Casinhas

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Passo a vida a fazer, organizar, pensar e desenhar casinhas lindas arranjadinhas. Para os outros. A bem dizer, penso nisto constantemente, quer dizer, um bocado como defeito de profissão, sempre que estou num espaço construído peno no que poderia fazer para o melhor, se não me sentir plena no mesmo. Por isso acabo por fazer este exercício inúmeras vezes, em trabalho e fora dele. Ainda por cima tenho um marido que adora os meus projetos (<3) e está sempre a fazer-me perguntas do género ‘O que é que fazias ali? E quanto é que custava? E se não tivesses limites?’ E claro, estou constantemente a pensar na minha casa, no meu espaço (que são coisas profundamente ligadas apesar de ligeiramente diferentes).

Acho que muitas pessoas perguntam como serão as casas dos arquitetos, designers, e outras pessoas ligadas ao pensamento do espaço e do estético. Bom, a verdade é que alguns destes profissionais têm na sua casa o seu cartão de visita, por motivos de facilidade/ interesse profissional, também haverá outros que conseguem tudo o que querem na sua casa, o que é fantástico. No meu caso tive a sorte de ter um enquadramento familiar com especial bom gosto. As casas da minha mãe são e sempre foram lindas, especiais, nem demais nem de menos. A minha mãe tem bom gosto, conhecimento e chama bons profissionais para fazer o que não sabe e o resultado é notório. Enfim, não era intenção estar a gabar, mas para dizer que não tive de aprender tudo no meu percurso académico e profissional porque tinha já uma boa base. E por isso sempre tive casinhas bonitas desde que saí de casa e comecei a compor os meus próprios espaços. A casa onde vivi sozinha durante 1 ano apareceu na revista do Ikea e tudo e eu fiquei toda contente.

Mas, este espaço pessoal, geralmente, tem condições. Condições de peso, geralmente económicas. Começa com a base. O tipo de casa que se pode comprar. Ou arrendar. E se for arrendar o tipo de melhoramentos possíveis de fazer fica limitado. E depois dos melhoramentos fica a faltar o recheio. Este tem de servir sobretudo o propósito funcional. E depois mais uns pozinhos perlimpimpim para a parte estética. Ora, no final é raro querermos exibir o nosso espaço como o nosso melhor projeto. É o melhor projeto face ao valor disponível, claro está. Mas parece que queríamos ter sempre mais e melhor.

E no final do dia chego da casa de um cliente, que fica sempre linda quando de lá saímos, sem coisas desarrumadas, sem pó, com as peças no lugar certo, sem excessos, etc., e olho para a minha linda casinha, com bonequinhos de bebé, e sapatinhos à entrada para não sujar o chão onde o bebé gatinha, e casacos no cabide porque chegámos e fomos logo mudar a fralda ao bebé, e na sala uma manta no chão para o bebé brincar, mais a cadeirinha com o individual às cores e um restinho de fruta do almoço, e as camas que ficaram por fazer e ahhhhhhh!! Dá vontade de voltar para trás. Abrir a porta e fazer de conta que aquela família é o cliente, ser o arquiteto que diz tira daqui e põe dali e sair de mansinho enquanto está tudo arrumadinho…

Suspiro, que não me interpretem mal, adoro a minha casinha. E sim tenho um ótimo resultado com esse tal valor que estava disponível, mas às vezes acho que o meu marido tem razão, eu só estava bem a viver numa casa cheia de armários brancos,de alto a baixo, a fazer de paredes. E lá dentro estava tudo guardadinho, até a ele o guardava se pudesse. Enfim, acho que resistiria a este último ímpeto, mas confesso que me delicio com esta ideia de tudo arrumadinho, limpinho, organizadinho…

Quando entro nesta fúria de organização nem o computador escapa. Faço pastas e mais pastas e pastas para essas pastas e às vezes até tenho dificuldade em encontrar ficheiros e documentos neste labirinto de caminhos virtuais. Talvez em vez de guardar e arrumar esteja a precisar de sair um bocadinho. Para um sítio sem armários nem pastas nem arrumação. Só por causa disso decidi arranjar o nosso esquecidinho terraço. Assim como ponto de fuga. E nestes dias mais difíceis posso sempre entrar em casa, pegar na família e voltar a sair. Assim estilo, ‘vá para fora cá dentro’.

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Impossível

Há dias que são tão longos que quando vamos contar-lhes as horas damos por nós a contar semanas. E as semanas aparecem assim como uma avalanche de acumulação de horas, todas encavalitadas, doidas, entorpecedoras…

É delicioso ter tanto trabalho. Para mim é. Vivo através desta sensação de utilidade. E sim, acredito que mudo o mundo. Acredito que os arquitetos constroem a história, a história dos Homens, desenhando as suas cidades ou pensando naquele elemento junto ao vão onde o espaço se projeta  nos corpos que o habitam e os incita num beijo, num pedido de casamento, ou a forma como o espaço mal pensado origina conflitos ou depressões ou solidão. E eu acredito que mudo o mundo. Uma casinha de cada vez. Um móvel de cada vez. Compondo o espaço um bocadinho de cada vez. Enfim, imagino o que sentirá o arquiteto A. Siza Vieira, entre outros que construíram partes do mundo bastantes significativas. Mas não é pretensão minha, é mesmo aquilo que acredito desta profissão, deste meu saber.

E então entrego-me às linhas que o meu pensamento desenha no papel, enlouqueço com cada projeto, torno-me absolutamente lúcida e apaixono-me loucamente. Este meu saber é mais do que uma coisa que aprendi e faço, é algo que liga o meu dentro e fora, que faz parte de mim, que está mais do que embuído, está embutido como um armário que foi pensado em simultâneo com uma parede.

Mas agora sou mais do que arquiteta. Sou mãe também. Sou mãe, sem também. Sou mãe e arquiteta também. E quero mesmo conseguir trabalhar a partir de casa. E sai-me mesmo do pelo. E cada meia hora de pensamento é interrompido com ela, com papa, com sesta, com uma gracinha. Ou com refeições minhas ou roupa na máquina. E trabalho até às 3 da manhã e acordo entre as 7 e as 8 horas com ela, fresca e fofa a dizer ‘mamamamamamama’. E só abro um olho que o outro ainda está a tentar dormir. E sorrio com um lado da cara que acorda primeiro, o outro já lá vem.

Às vezes consigo deixá-la com a minha madrinha, uma tarde ou umas horas. E venho para casa fazer em 4 horas o que fazia em 6 ou 7 há 2 anos atrás. E foi o caso de hoje. Quando a fui buscar no fim do dia estava cheia de saudades. Louca de saudades (ela e eu). Enroscava-se no meu pescoço, dava-me beijinhos (‘Então deixas-me aqui, e logo eu que gosto tanto de ti!!’), mas estava zangada (‘Abusaste, da próxima vez pergunta lá quantas horas eu quero ficar’), não comeu tudo, batia nas coisas. À hora de deitar estava cheia de sono, o pai leva-a para adormecer, como sempre, e ela olha para mim, lança-se em voo e pede o meu colo com aquelas sílabas contínuas ‘mamamamama’. E eu que queria fechar um projeto, acabar orçamentos para enviar, tive de ficar. E a cachopa, um serzinho de 10 mesinhos de vida neste mundo, este mundo sim, construído por arquitetos, de e para os Homens, este mundo que já sabe tanto, ela mostra trazer conhecimento da Terra que a gerou, olha para mim, sente-me nervosa e demorou 1 hora para adormecer. E eu a tentar estar calma, serena, qual galgo antes de entrar em pista, de corpo suave e descontraído, mas de cauda a abanar freneticamente.

Este é um post sobre arquitetura

Trabalhar_com_Arquitectos_Frases

Esbarrei com esta reportagem há poucos dias, através de uma amiga. Não conhecia o fotógrafo, vi, revi e vi as suas outras reportagens. Parece que este fotógrafo tem muito que contar e vale a pena dar uma olhada. No seu caso há imagens que valem mesmo mais de 1000 palavras. E por isso acompanha as suas fotografias de explicações muito sucintas, deixando que a objetiva nos narre uma estória.

Aquela que me prendeu foi a ‘The Condo’, o condomínio privado ‘Bella Guarda’ em Vila Franca de Xira, inacabado por insolvência da construtora. Como tantos outros espaços abandonados pelo país fora este condomínio foi alvo de ocupação por pessoas que se viram sem outra hipótese nem saída. Os novos sem-abrigo têm abrigo. Vivem em condomínios de luxo, inacabados, sem portas nem janelas. Parece a triste canção do Vinícius de Moraes,

‘Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque pinico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na rua dos bobos
Número zero’

O próximo número da revista arqa (revista de arquitetura e arte) será dedicado às ruínas. As ruínas que já foram uma afirmação estética no romantismo agora povoam as cidades por falta de dinheiro e oportunidade para serem recuperadas. Quando estão livres do perigo de queda eminente são invariavelmente ocupadas por pessoas que se viram presas neste pior lado do sistema. Invariavelmente vemos estes espaços devolutos com os vãos violentamente fechados em tijolo e argamassa. Mas a novidade são estas ruínas da crise financeira, não são prédios devolutos, são construções inacabadas. Ninguém fecha os seus vãos com tijolo porque às vezes nem há paredes. Os vão são fechados com restos de madeira, lençóis ou pedaços de plástico pelos novos moradores, apenas para evitar que a chuva entre. Nas piscinas dos condomínios de luxo lava-se agora roupa. Estamos perante um novo tipo de ruína que é um bocado como a pescada, antes de o ser já o era.

Recentemente a Ordem dos Arquitetos lançou uma campanha incentivando o trabalho com arquitetos. A mensagem era simples e muito clara, ‘Olhe à sua volta. Ainda acha que não precisa de um arquiteto?’. E viram-se muitos cartazes fixados em espaços devolutos ou de baixo interesse arquitetónico, mas não vi imagens desses cartazes nestes edifícios. E a pergunta é pertinente, ‘Ainda acha que não precisa de um arquiteto?’

Claro que estes prédios em esqueleto, qual imagem de uma população subnutrida, os seus ocupantes à margem do sistema, não são, não estão dependentes de 1 nem 1000 arquitetos que os salvem. Mas provavelmente será altura de reunir autarquias, sociólogos, psicólogos, antropólogos, mecenas e arquitetos e discutir o que fazer com estes espaços. Saiu no público uma reportagem que anunciava que as casas vazias em toda a Europa facilmente poderiam ‘albergar todos os sem-abrigo do continente’. Num episódio do programa de carros britânico ‘Top Gear’ houve um episódio em que os testes dos carros decorreram numa cidade, em Espanha, fantasma. Era uma cidade inteira construída, cheia de casas terminadas, com direito a aeroporto e tudo, completamente deserta. Nunca antes habitada. O cenário fica mais frio que o dos filmes western, não se trata de uma cidade abandonada, trata-se de um espaço à escala de uma cidade que foi pensado, desenhado, planeado e construído para uma população que nunca chegou a aparecer.

O novo conceito de ruína antecede a vida do edifício. É um nado-morto. Uma tristeza, uma infelicidade. A ruína é agora o edifício em esqueleto, como o condomínio em Vila Franca de Xira. Não podemos dizer que não se podia prever, mas seguramente construtores falidos e ocupantes destes espaços sem condições foram surpreendidos e ficaram presos neste lado negro do sistema. Uns mais que outros, seguramente. Mas agora que aqui estamos urge pensar, o que fazemos? O que fazer com isto? ‘Olhe à sua volta’