Partilhas

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As pessoas ficam em choque quando descrevemos a forma como partilhamos dinheiro e bens. Bom, na verdade não temos muitos bens, nem muito dinheiro, mas temos muita esperança e muitos sonhos. Às vezes até nos esquecemos que há quem não partilhe assim. E por isso quando o referimos e alguém reage lá nos recordamos que somos diferentes.

É que não temos contas pessoais. Quer dizer, por acaso até temos, mas temos total uso das contas um do outro. La alguém abre a boca, ‘Mas como separam o dinheiro conjunto do individual?’ ‘Não separamos’, respondemos nós. ‘Ah! E como poupam?’ ‘Como assim?! Poupamos como toda a gente, aquilo que conseguimos poupar, só que vai para uma conta conjunta.’ Faz-se uma pausa para todos absorverem a notícia enquanto imaginam as suas vidas assim. Vê-se desconforto na expressão de alguns. ‘Isso não é justo para quem ganha mais.’, la alguém tem coragem de desabafar. ‘Bom, nós não pensamos assim. Achamos que a nossa vida é uma conquista a dois, ainda que sejamos pessoas individuais, acreditamos que a partilha é algo melhor do que somas de conquistas individuais.’

Não sei se as pessoas se convencem com esta explicação, mas entre isso e achar que não vale a pena discutir com loucos lá se esfumam os comentários perguntas. Repare-se, não digo que a minha versão seja melhor que a de ninguém. Mas é sem dúvida a minha, neste caso, a nossa. E por isso claro que a defendo.

E até explico melhor. É porque não seria capaz. Capaz de me relacionar com alguém tão intimamente ao ponto de vivermos juntos e não partilharmos uma coisa tão básica, momentânea e contextual como o dinheiro. Virtual, ainda por cima. Um papel ao qual foi atribuído um valor através do qual obtemos coisas. Essas sim verdadeiramente importantes porque nos permitem Gerir a nossa vida física. E ainda que importantes essas nem são as mais importantes. Porque essas nem são coisas. São afetos, pessoas. Estas sim temos de ter muito cuidado na escolha da pessoa com quem as partilhamos. Mas se chegamos a este ultimo patamar como podemos não ter ainda aberto as portas ao primeiro? É só isto, para mim não me faz sentido.

Mas, para mim há mais. Não querendo dizer que a minha é a versão correta estou ainda hoje à espera que me dêem uma razão plausível e não mesquinha do porquê manter as contas separadas. Todas as frases que se possam inventar vão parar ao meu, teu, menos, mais, melhor, pior. E como princípio não gosto muito de os usar.

Novamente, não digo que a minha versão seja a melhor. Ou sequer que eu tenha a relação perfeita. Ui, muitos posts podia e hei de escrever sobre isso. Mas defendo aquilo em que acredito. E como diz o padrinho da minha filha, ‘é só dinheiro, não é nada importante.’

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O valor do dinheiro

maos trabalhador

Um menino vivia na África do Sul com os pais que trabalhavam para juntar dinheiro e regressar ao seu país. Como todos os meninos gostava de brinquedos. Um dia viu um brinquedo e pediu à mãe que o comprasse. Esta respondeu-lhe que não poderia ser, que era demasiado caro e não havia dinheiro. E o menino retorquiu que eram apenas 2 rands, não era caro. No entanto os seus argumentos pareciam não ter demovido a mãe da sua decisão e foram os dois para casa, com o rapaz claramente zangado. Quando o pai chegou a casa encontrou-o mal-humorado, perguntou-lhe a razão e ouviu as suas queixinhas… ‘Eram só 2 rands’, dizia.

-Sim, mas quanto é que isso vale?

-2 rands é pouco!

-Sabes qual é o valor do dinheiro?

-Não.

E mostrou-lhe as suas mãos grandes, fortes, cansadas do seu trabalho de torneiro mecânico, sujas do óleo que não sai na lavagem, as duas, uma ao lado da outra, e disse-lhe,

-Este é o valor do dinheiro.

O menino ficou calado a olhar para as mãos do pai. Não voltou a pedir esse nem outros brinquedos e seguramente entendeu o valor do dinheiro.

Esta estória aconteceu há uns 30 anos, o menino é o meu cunhado e os pais os meus sogros. Num mundo onde o consumismo parece ser a regra “que [rege] pedras e gentes” (Fernando Pessoa) é bom ouvir alguém que tentou mostrar com afeto o valor dos objetos comprados mostrando a importância do trabalho. Numa sociedade cada vez mais exigente dos seus direitos mas que parece muitas vezes ter esquecido os seus deveres lembrei-me desta estória. Talvez faltasse a alguns jovens do momento desta aclamada ‘geração à rasca’ esse entendimento do valor do dinheiro, do valor do trabalho. O meu marido que cresceu nestas (boas) ideologias sai de casa 1 hora mais cedo em dias de greve. Tive colegas de trabalho que diziam que por causa da greve chegariam 1 hora mais tarde ao trabalho. São modos diferentes de pensar.

Quando me casei disse várias vezes que ganhei mais que um marido, ganhei amigos muito especiais, ganhei uma família maravilhosa. O meu sogro é um contador de estórias nato e até gosta de escrever uns contos de vez em quando. É para mim um orgulho pertencer a esta família, a estas estórias, a estas pessoas.