Comer

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Sugeriram-nos que a MR poderia comer melhor vendo-nos comer e se tornássemos a refeição um verdadeiro momento familiar, com ritmos, posições e ações conjuntas. A verdade é que durante as férias, a partilhar um espaço com mais 6 pessoas acabavámos por conseguir fazer isto mesmo inadvertidamente. Alguém estava invariavelmente a comer nas horas das refeições da MR.

E estando a dita quase nos seus 12 mesinhos de idade resolvi descontrair um bocadinho mais e oferecer-lhe outros sabores desconhecidos vindos diretamente do nosso prato. A cachopa adorou. Ficou doida a tentar comer o pedacinho de coisinha que lhe dávamos até morder o nosso dedo. Bom, não comeu muito mais, porque nisto come um pouco menos de sopa e acaba por petiscar umas coisinhas nossas mas também não em grande quantidade, mas enfim, pelo menos não come a sopa ao nosso colo e a passear pela casa toda enquanto derruba livros e abre todas as caixinhas, etc. Fica connosco à mesa do início ao fim da refeição.

De modo que quando chegámos de férias resolvi experimentar. Sentámo-nos à mesa e jantámos todos. Ela comeu pão, sopa só foi meia, bebeu sumo de ameixa e mordiscou quase uma pêra inteira. E aguentou-se o tempo quase todo à mesa. No final lá chorou um bocadinho e lá fomos deitá-la. Voltámos, já tínhamos jantado, eu fiz uma máquina de roupa, o Z. pôs a loiça na máquina, preparei um café e olhei para as horas… 21.30h 😮 AHH!! O quê?!? Quando finalmente acabamos o ‘dia’ são 23h e estamos tão exaustos que nem loiça nem roupa na máquina, fica tudo a marinar até ao desespero do dia seguinte e salve-se quem puder… De repente olhamos para o relógio e pensamos que descobrimos a pólvora. E o sábio que nos aconselhou sabia do que falava. Se não come muito mais nós vivemos muito melhor. Todos, em paz e harmonia… 🙂

saudades

‘Vais ter saudades’ Não vou, não. ‘Ah, isso é o que dizes agora’ Não é, não. Dizem-me que por muitas queixas que tenha nesta fase mais tarde sinto falta deste cheirinho, deste tamanho, destes gestos. Hmm, não obrigada. Sim, isto é delicioso. Mas também tem algumas coisas mais difíceis de gerir. E é nisso que eu acho que a natureza é tão sábia, cada fase tem delícias e amarguras, para que nos saiba bem gozá-la mas para que não nos deixe o sabor apertado das saudades.

E queixo-me. Queixo-me sim, porque acho que é um direito meu queixar-me e porque há momentos realmente difíceis. Mas também vivo em pleno gozo todos estes momentos meus por direito. Meus. E foi por eles que escolhi ficar em casa até aos seus 3 anos ( a ver se consigo), e é por isso que lhe dou todas as refeições, e por isso que lhe dou todos os dias banho e a visto com carinho e a adormeço nos meus braços 3 vezes por dia. Isso cansa-me e no final do dia estou esgotada. Saudades de quê, então? Do lado maravilhoso destas tarefas. De sentir o cheirinho dela a adormecer, de lhe dar beijinhos quando troco de roupa, dos risos, dos beicinhos, das primeiras palavrinhas. E por isso vivo estes momentos com toda a intensidade e tudo o que têm para dar. Saudades de quê então? Estes momentos darão lugar a outros, que farão todo o sentido localizados no novo tempo e espaço e nessa altura estarei a vivê-los. Quero ter outro bebé, não quando tiver saudades daquilo que vivi com a MR, mas quando desejar voltar a ter outra relação maternal. Não pela repetição, mas pelo gozo de uma nova experiência, mais uma conexão, mais de nós para amar.

As dores desta fase, os medos, o terror, a primeira vez, felizmente passa. E disso não terei saudades. Nenhumas. De olhar para ela e ter medo de tudo, e se o seu peso está bem, e conciliar trabalho, e casa e marido…. Ouvi-la chorar no carro de cada vez que fazemos uma viagem, não lhe poder explicar coisas… suspiro. Sim são coisas que eu vivi com muita intensidade. É uma coisa pessoal, admito e que tem a ver com a minha forma (talvez um pouco ansiosa?) de viver a vida.

Eu (penso que) percebo o que dizem, enquanto estamos nesta fase queixamo-nos por vezes de coisas que mais tarde contextualizamos e à luz do ‘não era assim tão mau’, vem a sensação do ‘podia ter aproveitado melhor’. E é por isso que apesar de me queixar vivo cada cheiradela intensamente, cada mimo de forma única, cada palavrinha e passinho… para que não fique nada por sentir, aproveitar, desta fase. E mais tarde vão ser memórias maravilhosas situadas no tempo. E os afetos… estarão concentrados a viver a fase presente.

(papá)

É uma sedutora. A minha mãe diz que quem diz que ‘as criancinhas são inocentes’ não percebe nada de criancinhas. Dizem-nos todos os psicólogos. E a minha filha brinca aos ‘namorados, primos e casados’ connosco. Com o pai. Olha para mim e começa a respirar ofegante. Ainda quando não dizia ‘mamã’ já me chamava. Toda ela vibrava, estendia braços estava excitada. Quando o pai chegava ria-se. Franzia o sobrolho, encostava a cabecinha. Uma ternura. Uma sedutora.

E agora que já diz mamã, e depois de gozar um bocadinho esse momento, comecei a incentivar o ‘papá’. E disse ‘Diz papá. Diz tu. Pa-pá.’ e ela respondeu ‘(pa-pá)’. ‘Ahhhhhhh!! Zé, Zé, Zé!!! Disse disse, disse papá!! Diz lá outra vez, diz, diz, papá!’ ‘(papá)’, riu-se e escondeu a cara no peito do grande e peludo do pai. Nós rimos saltámos, o Z. emocionado e ela percebendo a excitação ‘(papá)’. Enfim, e isto deu-se mais umas 3 vezes com grande entusiasmo por parte de toda a família. Mas a questão é a entoação. Os parêntesis simulam a surdina em que a minha filha chama o seu pai. Quando me chama é alto e bom som. É simples, aliás, há um objetivo e uma solução. A solução sou eu e tem de ser bem ouvida para resultar. Mas no caso do pai ele não é uma solução. É um meio para um fim. E esse meio é, nem mais nem menos seduzido. E lá sai aquele ‘papá’ em surdina com a cabecinha inclinada. Onde é que ela aprende estas coisas? Garanto que não fui eu que lhas ensinei… Ou será que durante a gravidez ela estava mais atenta do que pensei? Va savoir! De resto minha filha, como te compreendo, eu e tu estamos apaixonadas pelo mesmo homem. Sinal de bom gosto, inequívoco… 🙂 ❤

Às vezes

Às vezes corre tudo bem. E mesmo assim é tudo muito cansativo. É assim, para nós é a primeira vez, e eu imagino que seja verdade o que dizem, sobre o primeiro ser o mais ‘difícil’. É o sair das nossas rotinas pela primeira vez (e são 2 as rotinas que cada um perde, a de cada um e a dos dois em conjunto), é o ter um bebé pela primeira vez em casa, é o desconhecido do que se compra, o que se cozinha, é a tentativa (desesperada) de manter pelo menos os ritmos dela, e invariavelmente o nosso jantar serve-se às 23h. Mesmo quando tudo corre bem.

E não é só o que este serzinho maravilhoso nos ocupa o nosso tempo, às vezes, mesmo quando tudo corre bem, é difícil. E então o que se torna pior é o que o tempo com ela nos inviabiliza o tempo individual ou a dois, depois. Ficamos de luzes apagadas, o babytv ainda ligado e nós em silêncio de olhos postos no infinito. Talvez a imaginar um futuro onde cada minuto de cansaço valeu mais do que a pena.

Põe&Tira

Põe e tira e volta a tirar. Constantemente a fazer as mesmas coisas. Ora põe a mesa, ora levanta a mesa, faz e desfaz as camas, lava roupa, seca, dobra e arruma, desarruma, volta a lavar, suja loiça, lava, seca, arruma e desarruma, faz refeições, põe em caixas, frigorífico e volta à lavagem. Todos os dias passo as minhas manhã a arrumar a casa do desarrumo necessário que causam as dormidas, arruma robe, chinelos, sacode camas, puxa cobertores, despeja saco de água quente, trata da roupa na corda, põe loiça na máquina, toma pequeno-almoço, toma banho, prepara sopa do bebé, dá a sopa, muda a fralda, come em 5 minutos e só depois respiro… pouco, que são horas de dormir, outra vez, sim, esta mania compulsiva, incessante de dormir todos os dias, aproveito a sesta e vou preparar o banho, sim, mais uma vez, porquê banho todos os dias? E entretanto já que passo pelo quarto porque não dobrar a roupa que tirei do estendal? Mas ela já acordou, e bora lá buscá-la, vou mas é comer um chocolate que já estou sem fôlego, nem forças, e tenta ver tv, mas está chata, e espera, já são horas de lanchar, vamos a isto, e a seguir brincadeiras e bicicleta nas pernas do bebé para não ter cólicas. Já sujou a fralda, vamos mudá-la que são horas de fazer jantar e o pai a chegar, toma lá o bebé que eu tenho… de correr, a máquina da loiça já está pronta, comida na mesa, ela vai ao banho e papa e vai dormir e tira robes, outra vez????

E vou deitar-me e penso, amanhã será melhor, vou conseguir fazer alguma coisa. E penso que fiz mil coisas hoje, o problema não é a quantidade mas a qualidade, estou sempre a fazer as mesmas coisas, que desespero. E parece um jogo infernal, põe e tira e volta a virar, um jogo compulsivo em que só se pode fazer o que já alguma vez se fez, só a repetição tem ordem nesta casa. Tudo o resto vem para amanhã que nunca mais chega.

E para nos libertar deste ciclo vicioso fomos buscar o pai ao trabalho, mas o bebé estava impossível, zangado mesmo e dei-lhe a mão para que se acalmasse. Quando tirei não queria. Ficar no ovinho só de mãozinha dada com a mamã, e eu tudo bem, olha, felizmente a carrinha é automática e vou conduzindo, senão nem sei, e lá fomos nós de mãos dadas o caminho todo, inédito sim, pelo menos não era uma repetição. E eu a dar-lhe a mãozinha assim pensei se não era ela que me dava a mãozinha a mim, introduzindo este elemento novo e dizendo ‘não estás sozinha’.