Dores

‘Quando a cabeça não tem juízo/ O corpo é que paga’. Lembro-me de ouvir esta letra várias vezes e de achar a canção um bocado até sem graça. Foi preciso crescer, e sim, confesso, ver alguns grupos portugueses reinventar o cancioneiro de António Variações para me apaixonar pelas suas letras. Pela sua capacidade de síntese, por ser tão certeiro, pela sua pureza e até pelas melodias.

Tenho andado com imenso trabalho e privilegiando estar com a MR em casa trabalho o que consigo durante o dia e de noite vingo-me profundamente. Podia dizer-se que vivo como morcego, mas a verdade é que apesar de me deitar pelas 3 horas da manhã acabo por acordar na mesma pelas 7, vá 8 horas, num dia bom. E portanto não vivo como um morcego, a verdade é apenas que não durmo (muito).

Mas não é só isso… Bem sei que agora todos dirão, ‘oh, então o que é que querias?!’, mas mesmo assim arrisco contar. É que salto refeições. Não tenho tempo. A minha prioridade é ela. Depois o trabalho. Depois nós. Depois o Z e depois eu. E nunca sobra tempo para eu comer. Quer dizer, sobra vai sobrando e nessas sobras lá vou comendo…

E este fim de semana acordei cheia de dores abdominais… Dores que se foram intensificando loucamente apesar dos ben-u-ron’s e buscopan’s e todas as posições que me pudesse lembrar de adotar… Até que o inevitável aconteceu e tive de ir ao hospital, com suspeita de apendicite.

Depois de esperar muitas horas  para ser atendida e pensando em todo o tipo de coisas (porque é que me sinto tão vulnerável desde que a minha filha nasceu? Parece que carrego o mundo às costas e que todos os males esperam oportunidade de entrar!), lá fui atendida, carrega daqui, grita dali, raio-x e… voilá! Um túnel de ar acumulado e sem conseguir sair. Resultado, dores atrozes semelhantes a apendicite mas que eram resultado de algo, felizmente!, bem mais simples.

E lá vim para casa, o Z a rir e a citar Rei Leão, da Disney ‘Pumba, p’ra ti tudo é gás!’ Enfim, eu é que não achava muita graça que doía e bem… e pus-me a pensar se estaria a fazer algo errado… Talvez António Variações tenha razão e precise de ter mais cuidado… Ou o corpo é que paga.