Sol de inverno

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Há tanto tempo que não punha aqui os pés… nem as mãos. Em vez disso tenho -me concentrado em despachar uma série de trabalho que apertou um pouco mais nesta fase e o que sobra… Não resisto e ponho os pés na rua. O Sol no inverno tem qualquer coisa. É como a chuva no verão. Saímos todas. Esta casa é espaço das mulheres. De dia é só xx, somos as duas cá de casa e mais a minha madrinha uns dias e noutros a minha avó. Agora chegou a minha priminha do Brasil e vem nas vezes da minha avó. Ainda somos mais mulheres. Despacho o máximo de trabalho até antes da mamada da tarde e vamos todas apanhar ar fresco até à beira-rio. Que delícia esta terra. Quando fica banhada pelo Sol parece que escreve poemas na calçada, no rio, nas casas.

E não sobra mais tempo. Aqui a usurpadora de minutos é a caganita. Alguma coisa tem de ficar para dormir, o terceiro sortudo é o trabalho e depois vêm as obrigações de quarta geração, roupa, loiça, arrumações, etc. Só depois disto tudo aparece aquela coisa dos mimos a dois (três) e já nem me lembrava mas parece que falto eu. E o meu blogue. São momentos meus. Que fazem a minha sanidade mental. É assim tão importante, sim. E há semanas que não parava. Escolhi o Sol. Escolhi pintar unhas 🙂 Também não foi mau.

No entanto aquilo que queria dizer é que não tive muito tempo de sobra, de facto. A MR começou a romper dentinhos 🙂 Uma delícia mesmo… E uma trabalheira. Está uma ternura esta miudinha, uma doçura. Ficou meio adoentadinha, frágil, e muito carente. Assim aquele carente que as mães gostam. Perdão, adoram. Vá confessemos, aquele beicinho, aqueles bracinhos estendidos só para nós… Até esconde a cabecinha no meu ombro e deixa-se ficar quietinha para os beijinhos. Sempre com aquele pinguinho de babita no meio do lábio e os olhos postos na minha alma. É mel… e eu sinto-me o ursinho puff a recusar-me resistir à sua tentação.

E então não tenho direito de fazer nada, fica a pedir-me desesperadamente, eu sento-a e ela atira-se para o meu pescoço (agora usa e abusa desta coisa de saber pedir colo, saltita no colo de todos a estender bracinhos e achar graça), agarra-se a mim, enterra a cabeça no meu peito, olha-me intensamente e volta a enterrar-se no meu peito.

Mas por muito que ame esta ternura e me derreta nestes beicinhos fico assim de coração partido, chorando um bocadinho por dentro ao imaginar a dor que leva a sua cabecinha ao meu ombro (e às vezes até chora…) E parte de mim não consegue desfrutar deste carinho que traz um bocadinho de angústia.

Não consigo deixar de pensar que esta coisa dos dentes de certa forma é uma representação da separação dos filhos das suas mães. É a altura em que vão necessitar de outros alimentos para além do leite da mãe, começam a ter uma certa independência nas brincadeiras, no controlo do seu corpo, já dormem mais sossegados noites completas, já vão dormir para o quartinho deles, e não consigo achar coincidência esta dor, esta ideia do ‘romper’, ‘rasgar’. É uma época de mudança, de mudanças. De crescimento. E nada melhor que um bocadinho de dor para ajudar a crescer. E Sol. Ajuda a medrar 🙂