Mulheres

O meu querido avô faleceu há 3 anos e meio. Uma tristeza, uma desgraça. Uma dor, a perda que mais me feriu. uma parte de mim morreu um bocadinho também com Ele. Meu querido avô, homem bondoso, teimoso e cheio de afetos. A minha maior dor é que nunca tenha conhecido o meu marido. Nem a minha filha. Mas como diz a minha madrinha as pessoas só morrem de verdade se as esquecermos. Se deixarmos de falar delas.

E eu não esqueço o meu avô. Não deixo de falar dele. E nestes pensamentos parece que o sinto comigo, perto de mim quando lembro melhores e piores momentos. Quando me lembro como me irritavam certas coisas que fazia. Ou como quando ficava feliz quando me surpreendia. Fazia-me serenatas de tarde na sua guitarra. E dizia, ‘Isto era o que se tocava às raparigas quando eu era novo. Ah, cara linda, se eu tivesse menos 20 anos não me escapavas!’. E riamos os dois.

Era um beijoqueiro. Andava de volta da minha avó e dizia, ‘Dá-me um beijinho!’, que invariavelmente o sacudia retorquindo ‘Olha a miúda!’. Quando dormia a sesta ia para a sala e eu ia a correr para lá e ficava a brincar com a companhia do seu ressonar suave. Se o acordava ficava pior que estragado. Mandava-me para outro sítio qualquer da casa. Mas se lhe dava um beijinho ficava todo meloso e rabujava entre dentes uma cançãozinha que mal se ouvia.

Passeámos imenso os 3. Eu, o meu avô e a minha avó. Fui neta única durante 12 anos e filha única até aos 15. O meu avô viu-me crescer ensinou-me coisas sem fim. Valores, engenhoquices, a jogar às cartas, adivinhas… e ainda me deu explicações numa matéria de física na faculdade.

Era um tipo às direitas. Um chato, falava imenso, discutia e era teimoso. Um amor. Dava beijinhos aos homens de quem gostava muito. Dava beijinhos ao meu pai que era seu genro. E a mim dava-me imensos beijinhos. E se lhe perguntava se estava bonita dizia-me ‘Tu estás sempre linda. Qualquer trapinho te fica bem’. Só não gostava de me ver de verde. Era um benfiquista ferrenho e um anti-sportinguista sem cura.

No dia da Mulher, todos os anos me ligava. ‘Filha, estou a ligar-te porque sei que é dia da Mulher. Mas não é para te dar os parabéns. desejo-te bom dia como em qualquer outro, porque eu acho que o dia da Mulher tem de ser todos os dias, ou não? E já pensaste, não há um dia do Homem. Porquê? Porque o seu dia é todos os dias? Também o da mulher o devia ser. Existir o Dia da Mulher sem o Dia do Homem não é discriminação para o Homem, é discriminação para a Mulher. Portanto filha desculpa lá, mas hoje não te posso desejar um feliz dia.’ A todas as mulheres, um bom dia como noutro qualquer.

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mimos

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Fiz um bolinho simples.  Daquele jeitinho tão meu.  Vou acrescentando os ingredientes mais ou menos a olho, no fim provo a massa e complemento com o que for necessário.

Na família há excelentes cozinheiras, a minha avó,  a minha mãe e a minha madrinha. Cozinham brilhantemente,  assados,  refogados,  cozidos, compotas (nas quais a avó é mestre), sobremesas,  entradas (a minha mãe brilha na apresentação), a lasanha da madrinha… engordo só de pensar. Mas a minha cena são os bolos. É-me quase impossível repetir uma receita. Têm sempre aquele gosto característico, nem sei explicar bem. Faço-os sempre a olho, vou lá pelo cheiro,  pela textura,  parece que nos entendemos.

Então fiz um bolinho simples,  guloso e saudável com o que havia no frigorífico e dispensa. Ficou assim,

*

Ingredientes,

.6 maçãs

.1 chávena de açúcar

.1+1/2 chávena de farinha

.1 colher de chá de fermento

.1/2 chávena de leite

.1 embalagem de queijo para barrar light

.3 ovos

.uma mão cheia de amêndoas moídas

.raspa de limão

.sumo de um limão

.compota de morango ou frutos vermelhos

.2 colheres de sopa de sementes de sésamo

.canela para polvilhar

Preparação,

Untar uma forma redonda com azeite. Polvilhar o fundo com açúcar e com as sementes. Pôr o forno a aquecer até 170º. Cortar as maçãs previamente lavadas e descaroçadas em fatias finas para dentro da forma. Regar bem com o sumo de limão. Levar ao forno até estarem semi-cozidas. Entretanto preparar a massa. Juntar todos os restantes ingredientes, excepto a compota,  e bater muito bem.  Tirar a forma do forno, polvilhar com canela e dispor a compota sobre a maçã. Deitar então a massa sobre o preparado com muito cuidado. Levar ao forno 45 minutos a 1 hora. Retirar do forno, esperar que arrefeça um pouco e virar (cuidado que pode ter molho).

Numa versão menos light podem servir com natas magras batidas com açúcar.

*

Bom apetite e bom fim de fim de semana. 🙂

Gerações

avozinha

A minha mãe diz que a minha avó se melhorou como avó e que agora se aperfeiçoou como bisavó. Começo a pensar que as mulheres vão evoluindo a cada geração que lhes acontece. Primeiro como mães, depois como avós e depois como bisavós. E desde que a minha filha nasceu a minha avó só tem sorrisos para ela. Até eu perdi um bocado da gracinha.

A minha avó é assim, muito de ideias fixas, das suas próprias opiniões. Claro que a podemos fazer mudar de ideias, mas temos de a convencer com argumentos muito convincentes. Caso contrário fica convicta e ninguém a pode demover.

Tem estado connosco cá em casa. Duas a três vezes por semana, durante a tarde. Fica com a caganita, eu estou sempre por perto, mas sempre vou pondo coisas em dia, voltei a pegar no trabalho, ganho umas 2 horas que não existiam nos meus dias, é delicioso. Este trabalho é partilhado com a minha madrinha que vem nos dias que a avozinha não vem. Tem sido a minha salvação mental que estava a sentir-me um pouco louca sempre com um bebé que só quer colo enquanto tratava da roupa, loiça, casa e comida, 7 dias por semana. Sim 7. Bem sei que ao fim de semana tenho cá o meu super homem, que é um querido e um ‘cheio de boa vontade’. Mas parece que todas as mulheres se queixam do mesmo, por muito que eles façam nós fazemos sempre mais. E à segunda feira parece que ainda há mais trabalho que nos outros dias. É o arrumar do fim de semana.

Estamos aqui as 3 hoje. Havia literalmente quilos de roupa por tratar. Era fazer máquinas de roupa suja, tirar roupa do estendal, pôr roupa a secar, dobrar e arrumar. Isto da chuva atrasa as tulhas todas de roupa. E enquanto a MR fazia uma sesta longa (que é coisa rara) começámos a dobrar e arrumar roupinha, as duas sentadas no sofá e a pôr a conversa em dia. As mãos da minha avó trabalham a um ritmo incrível e enquanto eu olhava para ela e imaginava as gerações de mulheres a tratar de roupa como quem lava sentimentos, diz-me a minha avó, ‘Sabes o que isto me faz lembrar?’ faz pausa. ‘Quando ia com a minha mãe lavar no rio. Depois era secar e dobrar a roupa’. E olhou para mim nos olhos com aquele olhar de quem partilha gerações e estórias… e história. De quem compreende muito mais do que aquilo que diz, aquele olhar que até parece que viaja no tempo. Minh’ avó.