É preciso uma pausa

Dizem que é preciso dormir. Ou saber aproveitar. Ou estar sem os miúdos. Sozinho ou a dois. Às vezes acho que o que me falta é estar. Só. Só estar e estar, só.

Então, há fases em que os miúdos não dormem. É duro como tudo. Ando à base de café, chego atrasada a todo o lado. É mau e dói. A cabeça não descansa, falo com as pessoas e sinto-me sempre mal lavada, despenteada, etc.

Há também as fases em que tudo corre de feição, claro. Adormecem cedo, ainda sobra 1 ou 2 horas ao dia, dormimos, trabalhamos, é tudo perfeito.

Depois há as outras fases. Aquelas em que eles até dormem. A coisa até corre toda bem. Mas à hora de deitar demoram a adormecer. Porque estão cansados demais, porque dormiram demais, porque nos estamos ansiosos, porque nos estamos entusiasmados, porque comeram, porque têm fome, porque não brincaram, porque brincaram. Tudo é uma boa desculpa para, sabe-se lá porquê, demorarem 1, 2 ou mais horas a adormecer. Sobretudo o mais novo…

Nestas fases vamos deita-los pelas 21h e ele(s) adormece(m) pelas 22.30h ou já quase 23h… é claro que nessa altura nós também caímos. Adormecemos exaustos daquela luta, daquele dia, de todos os outros dias, de nós, das refeições, das brincadeiras, do trabalho. Adormecemos. E não (nos) falamos, não nos sentamos no sofá, não vemos TV, não lemos, não fazemos pagamentos, não nada. Nestes dias não estamos. É tudo deles.

E quando o dia começa só da para orientar a roupa e a loiça, preparar os pequenos almoços e lanches, vestir e fazer as entregas nas escolas.quando chego a casa com eles ao fim do dia é: banhos, vestir, jantares, fazer comida e acormecê-los. Não da para mais nada.

E de dia não me lembro de nada. A sensação é a de que os dias estão a passar por mim a galope e eu não os acompanho. As pessoas falam comigo e eu não sei as datas. Estou em piloto automático. Não consigo pensar, respondo e depois penso na resposta. Penso que tenho de passar mais tempo com eles, na brincadeira. E tenho. Mas o que preciso mesmo é de estar, só. Sentada no sofá, desligada, acordada. Meditar, a ler um livro a pensar no dia que passou, a planear o próximo. A saborear o tempo que também se passa na minha cabeça.

Preciso de estar com eles, perto de mim, nesse conforto maternal e de segurança do lar, sem que eles estejam a ocupar todo o espaço. A noite é maravilhosos. As duas horas extra de sono deles são as duas horas do meu dia.

E quando não tenho isto, perdoem-me os aniversários que esqueço, os eventos que desmarquei, perdoem o facto de falar convosco através de vocês. Preciso outra vez de ser eu ❤️

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As voltas que os miúdos nos dão

Para começar escrevo isto às 3h da manhã. Sim, podia estar a dormir… mas não era a mesma coisa. Ultimamente tenho andado com os sonos todos trocados, fruto especialmente da diferença de ritmo circadiano dos meus filhos. Pois o mais novo é notívago versão mãe, a mais velha é madrugadora versão pai. Nós dormimos/descansamos no hiato entre o notívago e a madrugadora…

Ora com o aniversário do mais novo a aproximar-se, começam também os preparativos. Pois para este ano estava a ponderar uma festinha com o tema ‘woodland party’, num espírito semi-hipster em tons terra e pastel, com veadinhos, esquilos e ursinhos, numa onda assim:

Já andava a tratar dos convites, as setinhas de indicação, os cartazes, etc. No entanto, uma criança com 2 anos já tem alguns gostos bem definidos. E pela última paixão do meu filho, rapidamente percebi que o que ele queria era isto;

De modo que respirei fundo. Pensei no que é que podia fazer quanto a isto e decidi que ia deixá-lo feliz mesmo que para isso tivesse de ceder nalguns padrões dos meus conceitos estéticos. Espero que me perdoe ter atualizado o tema para algo mais classy, assim:

Quando é que as festas dos miúdos começaram a ser mais bonecos do que bolos? Talvez tenham demasiados bolos à sua disposição e pouco tempo para brincadeiras. Hoje festas dos miúdos é assim, 1,30h de brincadeira, 30 min para cantar os parabéns, comer uma fatia de um bolo que dá pena cortar e mais umas bolachinhas.

E o que é que eu vou fazer? Bom, para já uma festa para 2 anos com a cara e orelhas do Mickey em tudo o que é cantinho. No verão espera-me uma festa com princesas e unicórnios. Algo assim:

Depois desta pesquisa toda só posso mesmo concluir: Aí, ‘amanhã’ vai ser bonito.

Paranóia

Ser paranóico não é fácil. Para já exige um trabalho de pesquisa exímio. Depois exige uma imaginação imensamente fértil. Por exemplo, imaginem uma pessoa ansiosa que sai de casa e está nervosa, com uma sensação de ‘medo’. Racionalmente pensará ‘porquê?, que disparate!’ Ora uma pessoa paranóica vai encontrar uma razão e vai explorar os detalhes até ao mais ínfimo detalhe, tipo cinematograficamente.

Por exemplo, eu, que sou paranóica quando a minha filha nasceu comecei a achar que tinha de sair daquela casa porque consegui convencer-me que podíamos ser afetados por um tsunami… aquele tema dava para horas de entretenimento pois ficava a pensar em situações poderia sobreviver , qual o melhor sítio da casa por onde escapar, etc… Para vantagem (?) dos miúdos os acidentes cá em casa são minimizados pela minha capacidade de imaginar a potencialidade de cada objeto ou recanto. A sério, se quiserem proteger a casa para crianças chamem alguém paranóico que conseguirá seguramente antever qualquer acidente (im)possível.

Ontem tivemos uns amigos a jantar connosco, ela amiga de longa data, foi um matar de saudades sem fim. São ambos médicos e isso deixou-me uma sensação de conforto profunda. Sim, porque para além de paranóica sou profundamente hipocondríaca (que é a altura em que começam a ter pena do meu marido). E para hipocondríaco que se preze o jantar mais confortável de sempre é assim à porta do hospital… neste caso tinha o hospital em casa 😳😄

Pois acho que os meus filhos estavam imbuídos desse espírito e sentiram essa paz contagiante. Ficaram entretidos durante as 3/4horas do jantar sozinhos ali ao nosso lado, sem pedir nada, nem exigir, assim com toda a segurança e calma do mundo (apesar de terem desarrumado o espaço de brincadeiras de alto a baixo). Sem birras sem choros nem zangas.

Não há receitas na parentalidade. Mas há algumas regras transversais. E aqui é muito simples, quando os pais estão bem há partida os miúdos irão estar bem.

E não, nenhum dos médicos teve de intervir nessa noite.

❤️❤️❤️❤️

Dormir

Os bebés gostam de dormir. Gostam? Mas gostam mesmo? É que geralmente o que oiço é que os adulto, sobretudo pais de criancinhas adoram dormir. Sobretudo porque é algo que lhes falta.

Ora aqui em casa falta-nos. E bastante. E quando não é falta de dormir acaba por ser falta daquele bocadinho entre o jantar e o dormir, tão precioso, tão de ouro. Quase ou tão importante mesmo, como o dormir. Porque trabalhar e dormir é extenuante. Obrigada nova burguesia pela conquista do ócio com a chegada da industrialização e do Iluminismo… foi por aí.

Já o meu filho mais novo ainda está noutra fase histórica qualquer. Ou se calhar esta mesmo na sua conquista ao ócio acha que escola-casa-banhos-jantar-cama não lhe serve, portanto a este comboio acrescenta, festa-e-brincadeira das 21h às 23h….

Não adianta que eu apague todas as luzes da casa, que eu mostre a irmã a dormir, que eu adormeça no tapete sem forças, que o leve para o quarto, ou o leve o pai, para qualquer um dos quartos da casa. Ele não quer adormecer. Por isso simplesmente colapsa lá para as 23/24h…e depois, no geral dorme até às 6 ou 8h num dia ‘bom’. Tendo em conta que da para dormirmos de 6 a 8 horas, talvez até nem me possa queixar muito, mas na verdade o não ter oportunidade de ‘desligar’ acordada deixa-me (meio) louca.

É a meditação. A meditação é muito mais do que apenas cruzar as pernas e dizer ‘oom’ enquanto se esvazia a cabeça. A meditação é o ato de descontrair/limpar/esvaziar o cérebro enquanto se está acordado. Ora sem isso não nos conseguimos repor, por mais horas que durmamos. Por isso é que um fim de semana sem os meninos lindos, queridos, adorados, uma vez por outra sabe tão bem. Já para muitas horas de meditação num dia só. Não descansamos apenas por aquilo que não fazemos (correr atrás deles), mas por aquilo que fazemos, dedicar-nos a estar não estando.

Por agora estou em debate filosófico sobre o porquê desta fase do meu filho mais novo. É que são fases. Às vezes dorme 16h numa noite, outras vezes dorme 6h e parece não haver uma grande alteração no seu dia (fica mais irrequieto quando dorme mal). Aparentemente também não há razão para dormir pior, não é físico, nem fisiológico, nem se percebe bem o que é. Mas geralmente é relacional… é lá qualquer coisa que ele tem comigo, que tem fases que parece que ficamos os dois presos a estas noites mal dormidas. Ele que só quer mãe, não dorme nem deixa dormir, e eu que já vou para lá a pensar naquilo e até tomo uns valdispert antes de o adormecer (tão nervosa que já vou).

Hoje adormeceu pelas 22.45h. Já foi uma pequena vitória… fiquei tão feliz que até consegui escrever este post 😄

Descontrair. É um pouco uma situação auto-alimentada já que sinto que para descontrair preciso que ele durma e me deixe algum tempo livre diário, e ele sente que para adormecer precisa de mim descontraída e descansada. 🙄 decide-te filho, ou bem que dormes ou bem que me aturas com os nervos em franja………..

Dia demais

O último fim de semana de férias, era o tudo-por-tudo, últimos cartuchos, fazer os últimos desejos da lista, como deitar mais no domingo, era o prolongar das 3 semanas de férias.

Marcámos um dia intenso para sábado, para que domingo fosse um pouco mais soft, já que tínhamos de deitar os miúdos mais cedo a tempo de dormirem bem antes do primeiro dia de regresso aos infantários. O programa pretendia sobretudo fazer as delícias da mais velha e privilegiava os pais, já que o objetivo PRINCIPAL era vir para casa com os miúdos a dormir e ainda ter tempo para desfrutar um bocadinho de sofá.

Consistia então o programa de festas em visitar uma quinta pedagógica, ir à praia e terminar num repasto no IKEA, essa cadeia fantástica onde as famílias são privilegiadas e as crianças brincam à vontade sem que alguém grite ‘NÃO SE SENTEM NA CADEIRA’ ou ‘NÃO PISEM O TAPETE’, para desespero dos pais a correr atrás das criancinhas.

Começámos então pela quinta, o mais novo a ver animais pela primeira vez, entusiasmado a fazer os sons dos bichos e a chamar gatos aos porcos e a mais velha a treinar os nomes em inglês (é a minha tática para fazer a mesma brincadeira com os dois em simultâneo, o V de 18 meses faz os sons dos animais, por exemplo, e a MR de 4 anos aprende a sua tradução em inglês, ou diz qual a letra que inicia o nome do animal). Corremos uns 200 metros a dar comida às cabrinhas, porcos e galinhas (que atacaram a mão da MR que encarou aquilo como uma profunda ofensa e uma ganância desnecessária) e lá avançámos para o item seguinte, a praia.

Quando chegámos a estranheza do V era notável. A areia fria, húmida, um vento que trazia grãozinhos incómodos por todo o lado, muitos adultos sentados no chão. A MR instalou-se e rapidamente ficou à vontade, começou a fazer bolinhos e a personaliza-los para o pai e para a mãe a troco de conchinhas e pedrinhas. O V adaptou-se rapidamente à novidade e, qual peixe na água, comeu areia, atirou-se com roupa para dentro de água, rebolou tipo croquete, correu, foi feliz. E uma hora e qualquer coisa depois tivemos de vir embora.

😳 ui…

Quando pegámos no V ele guinchou um pouco até perceber que o caminho era destinado ao carro e não ao mar, aí abriu as goelas a plenos pulmões e desatou aos gritos. Daquela forma que envergonha todos os pais, e põe todos os que não são pais num julgamento entre o ‘não dão educação aos filhos’ e o ‘coitada da criança, sofre com aquela família que não a compreende’, enquanto isso agarrávamos em todas as roupas, toalhas e acessórios para sairmos dali. Acho que algumas pessoas olharam para nós e questionaram-se se estaríamos a raptar uma criança. Claro que a população com filhos NUNCA pensaria em tal coisa, saberia que não tínhamos qualquer interesse em fazê-lo com uma que gritava tão alto… acho que ele esteve para cair do meu colo umas 3 vezes, tanto que esperneou. Perante todos os olhares, ares condescendentes ou reprovadores, lá saímos dali, com o V aos gritos até ao carro, em direção ao restaurante…

Jantámos. Durante as férias decidi que pelo menos nas refeições ia poupar-me. Então apesar de ter dado SEMPRE sopa e fruta aos miúdos, aquilo que para mim é ‘os mínimos olímpicos’ da refeição, depois comiam exclusivamente o que gostavam. Isso foi basicamente frango, almôndegas, douradinhos e pão. Foi portanto mais uma refeição dedicada a estes bons exemplos alimentares e os miúdos já a descambar de sono.

Fizemos umas compras a correr, metemo-los no carro e dissemos cheios de esperança ‘chegamos a casa cedinho, eles já a dormir, ainda nos sentamos no sofá’. Mas não. Depois daquele dia exaustivo, cansativo, produtivo, os miúdos não nos fizeram a vontade e chegaram a casa acordados, a cantar e para adormecer ainda meteu muito beijinho, canções e embalo. Chegámos à cama de rastos, já quase à meia noite e a perguntar-nos se éramos maus pais pelo facto de o melhor do nosso dia ser quando os enfiamos na cama… a dormir, entenda-se 😳

Não sei se somos maus pais, sei que há pais que não acham isto cansativo e outros que estariam a arrancar cabelos. Ser mãe e pai não se ensina, mas aprende-se. E nem tão pouco há uma contradição neste facto: a coisa mais linda e maravilhosa do meu dia é acordar para os ver. A melhor, é vê-los adormecer ao fim do dia ❤️

Férias das férias

Contou-me o meu irmão, que já visitou e viveu umas semanas na China, que o símbolo da casa com uma mulher lá dentro significa ‘felicidade’ mas se tiver duas mulheres significa ‘confusão’. Confesso que comecei por achar isto brilhante, algo que podia ser o prefácio de todas as estórias de amor, família e sociedade da história. Mas tive de rever esta sensação porque sinceramente começo a achar que duas mulheres em casa é o negócio perfeito.

Das três semanas que passámos de férias em família, para começar estivemos quase uma semana com a minha madrinha, seguindo depois para regime de hotel e ainda deixando uns dias para nos organizarmos em casa, antes do regresso à escola/trabalho. A primeira semana foi intensa mas correu bem. Éramos 3 adultos para 2 crianças, eles tinham a atenção dividida por todos, deu para os adultos descansarem, os miúdos tiveram todas as suas necessidades atendidas e eu e a minha madrinha tratámos da casa. Mais a madrinha com a sua experiência, despacho e carinho, mas fizemos refeições, orientámos as crianças, arrumámos as tralhas diárias e fomos decidindo o programa. Duas mulheres em casa deram muito jeito, e tenho a sensação de que se fossem 2 homens, coitada da mulher que ficasse a tomar conta das tropas….

Pois quando entrámos em regime de hotel, já só éramos 2 adultos para 2 crianças… os miúdos disputavam, literalmente, a nossa atenção por eles. Cada um de nós tinha de dar prioridade a tomar conta de um deles, e como o V. tem agora 18 meses, um de nós estava invariavelmente de pé a correr atrás dele, para não cair, para não comer pedras, para não deitar a chucha para o rio, para não deitar abaixo o candeeiro do restaurante, para não beber o café dos senhores da mesa do lado, para não cair do sofá para onde entretanto trepou, para não descer do escorrega de cabeça, para não arrancar a cabeça de um cão e não se atirar para a piscina, já estão a ver a ideia…. já a outra, muito mais sossegada, fala que se desunha, pergunta, quer saber, ‘porquê’, ‘e agora tu eras uma rainha’, ‘conta-me uma história’, ‘faz de conta que eu era uma sereia’, ‘vou cantar uma canção sobre o jantar’, etc. Acordamos todos os dias pelas 9h mas só conseguimos adormecer os miúdos pelas 23h, às vezes meia noite 😳 não é que durmamos pouco, mas os dias são demasiado grandes.

Ora, as contas são muito simples, eu e o meu marido comemos maioritariamente à vez, vamos à piscina à vez, porque geralmente o V. não quer estar dentro de água, tomamos banho à vez e quando o miúdo dorme a sesta, um fica a tomar conta e o outro fica com a mais velha a passear, fazer atividades e todo um sem número de atividades estimulantes e divertidas…

Devemos ter estado umas 4 horas diárias juntos os dois durante…. as férias todas…. e não me entendam mal, adoramos as nossas férias, adoramos os miúdos, adoramos estes programas e esta correria, adoramos os momentos de mel e vê-los rir e brincar juntos! Adoramos tanto que passaríamos mais 15 dias de férias!!… só que agora só a dois…. para compensar o tempo perdido , vá ❤️😊

E estes miúdos são daqueles bons, que nem se queixam muito, nem dão demasiado trabalho… são só… miúdos. Mas como diz a minha mãe, ‘eu nunca tive filhos que se criavam sozinhos, só conheço daqueles que dão trabalho…’