Boas energias

Felizmente há dias assim. Nós saímos de casa e parece que já temos o mundo às costas. E lá vamos, entre o susto e a exaustão tratar de recados, ir a sítios que nem queríamos, tomar decisões que não queríamos tomar. A forma como o texto começa parece que nem se enquadra bem, mas já faço a ligação.

É que nestes dias sabe bem (muito bem) quando apesar de tudo encontramos as pessoas certas. Tão certas que nós fazem sentir que fizemos tudo bem. Tão bem que não só as nossas decisões são as melhores como ainda as nossas dúvidas estavam no seu devido lugar. E bem sei que parece tonto, a quem não está nesse lugar talvez, mas o maior anseio de uma mãe é ouvir ‘fizeste tudo bem, és uma excelente mãe.’ E há quem o saiba e quem no-lo diga mesmo sem o pedirmos. E nesses dias parece que alinhamos os chacras, os astros estão connosco, o mundo sorri. E não só nos pomos de bem com a vida como temos a sensação que por onde passamos deixamos um rasto de alegria, felicidade e boa energia. Só nos apetece dar beijinhos e abracinhos e não sair mais dali. Física e psicologicamente.

E assim foi, felizmente no dia que fui inscrever /pedir informações sobre a entrada da MR numa cresce. Foi uma surpresa deliciosa. Desde ter uma amiga especial que me sugeriu falar com as pessoas certas, às pessoas certas saberem exatamente o que dizer perante as minhas palavras (ou ausência delas)… No final nem foi nada do que esperava. Desde os testemunhos, ao amor que estava no ar, aos medos dissipados. Sacode culpas, pesos e outras energias negativas que só atrapalham. Era assim que todas as instituições deveriam ser. Uma confirmação da extensão da família em vez da tesoura de corte dos dias passados nos braços da mãe, madrinha, prima e avó.

E enquanto esperamos pelo início da época, a cereja no topo do bolo, deixar a bebé em casa com a minha prima pré-universitária que goza(va) as suas férias, enquanto eu retomo horários de trabalho. Uma querida, com toda a paciência do mundo, cheia de amor, beijinhos, orgulho e dedicação. Ensina a dar beijinhos, canta canções e treina ‘priii-maaa’, pois claro. E não é que a cachopa repete ‘p-ma’!? É isto, um caso de amor pegado, mútuo. A 2, a 3 e a 4 que ficamos todos deliciados, felizes e descansados. E a casa num brinco. Roupa em ordem, cozinha arrumada, refeições prontas a horas, saudáveis e frescas. E hoje quando saí de casa arranjei o cabelo vesti roupinha de passar a ferro e saia branca. Ahhh, a doce liberdade. Sabe a rosas…

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Expetativas

Todas as mães as têm. Ui, e não são poucas. Claro que diferem de mãe para mãe e de filho para filho até (suponho), mas elas andam aí, poucas (os) escapam. Eu também tenho as minhas, ou nem faria sentido vir aqui neste queixuminho.

E as minhas expetativas até eram muito simples. Ficar com o meu bebé em casa (na altura ainda por nascer) até aos seus 3 anos de vida, continuar a trabalhar, claro!, de preferência ao fim de 2 anos nascia o segundo e o terceiro vinha quando o mais velho tivesse uns 5. Perfeito. O que é que pode correr mal? Pois o pior é mesmo quando nada correu mal. A vida, poderia dizer-se, simplesmente correu. E nós, para mal dos nossos pecados, ficamos com o peso de tomar uma decisão contrária aos nossos planos. Por culpa nossa, exclusivamente algo se alterou. Então essa culpa transforma-se numa falha, e um plano tão linda desabrocha numa realidade tão desiludida.

Queria isto tudo e ao fim de uns 10/11 meses tive de perceber, no meio de uns quantos ataques de pânico, para que não restassem dúvidas de que não estava MESMO a conseguir, que não poderia estar mais neste sistema de trabalho, troca fraldas e faz jantar tudo ao mesmo tempo. Nem mesmo com toda a ajuda que tive. E por muito que já me tivessem dito que ia ser muito difícil, EU ia conseguir. Claro, EU, a invencível. Até.
 
Até experimentar a tristeza mais profunda associada à alegria mais imensa. Até experimentar novos estados de exaustão. Psicológica, de desgaste. Até perder espaço dos dois. Até perder o meu espaço. Até quase me esquecer de mim.
E claro, vem a reavaliação dos planos. 3 filhos? 9 anos seguidos em casa? Ahhhhhhhhhh! Pronto, pronto, venha lá o infantário, senão perco já a vontade antes de chegar ao segundo… E lá fui eu procurar poiso neste mundo difícil das vagas nas cresces, cheia de vontade de a ver entrar e ao mesmo tempo com a dupla sensação de que falhei e de que esta separação é dolorosa.
 
A minha madrinha ofereceu-me o livro da Sónia Morais Santos, autora do blogue ‘Cocó na Fralda’ que eu li de um trago, em 3 dias, imagine-se, fartei-me de roubar nas horas de sono mas não conseguia parar. É um livro sobre culpa. E quanto mais não seja às vezes parece que a culpabilização dos outros nos desculpa um pouco a nós, ou até a descoberta de que os medos do outro eram ridículos e isso descontrair-nos a nós, seja como for, li-o enquanto o diabo esfrega um olho. Porque é que sentimos tanta culpa? Quando na maior parte das vezes são motivos alheios à nossa responsabilidade?
 
Bom, muitas respostas são dadas e teorias exploradas neste livro, adorei todas e identifiquei-me com bastantes. Mas acredito que a realidade ainda tem uma pequena perversão escondidinha. Nós temos o poder de escolha. E já diz o povo que com grande poder vem grande responsabilidade, e esta coisa das escolhas infinitas tem este poder de de nos apontar o dedo na curva, ‘foi o caminho que escolheste’.
 
No outro dia sonhava sobre isto tudo. Ainda acordada. A parte pior de ter um bebé a dormir descansado que sabemos que acordará dentro de umas 6 horinhas é mesmo sentirmos-nos às voltas na cama, desperdiçando tempos desesperando em pensamentos (em vez de aproveitar para dormir). E a propósito de sonhos pensava esta desilusão é também uma representação de algo que se perdeu. É um luto e por isso é [uma sensação] tão pesada. Porque nestas passagens, nestas transições, encerramos uma fase para iniciar outra. E enquanto iniciamos e não iniciamos há algo anterior que tem de ser enterrado. O bebé de leite já não é meu. É da minha memória. E agora este bebé que aqui tenho é outro. Vai para o infantário e passa o dia sem mim. E aqui está, eu que jurei não ter saudades fico também às voltas na cama com esta transição. Não é terrível, quando racionalizamos isso, é só doloroso porque pensamos com o coração. Acho que nisto dos filhos é a única coisa em que podemos todos concordar. Pensamos com o coração. E nesta desculpa nos desculpabilizamos um bocadinho…