Vamos (todos) comer

Havia uma revista que os meus pais liam quando eu era adolescente que se chamava ‘A Grande Reportagem’. Era uma revista generalista cujo diretor era o Miguel Sousa Tavares, que os meus pais também adoravam, e gostavam tanto da publicação que presumo que tenham os números todos. Eles liam a revista à vez, a dois e às vezes liam-me ou eu lia trechos de artigos. Mas havia uma secção que líamos todos juntos, assim estilo momento familiar. Era uma página em que se gozava com coisas que tinham sido ditas publicamente, por ilustres conhecidos, claro está, e às quais era atribuído um prémio, num registo muito irónico, cómico e informal. Pois havia um que ficou para sempre entre nós, em que aparentemente alguém tinha um caso com a mulher de outro alguém que por sua vez descobriu e ofereceu porrada ao primeiro. Ele, o primeiro, dizia então ‘Eu já nem como’, e o prémio era ‘Ai comes, podes ter a certeza que comes!’

Bom e o título que queria dar a este post era exatamente esse. A MR sempre foi de comer pouco desde que começou a comida pós amamentação. Chegámos a fazer análises pois preocupava-nos, e à pediatra, o seu baixo peso. Desde que está no infantário sentimos que come um pouco melhor e sobretudo com mais entusiasmo. E esse entusiasmo passa por querer agarrar o prato da comida, a dita comida, o garfo, a colher, a tosta, o importante é sentir tudo.

Começa assim, eu vestida limpinha e cheirosa. O Z a medo, já com farda de trabalho (t-shirt velha e calções de treino). A MR acabadinha de sair do banho com cabelito ainda a secar e tudo. Na mesa a sopa, o pratinho com carne e arroz, por exemplo, a taça com a fruta e a nossa comida, pratos e talheres respetivos para isto tudo.

Eu começo a dar colheres de sopa e a MR decidida, vira a cara. Como parece que eu não percebo as suas intenções e volto a tentar, à segunda vez ela não tem outro remédio senão dar um safanão na colher, ficar com sopa na mão, na cadeira e na perna e estrear as minhas calças, as tais que estavam limpinhas há 5 minutos atrás. Tento então mostrar-lhe o garfo com a fruta, ela entusiasma-se, abre a boca e eu muito depressa enfio uma colher de sopa e só depois lhe dou a fruta. Sente-se meio enganada, mas gosta da recompensa e por isso lá deixa passar. Isto resulta mais umas duas vezes, pelo meio tenho de ir buscar umas caixinhas decorativas que ela adora abrir e fechar, mas depois é necessário outro tipo de comida, 3 vezes fruta já chega. Então vem a carne com arroz, novamente com sopa primeiro. Desta vez o entusiasmo com a coisa nova é tão grande que me agarra na mão que tem a carne (sim, tenho de usar as duas mãos para lhe dar comida) e cai um bocado de arroz para cima das caixinhas. Ela espreita os dois grãozinhos de arroz e cheia de perícia pega neles delicadamente, tenta levá-los à boquinha, mas oh!, não conseguiu, e eis que os grãozinhos vão para a cadeira. Continuo a alternar entre fruta e carne, sempre com a sopa antes, e a aproveitar que tinha a boca aberta quando disse ‘olá’ para a televisão, cai um pingo de sopa nas minhas calças e a tentar limpar com um guardanapo esqueço-me que tinha arroz na outra mão, cai tudo na camisa. Apanho os bocadinhos e ponho no cantinho do meu prato enquanto levanto os olhos e percebo que o Z teve de lhe dar a comida do nosso prato pois ela estava desesperada a apontar e dizer ‘dá!’ Volto à sopa, dou-lhe uma tosta e tento novamente com fruta e arroz alternado. Põe a tosta na boca, mas percebe que não era isso que queria, tira da boquinha dela e gentilmente entrega-me aquele bocadinho lambido, ‘dada’ que significa ‘obrigada’, que é o que dizemos sempre que ela nos dá algo. ‘obrigada, sim filha! Tão bom, a mamã vai por aqui no cantinho do prato.’ Ok, mais umas colheradas, do meu prato já nem sei qual é o direito e o avesso, o Z a partir bocadinhos de comida que vai dando à MR também e para mim, para que eu coma alguma coisa. De repente decide que quer comer sozinha, sim, esse restinho, já chega eu decidir o que lhe dar, ela quer o pratinho. E eu dou-lhe o pratinho, o Z a rir-se, ela a pegar na comidinha com uma mãozinha e a colocá-la no garfinho que a outra segura. Depois tenta equilibrar tudo até à boca mas no caminho cai, suja as perninhas, ela bem tenta agarrar mas cai tudo para o chão. Pois nada pára esta criança determinada e eis que pega no pratinho e enterra a cabeça lá dentro, tentando apanhar qualquer coisinha às dentadas a tudo o que não mexa.

Nesta altura eu tenho o braço todo bedungado de ela me agarrar carinhosamente, o meu prato é uma testemunha da batalha de comida ainda me curso, já estou a comer com as mãos e nem sei quando é que isso aconteceu, o Z está a dar-me comida à boca e a MR tem arroz no pescoço, fruta no cabelo e sopa nos braços.
Suspiro. Olho para o Z que se está a rir a olhar para a figura dela e que diz, ‘até o chão come!’ E solto uma gargalhada a imaginar o título ‘ai comes, pode ter a certeza que comes!’ E quem estiver por perto come mesmo, se não for pelos métodos tradicionais alguma coisa lhe há de chegar, nem que seja via tópica.

Comer

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Sugeriram-nos que a MR poderia comer melhor vendo-nos comer e se tornássemos a refeição um verdadeiro momento familiar, com ritmos, posições e ações conjuntas. A verdade é que durante as férias, a partilhar um espaço com mais 6 pessoas acabavámos por conseguir fazer isto mesmo inadvertidamente. Alguém estava invariavelmente a comer nas horas das refeições da MR.

E estando a dita quase nos seus 12 mesinhos de idade resolvi descontrair um bocadinho mais e oferecer-lhe outros sabores desconhecidos vindos diretamente do nosso prato. A cachopa adorou. Ficou doida a tentar comer o pedacinho de coisinha que lhe dávamos até morder o nosso dedo. Bom, não comeu muito mais, porque nisto come um pouco menos de sopa e acaba por petiscar umas coisinhas nossas mas também não em grande quantidade, mas enfim, pelo menos não come a sopa ao nosso colo e a passear pela casa toda enquanto derruba livros e abre todas as caixinhas, etc. Fica connosco à mesa do início ao fim da refeição.

De modo que quando chegámos de férias resolvi experimentar. Sentámo-nos à mesa e jantámos todos. Ela comeu pão, sopa só foi meia, bebeu sumo de ameixa e mordiscou quase uma pêra inteira. E aguentou-se o tempo quase todo à mesa. No final lá chorou um bocadinho e lá fomos deitá-la. Voltámos, já tínhamos jantado, eu fiz uma máquina de roupa, o Z. pôs a loiça na máquina, preparei um café e olhei para as horas… 21.30h 😮 AHH!! O quê?!? Quando finalmente acabamos o ‘dia’ são 23h e estamos tão exaustos que nem loiça nem roupa na máquina, fica tudo a marinar até ao desespero do dia seguinte e salve-se quem puder… De repente olhamos para o relógio e pensamos que descobrimos a pólvora. E o sábio que nos aconselhou sabia do que falava. Se não come muito mais nós vivemos muito melhor. Todos, em paz e harmonia… 🙂