebé ao pediatra todos os meses, comunicamos ao pediatra todas as pontinhas de febre que os nossos filhos têm. E isso parece que também não chega.

Não chega para nos sossegar. Para que não entremos no domínio da insanidade. Até parece que alimentam tudo isso. E não me interpretem mal, não estou nem contra o sistema, nem a desdenhar todas estas coisas, estou assim como que a escreve-las todas juntas, assim para avaliar significados, sei lá. Como todos os outros pais eu também só procuro a paz de espírito, a luz.

E nesta busca incessante de batimentos cardíacos mais suaves descobri Jennifer Senior, escreveu um livro sobre o qual fiquei muito curiosa, e deu um TED Talk sobre o dito. A palestra chama-se ‘For parents happiness is a very high bar’. Para os pais a felicidade é uma barra pesada. E é mesmo. Ficamos tão concentrados em deixar os nossos filhos felizes que não percebemos que estamos a enterrar-nos numa angústia que arrasta todo o agregado familiar. Entramos em crise. Porque quando pensamos na felicidade dos filhos essa é quase uma coisa abstracta.

Eu explico o meu ponto de vista, e reforço, não me interpretem mal, felizmente a história alterou o lugar que as crianças ocupavam no mundo. Eram pequenos adultos que sabiam menos, estragavam mais, chateavam e traziam algum dinheiro/comida para casa. Hoje têm direitos, têm a nossa atenção, têm o nosso dinheiro, o nosso amor e a protecção de toda a sociedade. Ótimo! Espetacular, nada contra.

Mas de facto este estado de espírito é novo na história da humanidade. Tão novo que temos de lidar com as novas consequências que vêm com ele. E as novas consequências são depressão, ansiedade, crise. Crise conjugal, familiar, social. Eu quando engravidei decidi que queria ficar em casa com a minha filha até aos seus 3 anos. E, claro que continuaria a trabalhar. A partir de casa. E ia ter 3 filhos e ficar com cada um 3 anos em casa, cada um teria a diferença de 2 anos e meio e seria tudo perfeito. Só eu é que não fui capaz. comecei a chorar depois da MR nascer e ainda não parei. Desde sentimento de culpa por não conseguir trabalhar tudo o que precisava e de me sentir falhada profissionalmente, a sentir-me desamada e incapaz de amar neste coisa nova que éramos nós os dois pais de alguém, até me sentir péssima mãe por me sentir a precisar de espaço pessoal e desejar até deixá-la num infantário.

Como é que eu podia falhar naquilo que a humanidade faz desde que existimos? A coisa mais fácil de sempre, supostamente, porque todos os seres vivos têm uma. Ser mãe. E realmente anos e anos de humanidade não nos prepararam para isto. Ser mãe, ser pai, ser trabalhador, marido e mulher, amigo, familiar, tudo ao mesmo tempo. Temos de ser capazes de fazer cada vez mais e melhor. E o pior de tudo é que os anúncios televisivos, os livros de auto-ajuda, as estórias de vida inspiradoras, tudo nos encaminha para a ideia de que para sermos só precisamos querer muito e trabalhar em igual medida. E não é. Não é só uma questão de trabalho, vontade e inspiração divina. A vida é feita também de coincidências, de circunstâncias, de boa e de má sorte. E não faz sentido que nos sintamos responsabilizados por tudo o que nos acontece, por todas as nossas conquistas atingidas ou sonhos por alcançar.

E só isto descansa. Não é baixar braços nem armas, nem desistir. é relativizar. Acreditar que damos o melhor que podemos, a nós aos nossos pais, aos nossos filhos, aos nossos amigos. Que temos a capacidade de nos corrigir sempre e de melhorar, mas de descontrair. Acreditando que não temos controlo de tudo. Muito menos da felicidade dos nossos filhos. Podemos tratá-los bem, dar-lhes amor, escolher as melhores escolas para eles, tratar da sua alimentação o melhor que sabemos. E esperar, como diz Jennifer Senior, que a felicidade chegue por estes caminhos.

Para eles, por eles. E para nós. Por nós.

Comer

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Sugeriram-nos que a MR poderia comer melhor vendo-nos comer e se tornássemos a refeição um verdadeiro momento familiar, com ritmos, posições e ações conjuntas. A verdade é que durante as férias, a partilhar um espaço com mais 6 pessoas acabavámos por conseguir fazer isto mesmo inadvertidamente. Alguém estava invariavelmente a comer nas horas das refeições da MR.

E estando a dita quase nos seus 12 mesinhos de idade resolvi descontrair um bocadinho mais e oferecer-lhe outros sabores desconhecidos vindos diretamente do nosso prato. A cachopa adorou. Ficou doida a tentar comer o pedacinho de coisinha que lhe dávamos até morder o nosso dedo. Bom, não comeu muito mais, porque nisto come um pouco menos de sopa e acaba por petiscar umas coisinhas nossas mas também não em grande quantidade, mas enfim, pelo menos não come a sopa ao nosso colo e a passear pela casa toda enquanto derruba livros e abre todas as caixinhas, etc. Fica connosco à mesa do início ao fim da refeição.

De modo que quando chegámos de férias resolvi experimentar. Sentámo-nos à mesa e jantámos todos. Ela comeu pão, sopa só foi meia, bebeu sumo de ameixa e mordiscou quase uma pêra inteira. E aguentou-se o tempo quase todo à mesa. No final lá chorou um bocadinho e lá fomos deitá-la. Voltámos, já tínhamos jantado, eu fiz uma máquina de roupa, o Z. pôs a loiça na máquina, preparei um café e olhei para as horas… 21.30h 😮 AHH!! O quê?!? Quando finalmente acabamos o ‘dia’ são 23h e estamos tão exaustos que nem loiça nem roupa na máquina, fica tudo a marinar até ao desespero do dia seguinte e salve-se quem puder… De repente olhamos para o relógio e pensamos que descobrimos a pólvora. E o sábio que nos aconselhou sabia do que falava. Se não come muito mais nós vivemos muito melhor. Todos, em paz e harmonia… 🙂

Humor [e amor] de mãe

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Estou a ler o livro da Inês Teotónio Pereira ‘Humor de mãe’, um série de pequenos textos na ordem do dia com uma visão e opinião muito fortes sobre Igreja e política e um olhar divertidíssimo sobre esta coisa de ser pai e ser filho. Tem um blogue que é o máximo, escreve no jornal i e é uma mulher culta, inteligente e mordaz. Acredita que os filhos não são só uma coisa linda que aconteceu aos pais, são uma bênção e um pesadelo e que os pais são a salvação e o maior obstáculo na vida dos filhos. Quando comecei a ler este livro que a mãe da madrinha da minha filha me ofereceu (talvez sentisse que eu estava a precisar de sacudir o pó a alguns sentimentos desnecessários) estava um pouco céptica. Tenho-me deliciado, comecei a ser seguidora do seu blogue e sinto que por cada capítulo que leio me apetecia escrever um post dando a minha visão da coisa. Uma revelação e uma lufada de ar fresco realmente.

Houve um capítulo que me deixou especialmente a pensar, porque me revi imensamente nele e não resisto transcrevê-lo aqui, pelo menos o seu início:

‘O pior que pode acontecer a uma criança é ter pai que querem o melhor para ela. O fatídico ‘Eu só quero o melhor para ele’ é uma tragédia. A criança está tramada, antes de ser gente já carrega um fardo às costas: tudo aquilo que os pais acham que é melhor para ela. Como se os pais soubessem alguma coisa do assunto.

Mas é melhor como? A comparar com quê? Melhor para quê? Melhor para quê? Com que objectivo? O melhor é a coisa mais relativa do mundo e no que diz respeito à educação é aquilo que os pais gostavam de ter sido ou de ter tido e não conseguiram ser nem conseguiram ter: são meras aspirações pessoais frustradas.

E o pior é que a partir deste ‘melhor’ tudo é justificável, tudo é aceitável(…).’

Até me arrepiei. Li umas 3 vezes… Sim, eu sou uma mãe que só quer o ‘melhor’ para a filha. Este melhor é aquilo que nós temos de ‘mais’ para dar. É o nosso tudo, é o nosso só-não-dou-mais-porque-não-tenho. E se isso é um lindo presente envenenado? Tipo aqueles chupa-chupas deliciosos que lá dentro têm recheio, e neste caso o recheio estraga tudo?

Olho agora para ela, um Nenuco um bocadinho maior, e penso se ela carrega este trauma de gerações seguidas de frustração, eu-não-tive-o-melhor-mas-tu-vais-ter. Sim, é inevitável. Mesmo quem não o diz só consegue dar o seu melhor aos filhos. Um bocado como quando se estuda para um exame. Importante é estudar tudo o que sabemos e esforçarmo-nos por sermos o mais completos possível no dia da prova. E se o fizermos mesmo que o resultado não seja fantástico vamos sentir que temos dever cumprido.

E um dia quando os nossos filhos olharem para trás e perguntarem porque raio tomámos determinadas opções espero que encontrem conforto na ideia de termos dado o nosso melhor. Não o melhor para eles, claro, mas o melhor para nós. Como nós encontramos nisso o conforto para entender os nossos pais e avós.