Às vezes

Às vezes corre tudo bem. E mesmo assim é tudo muito cansativo. É assim, para nós é a primeira vez, e eu imagino que seja verdade o que dizem, sobre o primeiro ser o mais ‘difícil’. É o sair das nossas rotinas pela primeira vez (e são 2 as rotinas que cada um perde, a de cada um e a dos dois em conjunto), é o ter um bebé pela primeira vez em casa, é o desconhecido do que se compra, o que se cozinha, é a tentativa (desesperada) de manter pelo menos os ritmos dela, e invariavelmente o nosso jantar serve-se às 23h. Mesmo quando tudo corre bem.

E não é só o que este serzinho maravilhoso nos ocupa o nosso tempo, às vezes, mesmo quando tudo corre bem, é difícil. E então o que se torna pior é o que o tempo com ela nos inviabiliza o tempo individual ou a dois, depois. Ficamos de luzes apagadas, o babytv ainda ligado e nós em silêncio de olhos postos no infinito. Talvez a imaginar um futuro onde cada minuto de cansaço valeu mais do que a pena.

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sexta feira

É o que se chama uma ‘sexta feira 13’. Desta vez nem foi preciso o número para ilustrar.

Em vez de acordar às 8h, como costume, acordou às 6h. Isso alterou completamente o horário da mamada. Tínhamos uma consulta. Levámos a madrinha de arrasto que é uma querida e uma ajuda imprescindível. Acabou por ter fome à hora, quase, de sair de casa e eu, claro, tive de lhe dar de mamar. Quando mamou estava distraída com a minha pressa e começou a palrar em vez de mamar. Normalmente teria insistido, mas depois de já termos passado a hora de sair de casa acabei por decidir pegar nela e ir para o centro de saúde. Chovia torrencialmente, fez trovoada, foi o dia que em Lisboa caiu granizo feito neve. O meu marido teve de ajudar um colega a ligar o carro que foi abaixo com o radiador congelado.

O centro de saúde fica no meio da cidade, sem qualquer parque perto e com hipóteses de estacionamento muito reduzidas. Nos dias de chuva intensa essas hipóteses ficam ainda mais reduzidinhas… A minha filha teve de ficar num centro de saúde diferente do meu. É uma estória complicada. Eu estou registada no centro de saúde da cidade onde sempre vivi, até à 4 anos atrás. Na altura atualizei a minha morada e pronto. Mas o centro de saúde tornou-se uma USF, significando que não pode aceitar mais ninguém que não seja expressamente da lista de freguesias que serve. Ou seja, quando a minha filha nasceu não podia ser lá inscrita pois não era residente nessa lista de freguesias, apesar de ser do mesmo concelho. Ora o meu marido estava no centro de saúde da sua antiga residência com um médico de família atribuído. Disseram-nos que não sendo essa uma USF poderíamos inscrever lá a MR. A outra opção seria inscrevê-la no centro de saúde atribuído à nossa freguesia mas teria de ser inscrita com um dos progenitores. Pois para nos inscrevermos nesse centro ficaríamos na lista de doentes sem médico atribuído o que nos fez pouco sentido uma vez que nos considerávamos bem servidos a esse nível. Pensámos então em ir inscrevê-la com o pai mas quando lá chegámos disseram-nos que se atualizassemos a morada do Z ele seria transferido para o centro da sua residência na tal lista de doentes sem médico. A MR só seria lá inscrita se déssemos a morada dos meus sogros, a morada antiga do Z. Bom… e no meio disto tudo foi assim que fizemos. Enfim, no fundo a solução possível num sistema que desvirtua completamente o verdadeiro conceito do médico de família, num país com carência de médicos em todas as áreas.

Voltando à estória inicial, quando finalmente chegámos ao centro de saúde, com a chuva, a mamada fora de horas, a falta de estacionamento prioritário, fez com que nos atrasássemos 25 minutos. Foi mau, péssimo, vergonhoso. Detesto atrasar-me assim, e com a MR tem acontecido algumas vezes. Mas nunca tanto tempo numa consulta. Cheguei lá afogueada e não havia senhas, tivémos de esperar pelo segurança, por fim chegámos à receção. A senhora que nos atendeu diz-nos alto e bom som que o médico não nos vai atender porque nos atrasámos. Podemos portanto ir para casa. Fico meio perdida sem saber o que pensar nem o que dizer. Recordo-lhes que já esperei 1,30h por uma consulta marcada. Eles dizem que nada a fazer, as consultas estavam a cumprir horários portanto podíamos ir para casa. Nem no final nos atendiam, era um não redondo sem direito a resposta nem negociação. Fiquei surpresa, irritada, humilhada. Pensei no que ia fazer, pedir o livro de reclamações, ir embora… Suspiro… Com chuva, desgosto, almoço a aproximar-se, acabei por decidir vir para casa.

Fui fazer a sopa da MR com carne pela primeira vez. Tinha experimentado maçã há 2 dias e ela tinha-se engasgado, tinha de introduzir este ingrediente muito bem passadinho, Fiz a sopa, triturei tudo, ela já estava impossível, entra no carro, sai do carro, chuva, a minha irritação, as duas sozinhas a tratar da sopa, eu preparava ingredientes, ela chorava. Ia com a minha madrinha buscar o meu padrinho ao aeroporto, acabei por não conseguir. Novo suspiro. Lá acabei a sopa, ela desesperada. Percebi que a sopa não estava bem triturada no meio da pressa. Liguei ao meu pai,pedi ajuda, que viesse para cá por favor. O meu pai lá veio. Acabei a sopa, dei-lha, não gostou. Assim, cheia de fome e recusou-se a comê-la. Tinha de fazer outra. Lá fui eu a correr, o meu pai com ela no colo a passarinhar… Lá comeu (em 40 minutos) a sopa nova. Aquilo tudo acabou pelas 15h, parecia que tinha passado um dia inteiro. Lembrei-me que ainda não tinha comido nada. Também não tinha nada em casa porque ainda não tínhamos feito compras. Comi uma pratada de papa cérelac (essas agora nunca faltam) para pequeno-almoço, almoço e lanche.

O meu pai lá nos deixou sozinhas e eu lá contei os minutos (foram tantos) até o maridão chegar e render a minha guarda. Mas mal chegou já eram horas do banho e depois papa e depois adormecer. Vá lá que deu para vermos um filminho que nos tinham recomendado enroscadinhos no sofá para entrar no fim de semana em beleza. No dia a seguir acordei com uma constipação brutal. Aproveitei, como sempre sermos 2 para 1 e tratei de máquinas de roupa, loiça, secar roupa, dobrar, arrumar… Domingo ainda fomos trocar prendas de Natal. Quando o fim de semana acabou fiquei com a sensação de que precisava de um dia para descansar do fim de semana. Disse um dia? Por favor, precisava de um fim de semana…

Não me entendam mal, esta coisa da maternidade é mesmo uma experiência linda, com tudo o que há de melhor. E de mais difícil. É como se tivéssemos de deixar de existir para permitir a uma criança a sua existência. E os primeiros tempos resumem-se basicamente à luta pelo razoável desse meio e bom termo. E por isso fico-me assim, apaixonada e exausta. Tudo ao mesmo tempo.

Recomeço

Já vamos a meio da semana bem sei, mas isto de ser mãe é assim, os começos e recomeços fogem um bocado do nosso controlo. Como diz a minha madrinha ‘Eles é que mandam’, eles, entenda-se os filhos.

Com as férias do Natal a pegar com as do ano novo, estivemos os 3 em casa durante uns 15 dias. Soube a mel 🙂 Foi espetacular, mas também cansativo. Querida, onde está?… Querida o que é o almoço? E o lanche? E o jantar? Podemos fazer ovos mexidos para o lanche? É preciso tratar de roupa, é preciso tratar de loiça, como sempre, mas nas férias há mais loiça, mais toalhas, mais um bocadinho de tudo. E segunda feira foi dia de regresso ao trabalho. Para todos. O marido voltou à carga, eu voltei aos meus projetos e a MR voltou às tarefas dela, entreter-se de uma forma um pouco mais autónoma sem alguém sempre a interagir com ela…

E foi duro claro. A MR desesperou, olhava-me com uns olhos perguntando-me ‘Mas diz-me, existe algo mais na tua vida para além de mim?’, retoricamente claro. E efetivamente não existe muito mais, pelo menos não existiu muito mais nestes dias. Todas as tarefas que mentalmente faço com tanto carinho enquanto a embalo ou à noite nos 3 minutos que demoro a adormecer ficam por completar, ficam adiadas e só uma tarefa parece ser cumprida, ‘Ficar com o bebé!’ Por isso não, não existe mais nada na minha vida.

Mas devia. Sem exageros, sem pressas, no momento certo. É este, sem dúvida. Um pouco antes dela nascer decidi que queria ficar em casa. Trabalharia a partir daqui, com a bebé, até conseguir. O ideal seria até aos 3 anos, altura em que iria para o infantário, mas enfim, um dia de cada vez. Neste momento estamos numa fase menos produtiva. A bebé não dorme o dia todo por um lado, por outro também não fica sozinha a brincar… e eu lá vou brincando com ela, a fazer sopas, a mudar fraldas.

Hoje trocou de roupa 3 vezes. Primeiro na brincadeira depois de comer, pimba! bolçou um bocado valente, vai de trocar 3 camadas de roupinha minúscula, choro, irritada. Para fazer justiça à criança tenho de dizer que hoje dia que completou 5 meses, levei-a às vacinas. Aquilo dói que se farta, pelos vistos, e a coitadinha veio sentida. Passou o dia num quiexuminho como se me perguntasse ‘Como é que deixaste que isto me acontecesse??’ E no meio das várias mudas que ‘sofremos’, entre o meu cansaço e algum desânimo, confesso, vai de pregar um xixi fora da fralda e muda outra vez 3 camadas de roupa, mais o tecido do trocador, suspiro… Mais uma voltinha, mais uma viagem, nova refeição, nova muda… e mais um xixi… não acredito… a sério?? Oh pá… isto só pode mesmo ser amor… Como é que as outras mães conseguem? Às vezes só ganho forças assim mesmo, todas as mães antes de mim conseguiram, todas depois de mim vão conseguir. E com mais um suspiro, beijinhos para ganhar ânimo (eu, claro), lá mudo novamente 3 camadas de roupa, tecido do trocador…

Chamei a este post recomeço porque esta semana queria retomar os meus projetos. voltar ao ritmo semanal, arranjar casa de manhã, trabalhar à tarde, sempre com a caganita pedindo atenção, mas ainda assim possível… Mas nem por isso, o recomeço não se deu esta semana em uníssono para toda a família. Querem saber um segredo? No fim do dia, depois de a trocar 3 vezes, depois de a passear sentada, deitada, virada, adormeceu um pouco. Resolvi não a acordar para o banho, quando abriu o olho foi enfiar-lhe a papa buchinho abaixo e cama… Há mais dias para banhos…

E para desenhos… hoje vai assim, cru e duro, sem ilustração, nem riscos, nem rascunhos. E bom restinho de semana…