Ciclos

Parece que há movimentos coletivos contagiantes. Toda a gente vai à praia e piscina na mesma altura, e às viagens na neve, e os miúdos ficam doentes todos na mesma altura. E agora nos blogues das mamãs é só fotografias de lenços e xaropes, tudo com miúdos de pingo no nariz, febre e tosse.

As outras fotos que se têm visto muito a acompanhar estas estórias são as caras de zombies dos pais e mães que vigiam estas crianças de noite e de dia, a limpar narizes, enxugar lágrimas de dores e fazer correr litros de soro…

Aqui estou eu no mesmo estado. Sinto-me ko, entre o cansada pelas noites muito mal dormidas, exausta por todas as tarefas diárias, dorida de os ver doentes. Foi uma semana com ela a fazer febre e no momento que estava a melhorar começou ele… eu acho tenho a certeza que eles fazem de propósito para terem acesso aos meus cuidados em exclusivo. A minha (rica) madrinha tem ficado com os miúdos da parte da tarde, momento em que consigo escapulir-me até à empresa e pôr umas quantas coisas em dia…

Esta versão de ter apenas 3 ou 4horas do meu dia disponíveis deixa-me absolutamente desorganizado e dispersa. Parece que tenho partes de mim espalhadas pela casa, custa-me organizar o meu pensamento e o meu discurso e quando estou a tentar pôr de pé uma ideia as palavras custam a chegar e pôr-se claras…

É preciso ter-me. Ouvir-me. Ouvir silêncio. Ou olhar para a paisagem e por momentos não pensar em nada. Quando não tenho este espaço não me tenho… nestes períodos fico em compasso de espera. Por isso me sinto dispersa. Melhores tempos virão.😳🙄😘

Anúncios

Meus Meninos

Aos meus meninos, minha menina, minha rica, meu menino, meu tesouro, meu valente. Toda a gente diz que eu vou ter saudades desta fase, por mais cansada que me sinta agora. E eu estou cansada. Vocês são tão lindos e tão pequeninos e eu olho para as vossas mãozinhas com genuína vontade de vos prender em mim, nesta imagem para sempre. Para sempre assim.
Assim numa tristeza melancólica de nostalgia antecipada consciente. Nada de preocupante, só um querer desfrutar-vos ao mesmo tempo que queria tirar uns dias só para mim. Serão sentimentos opostos?
Diz que daqui para a frente dá mais chatice, mais trabalhos. Não sei. Não poderia saber.
Só sei que olho para vocês e nos vossos olhos vejo o mundo. Tenho medo sim. Tremo de medo pelo vosso futuro. Pela Terra que vão herdar, pela saúde que vos espera, pelas pessoas que vos vão rodear. Mas nesses olhos eu sei. Sei que vai tudo correr bem. Que estou convosco para sempre. Sei que nunca nos vamos separar porque vocês são eternos em mim.
Hoje vi-vos de mãos dadas. Só me apeteceu gravar-vos. E foi o que fiz. Gravo-vos no meu coração a cada segundo para ter coragem de deixar os segundos passar por nós.
É preciso ter coragem para vos deixar crescer.
Meus alimentos de vida, flores da minha alma ❤ ❤

Dentinho

Meu tesouro mais crescido começou a abanar um dentinho. No dia a seguir na escola, caiu.

Foi assim com choque e incredibilidade que assisti à perda do primeiro dente de leite da minha filha de 5 anos. Ela chorava assustada e eu chorava emocionada …. estupidamente (ou não) só pensava ‘ela já não é um bebé ‘… enfim, mania das mães em quererem que os bebés cresçam e depois ficarem muito saudosas do tempo em que mudavam fraldas. Ora, eu sempre disse que saudades do passado não teria. Mas também disse que ia ter 3 filhos e aqui me vejo a terminar esta produção nos 2…

É bom ter mais do que um filho. Quando o mais velho se autonomiza sempre podemos dar um saltinho ao ‘ainda não está mesmo a acontecer’ com o(s) mais novo(s). A minha filha está a perder os dentinhos de leite. Nessa semana não cortei o cabelo ao miúdo, com 23 meses, só para ele ficar com aquele ar de bebezão mais um bocadinho…

A propósito de dentes a miúda pediu à farinha dos dentes a módica quantia de uma moeda de ouro…. um bocadinho acima dos nossos planos, digamos, mas depois de termos celebrado o momento com um euro, lá me deu para nostalgias. Lembrei-me do colarzinho de ouro que a minha avó mandou fazer com o meu dentinho de leite 😊 prometi o mesmo ao dentinho da minha filha e pensei que um objeto e ato sem grande importância era a coisa mais bonita que as famílias podem ter. Na repetição dos gestos recordamos e mantemos pessoas vivas, mesmo quando já não estão. Sorri e emocionei-me com todos estes passos. Filha és mãe serás, diz a namorada do meu irmão. E é isto. De repente, já tenho memória de todas as coisas que vivi com os meus pais e avós, na altura em que a minha filha os está a viver. É como uma vertigem. Da borboletas na barriga, é doce e às vezes é amargo.

Mas de tudo o que já vivi até aqui só posso sentir, este é o sentido da vida. Eu estou aqui e repito os gestos, os afetos e as palavras de todos os que me trouxeram até este lugar. E enquanto olho para ela e penso no olhar da minha mãe quando eu brincava, ou nos gestos da minha avó, penso que um dia a minha filha vai sentir esta imensidão, pelos seus próprios olhos, com os seus filhos ❤️❤️❤️❤️

(Não) dorme

O que ele demora… sei lá eu porquê. Não quer adormecer de maneira nenhuma. Quer dizer, na verdade ele adormece, 1 a 2 horas depois, acaba por cair para o lado.

É uma fase. Digo eu. Digo-o aos outros. Digo-o a mim. Os meus filhos parece que estão sempre numa fase, infelizmente quando me estou a habituar a ela, eles passam à próxima, sem aviso, nem licença, nem almofada. O V. teve uns meses a acordar a meio da noite. Adormecia pelas 21h, acordava pelas 4h e só adormecia pelas 6/6.30h. Era um suplício. Nós andávamos que parecíamos zombies, estava irritada, tensa, e quanto mais aquilo acontecia mais ganhava terreno para voltar a acontecer.

Acabei por dar a volta a essa fase atrasando a hora de deitar. Comecei a deitá-lo pelas 22/23h… eu sei que é tarde, mas a verdade é que eu adormecia com ele e acordava 7/8h depois, fresquinha. Isto tudo pareceu boa ideia, pelo menos para recuperar somos perdidos. No entanto rapidamente esta fase começou a ser muito cansativa. O Vicente começou a recusar-se a adormecer antes. Eventualmente ela adormecia, mas ele não. Nós não nos podíamos sentar no sofá a ver um filme ou série, ou ler, ou ver tv. Nada. Rapidamente comecei a ficar profundamente desorganizada. A esquecer-me de tudo. A desconectar-me.

Estamos portanto na fase de re-adaptação destas duas. Tentamos adormecer o V. até às 22h para termos pelo menos 1h de o que nos for na alma. Mas não está fácil, e se há dias em que adormece por essa hora, também há aqueles em que às 23.30h ainda está a palrar.

Sei que há técnicas. Sugestões, até. Mas cada criança é única e especial à sua maneira e não há como fazer o mesmo que a vizinha, ‘bater as palmas e dizer faz o-o’ ou ‘contar a história e apagar a luz’.

Nós os dois mal falamos. Não da para nada, mal nos vemos. Ele chega, os miúdos estão a jantar, vão lavar os dentes e dormir e começa a fita do costume. A maior parte das coisas que temos para discussão resolvemos durante o dia por e-mail ou WhatsApp. Ficamos meio perdidos, sem saber sequer onde nos encontrar.

Resiliência. O meu marido sempre adorou esta palavra é usa-a como descrição da sua postura. É disto que se trata quando se trata da parentalidade. Há que ser resiliente. Como uma rocha. Que está lá, que é firme, mas também um ponto de referência, de abrigo. Aqui estou resiliente. Entre a sensação de descontrolo à de desconectada, vou palpando terreno. Se não conseguir convencê-lo a bem, posso sempre acreditar que lá para os seus 18 isto não será um problema de certeza. E recuso-me imaginar quais estarão na ordem do dia…

❤️❤️❤️❤️

Medo

Medo de ter medo. Medo de ficar parada. Medo de morrer. Morrer de medo. Se esta última fosse possível já não estava cá há muito tempo.

Porque é que as pessoas são ansiosas? De onde vem o medo? De onde vem a paranóia, aquele medo louco de tudo à nossa volta. Até onde chegamos com esse medo contraproducente? O que querem as pessoas que têm medo?

Tenho medo porque quero ser longeva. Então desde que tenho filhos quero muito ser longeva. Quero ser velhinha para eles. Ser mãe e avó e bisavó já muito velhinha. E cozinhar para eles. Desenhar… desenhar espaços e projetos para eles e para mim. Quero sentir e dar amor, fazer festinhas e miminhos. Quero ser velhinha para me levarem a passear. Quero ser velhinha como a minha avó.

E choro. Sim, às vezes choro. Porque do medo de tanta coisa vem a certeza de que nunca chegarei lá. Num mundo onde as incertezas são tantas, onde tanto e tudo pode correr mal, fico com a certeza de que lá não chegarei. E não sei porque me convenço disto. Se é porque de verdade acredito numa adversidade ou se porque custa tanto viver neste pânico constante que a ideia de não perdurar a vida se torna um alívio.

Mas continuo a querer chegar lá. A esse quadro de mim velhinha com um grupo de gente capaz de me adorar e passível de ser adorado. E ando pela vida a evitar pisar aqui ou ir ali para potenciar a hipótese de lá chegar.

Diz-se que a longevidade tem um segredo que ninguém conhece. Seja a felicidade, a boa alimentação, a meditação, o ‘estar em paz’. Deve ser um bocadinho de tudo isso. Tudo isto é pólvora nas mãos de um ansioso, ‘nunca chegarei lá’, só pode ser a conclusão.

Numa altura em que a religião volta a ser prato do dia e em que as pessoas parecem virar-se para a fé de forma a ultrapassar ou gerir o conhecimento que têm dos males do mundo, tenho pesquisado sobre várias religiões. Dizem os budistas que a melhor forma de conseguir a paz é controlar o apego. Nada é teu por muito tempo e nada está no teu controlo. Então uma das formas de aceitação deste lema é imaginar que perdemos algo que gostamos ou prezamos muito. Seja uma casa, uma pessoa, uma jarra, a nossa vida. Devemos concentrar-nos em imaginar que um dia, qualquer, aquilo vai acabar. Consciencializamos isso, acreditamos nisso e até podemos ficar um pouco tristes. Depois, saímos desse estado e percebemos que aquilo ainda existe. Então é uma coisa boa, ainda está lá. A cada dia que aquilo lá estiver e continuar vai ser uma coisa boa, vamos agradecer e desfrutar daquilo. Quando um dia terminar sabemos que ia acontecer, portanto não lamentamos o evento, agradecemos o que pudemos viver para além disso.

Não é fácil. Sobretudo para um ocidental. Sobretudo para um ansioso. Mas talvez seja um primeiro caminho. Talvez seja uma forma de tentar.

Que formas usam para lidar com a ansiedade?…

❤️