Comparações

Don’t compare your beginning to someone else’s middle.

Vi esta frase hoje, através do google, no fim de um dia difícil de trabalho e foi assim um cair que nem ginjas, como diz o meu pai.

Falava ainda há poucos dias nisto com a minha madrinha. Sobre o conseguir/ querer/ gostar de ficar em casa com um bebé. Aparentemente comigo não resulta, não resultou, não dá. Não consigo trabalhar com ela em casa nem fazer nada, mal dá para deixar a casa em dia se não tiver trabalho e a parte do ‘eu’ então, ui, nem dava para entrar aqui. Se a isto acrescentarmos o ‘nós’ então quando olham para mim já caí para o lado.

E ao pensar nisto apercebi-me, o pior de todas as comparações nem são aquelas feitas entre bebés. Sim, quando falo da minha filha imediatamente me perguntam, ‘Já anda?’ ao que respondo ‘Não.’ E todos, ‘Ah… Então já fala.’ ‘Hm, bom diz umas coisinhas, mas não sei se fala…’ ‘Ah…’ respondem as pessoas um bocado desiludidas com o espetáculo como se tivessem pago um bilhete tão caro e afinal não havia nada para ver. Mas ocorreu-me que na verdade a comparação não era entre filhos… é entre mães.

Quando a pergunta é ‘O que é que essa criança faz?’ significa na verdade ‘O que é que tu, como mãe, já a puseste a fazer.’ E pronto, está aqui a base de tudo. O que esta criança é, é um reflexo das capacidades das mães e as mães relatam as suas vidas justificando o desenvolvimento dos filhos e mostrando as heroínas que são nas várias áreas da sua vida.

Bom, a ver, também não estou a defender que o melhor seja uma rodinha de mães a ver quem tem uma vida pior, mas ocorreu-me nas palavras da minha madrinha, que esta sensação daquilo que a minha filha é e do estado de exaustão a que me senti chegar era para mim um ponto de honra de algo que me sentia responsável. As minhas capacidades. Face, claro está, Às capacidades das outras (mães).

E parece que foi sempre assim que expus o assunto. ‘Não consigo ficar em casa com ela, trabalhar ou não trabalhar, tratar de tudo, dela, de mim e de nós. Simplesmente não consigo.’ E este peso é um desabafo que traz um não-fui-capaz por trás. Como se alguém fosse. Perdão, como se importasse se alguém o é. Como se na tabela da maternidade perdesse pontos face às que aguentam.

E ocorreu-me nesta frase que não faz sentido. Comparar realidades distintas, experiências diferentes, formações diferentes, horários trocados, outros empregos, ausência deles, apoios, etc. Fica tão sem sentido como comparar o início de algo ao meio de outro, já anunciava a frase. E assim, neste sacudir de pensamentos, decido dormir sobre o assunto. Não há nada que não tenha conseguido fazer porque isso implicaria uma meta. Não há essa meta. Pode, aliás, ser qualquer uma que nos passe pela cabeça. E assim até podemos dizer que a vencemos. Passamos de perdedoras a vencedoras. Afinal está tudo na nossa cabeça. Porque não utilizar o lado melhor disso e tornar tudo mais positivo?

Consegui. Dei o meu melhor. O meu pessoal melhor. E agora decidi outro caminho, colocá-la no infantário. E até aqui consegui trabalhar com ela em casa. E consegui organizar coisas, fazer remodelações e manter a casa minimamente arrumada e limpa. Outras fizeram melhor ou pior. Para agora não importa. Esta comparação é muito simples. Só cá estou eu. E o que eu penso de mim.