Confissões

Olá, eu sou a Íria e tenho ataques de pânico. Coro imaginário, ‘Olá Íria!’

O primeiro passo é a aceitação, diz-se. E geralmente é o primeiro passo em todos os sistemas e propostas de grupos de auto-ajuda. Portanto é nele que me encontro. Quer dizer, sim, confesso que sou uma pessoa nervosa por natureza, e às vezes giro alguns assuntos de uma forma mais ansiosa que algumas pessoas. No entanto gosto de pensar em mim como uma pessoa equilibrada (assim naquela área que é o ‘geral’).

Os gupos existem por uma razão. Para nos sentirmos integrados. Precisamos disso. E os grupos de auto e inter-ajuda estão lá para não nos sentirmos sozinhos. E enquanto temos sensações no nosso corpo que nos convencemos que só nós sentimos, sentimo-nos, entre outras coisas, angustiados. Assim, ouvir a chamada ‘desgraça alheia’ torna-se um momento de alívio, não exatamente de felicidade pelo desconforto do outro, mas de sensação de que não estamos sós no mundo, mais alguém, sente vive e respira de forma semelhante à nossa.

Quando inaugurei este blogue na minha vida, tinha a minha filha quase 3 meses. Estava num sufoco. Passei uma gravidez calmíssima, feliz, leve (apesar dos 20 kg que engordei), fresca (apesar de não aguentar o calor de Junho, Julho e Agosto) e fofa. Começar a partilhar foi delicioso, receber comentários, ler outros blogues, conhecer pessoas que diziam ‘força aí!’ ou ‘Eu também!’ foi uma lufada de ar fresco. A ideia não era mostrar fotos da minha filha para o ‘Ai que linda!’ era simplesmente partilhar, mais um blogue de recém-mamã, como tantos outros blogues de outras mamãs na blogosfera a partilhar. E ser ‘mais uma’ pela primeira vez na minha vida soube-me imensamente bem.

Nesta coisa dos ataques de pânico foi um pouco assim. Não estou em nenhum grupo. Mas de repente em vez de ter vergonha escolhi desabafar com alguém. E esse alguém disse-me, ‘Sim eu também já tive. Os meus eram assim…’ E surpreendida com a resposta acabei por desabafar com outra pessoa que me disse ‘Ui, agora estou muito melhor, mas tive dois anos que foram do pior, a mim acontecia-me assado…’ E eu respirei. Em vez da sensação de garganta fechada os meus pulmões encheram-se livre e profundamente de ar e pensei, ‘Não sou a única. E isto não é uma loucura com exclusividade.’

E porque quando revelei os meus sintomas a estas pessoas o seu alívio não era chegar à parte final da estória para largar a bomba ‘então, afinal não era nada?’ Pois, é que para quem sente ataques de pânico, ‘afinal era tudo’. Foi a sensação que a vida nos fugia ali em 30 minutos. Ainda que a origem seja psicológica os sintomas são absolutamente reais e a sensação é de estarmos a ter verdadeiramente um ataque cardíaco, ou uma crise de asma profunda, ou a desmaiar, etc.

E sim, senti que a partilha me aliviou. Me acalmou e me fez pensar que mais gente no mundo, muito mais do que pensava, anda a tentar sobreviver psicologicamente a estas coisas. Que alívio sim. Da próxima vez que me sentir assim posso fechar os olhos e imaginar mais uma centena de pessoas a tentar controlar os seus sintomas. E lembrar-me ‘Ninguém morre de ataque de pânico.’ Apesar de ser essa a sensação…

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Gerações

avozinha

A minha mãe diz que a minha avó se melhorou como avó e que agora se aperfeiçoou como bisavó. Começo a pensar que as mulheres vão evoluindo a cada geração que lhes acontece. Primeiro como mães, depois como avós e depois como bisavós. E desde que a minha filha nasceu a minha avó só tem sorrisos para ela. Até eu perdi um bocado da gracinha.

A minha avó é assim, muito de ideias fixas, das suas próprias opiniões. Claro que a podemos fazer mudar de ideias, mas temos de a convencer com argumentos muito convincentes. Caso contrário fica convicta e ninguém a pode demover.

Tem estado connosco cá em casa. Duas a três vezes por semana, durante a tarde. Fica com a caganita, eu estou sempre por perto, mas sempre vou pondo coisas em dia, voltei a pegar no trabalho, ganho umas 2 horas que não existiam nos meus dias, é delicioso. Este trabalho é partilhado com a minha madrinha que vem nos dias que a avozinha não vem. Tem sido a minha salvação mental que estava a sentir-me um pouco louca sempre com um bebé que só quer colo enquanto tratava da roupa, loiça, casa e comida, 7 dias por semana. Sim 7. Bem sei que ao fim de semana tenho cá o meu super homem, que é um querido e um ‘cheio de boa vontade’. Mas parece que todas as mulheres se queixam do mesmo, por muito que eles façam nós fazemos sempre mais. E à segunda feira parece que ainda há mais trabalho que nos outros dias. É o arrumar do fim de semana.

Estamos aqui as 3 hoje. Havia literalmente quilos de roupa por tratar. Era fazer máquinas de roupa suja, tirar roupa do estendal, pôr roupa a secar, dobrar e arrumar. Isto da chuva atrasa as tulhas todas de roupa. E enquanto a MR fazia uma sesta longa (que é coisa rara) começámos a dobrar e arrumar roupinha, as duas sentadas no sofá e a pôr a conversa em dia. As mãos da minha avó trabalham a um ritmo incrível e enquanto eu olhava para ela e imaginava as gerações de mulheres a tratar de roupa como quem lava sentimentos, diz-me a minha avó, ‘Sabes o que isto me faz lembrar?’ faz pausa. ‘Quando ia com a minha mãe lavar no rio. Depois era secar e dobrar a roupa’. E olhou para mim nos olhos com aquele olhar de quem partilha gerações e estórias… e história. De quem compreende muito mais do que aquilo que diz, aquele olhar que até parece que viaja no tempo. Minh’ avó.