Super-mulher

‘O que é isto? Uma imagem arrastada? Um pássaro? Um avião? Ou um furacão?’ ‘Não! É a super-mulher!’ Perdoem-me o cliché mas não resisti começar assim. Na verdade a super-mulher não voa, nem é elástica, é ‘só’ uma mulher com forma (mais ou menos) humana que vive entre nós e consegue fazer (tudo) o que quer.

Tenho dias assim. Não são exatamente dias em que eu possa dizer que fiz tudo o que queria. Mas desde que me levanto que é um corrupio de afazeres e no final do dia lá consigo gabar-me durante 10 minutos exaustivos sobre todas as coisas que consegui enfiar em 16 horas super produtivas.

Começo por levantar-me, banho, papa à miúda- às vezes é o pai, enfiar o meu pequeno-almoço no bucho, ainda corto as unhas à caganita, visto-a, acabo de me vestir, saio de casa, infantário, caminho para a empresa a fazer telefonemas, manhã de trabalho intensa porque o tempo é pouco, ir a casa na hora de almoço, tirar loiça da máquina, pôr roupa a lavar, arrumar a mesa dos pequenos-almoços, fazer bicicleta em 20 min, almoçar em 15 e seguir para a empresa, ser super produtiva, sair a correr, ir buscar a avozinha que já não a via há quase uma semana, ir buscar a bebé, chegar a casa, fazer um empadão de arroz, fazer sopa, fazer os almoços até ao fim da semana, ainda conseguir fazer um bolo, dar banho a coisinha chata que já está a refilar, dar-lhe jantar que hoje o marido chega tarde, servir o jantar para 3, entregar a chata ao pai para o o-ó, fazer chá para a avozinha e cair no sofá enquanto o marido leva a avó a casa…

Quando chega a casa finalmente o meu homem vê o meu ar e diz-me ‘mas porque é que tu queres ser a super-mulher?!’ E eu não quero querido. Não. Eu não quero nem preciso de ser a super-mulher. Eu só quero ter o que a super-mulher tem. A super-mulher tem a casa arrumada, uma carreira de sucesso, tem tempo para os filhos, mesmo que tenha uma equipa de futebol a viver lá em casa, é linda porque tem tempo para si, trata bem o marido e é tão feliz. À super-mulher não lhe falta nada. E às vezes, há dias, em que é isso mesmo que eu quero. Que eu quero sentir que tenho. Tudo.

Comer

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Sugeriram-nos que a MR poderia comer melhor vendo-nos comer e se tornássemos a refeição um verdadeiro momento familiar, com ritmos, posições e ações conjuntas. A verdade é que durante as férias, a partilhar um espaço com mais 6 pessoas acabavámos por conseguir fazer isto mesmo inadvertidamente. Alguém estava invariavelmente a comer nas horas das refeições da MR.

E estando a dita quase nos seus 12 mesinhos de idade resolvi descontrair um bocadinho mais e oferecer-lhe outros sabores desconhecidos vindos diretamente do nosso prato. A cachopa adorou. Ficou doida a tentar comer o pedacinho de coisinha que lhe dávamos até morder o nosso dedo. Bom, não comeu muito mais, porque nisto come um pouco menos de sopa e acaba por petiscar umas coisinhas nossas mas também não em grande quantidade, mas enfim, pelo menos não come a sopa ao nosso colo e a passear pela casa toda enquanto derruba livros e abre todas as caixinhas, etc. Fica connosco à mesa do início ao fim da refeição.

De modo que quando chegámos de férias resolvi experimentar. Sentámo-nos à mesa e jantámos todos. Ela comeu pão, sopa só foi meia, bebeu sumo de ameixa e mordiscou quase uma pêra inteira. E aguentou-se o tempo quase todo à mesa. No final lá chorou um bocadinho e lá fomos deitá-la. Voltámos, já tínhamos jantado, eu fiz uma máquina de roupa, o Z. pôs a loiça na máquina, preparei um café e olhei para as horas… 21.30h 😮 AHH!! O quê?!? Quando finalmente acabamos o ‘dia’ são 23h e estamos tão exaustos que nem loiça nem roupa na máquina, fica tudo a marinar até ao desespero do dia seguinte e salve-se quem puder… De repente olhamos para o relógio e pensamos que descobrimos a pólvora. E o sábio que nos aconselhou sabia do que falava. Se não come muito mais nós vivemos muito melhor. Todos, em paz e harmonia… 🙂

F de férias

Ser o filho do patrão é do pior que há. Nem se é o patrão, nem se é colaborador. É aquela posição que não tem a maior responsabilidade, nem tem o descanso. Nem o maior nem o menor ganho. Se algo ameaça correr mal assombra a culpa… é muito pior que a responsabilidade. E se corre bem é espetacular ficamos muito felizes. Que tenhamos feito um bom trabalho e que possamos ajudar a família. Fomos bons trabalhadores. Mas o ganho não é exatamente nosso. É dos nossos e de todos nós. O coletivo.

Enfim, acho que só me entende quem esteve ou está na situação. Porque pior de tudo são mesmo as férias. Um patrão tem férias quando quer. E nunca recusa trabalho, ou seja, se houver trabalho quando tira férias, paciência, nem reclama, está lá. O filho do patrão tira férias mais ou menos como tiram os colaboradores. E tem uma ou outra benesse do patrão. Mas quando o trabalho vem, lá está, há que trabalhar.

E às vezes é uma posição que acaba por acontecer. Não é exatamente planeada, nem seguramente evitada. Mas vem, instala-se e depois não há muito a fazer. Diz-se então por aí que a primeira geração constrói, a segunda mantém e a terceira destrói. Já estou seguramente na segunda geração, mas gostava de acreditar que posso participar na construção e não apenas na manutenção. Defeitos de profissão de arquiteta… Mas dá trabalho. Muito trabalho…

E as férias… Lá se encaixam como se podem. E mesmo quando alguma coisa sobra para estes dias sempre pensamos ‘Pelo menos estamos de férias’, mesmo enquanto tratamos de trabalho.

Mais queixinhas…

Hoje estou numa de queixinhas. Não consigo parar. Às vezes fico de saco cheio e se não sair acumula, enquista… Então mais vale deitar cá para fora. Sim, eu sei, torna-se chato, mas é já por isso que aviso no início do post. Quem quiser não lê e volta no próximo…

O João Miguel Tavares escreveu um artigo há pouco tempo sobre esta coisa de ninguém falar dos homens-pais. Que as mulheres conquistaram nos últimos anos o espaço para se queixarem e toda a gente já ouviu que as mulheres têm de conciliar vidas muito preenchidas e difíceis, mas que parece que deixaram de falar nos homens. E que agora eles são pais, estão presentes e ajudam nas tarefas da casa. E ninguém fala deles e eles também têm vidas difíceis e exigentes. Concordo. É verdade e ainda bem que o escreveu. E até falou de imensas outras coisas numa grande lição de história e que eu não me atreveria a resumir em duas linhas. O Z, que detesta ler artigos enormes, leu e lambeu este artigo e até o postou no seu mural facebokiano e mandou para mim, ‘Vês, vês, vês?!’ Ok, já vi, tudo bem, sim senhor. É verdade. Para além de estar muito bem escrito.

Mas, sim, vem lá o mas… Assim que um homem diz isto, conta o que faz, que trabalha e é pai e ajuda em casa, corre toda a gente a fazer comentários, ‘que bom homem’, ‘tão amigo da mulher’, pai dedicado’, etc. E é verdade. Mas, novamente, para que alguém diga isto de uma mulher… ui… coitada, não invejo a vida que leve porque deve mesmo ser uma mártir.

É que geralmente os homens não fazem este tipo de comentários. Nem a homens nem a mulheres. Estas palavras são das mulheres. E as mulheres não gabam as amigas, familiares ou conhecidas por coisas que elas sentem que estão fartas de sempre fazer.

E não entendo esta lógica. Porque se defenderiam também a si próprias ao defender o trabalho das outras. Mas parece que preferem o caminho do desdém, será isso? Não quero ser injusta mas realmente às vezes sinto-me exausta. De trabalhar com a minha filha em casa. De lhe dar todas as refeições, ainda tratar da casa diariamente, fazer refeições, dormir 4 a 6 horas diárias sempre e no fim ainda ouvir que o meu marido tem de descansar… Pois tem, trabalha, muito, e faz imenso em casa (porque não haveria de fazer se eu também faço??), e está com a filha (nas horas possíveis do seu dia), mas não acho que tenha de descansar mais do que eu tenho ou preciso. ‘É diferente tu estás em casa’. E pronto, meu senhores aí está.

Nunca vou entender isto, mas das mulheres exige-se, não sei muito bem porquê, não sei muito bem o quê… Eu explico. Se trabalhamos em casa temos mais é de estar caladinhas porque não é a mesma coisa que trabalhar na rua, porque quem está num escritório cansa-se muito mais do que quem está sentado, refastelado, a trabalhar em casa. Nem discutam isto por favor, todo o mundo sabe e quem trabalha em casa, só por isso devia ter vergonha. Ainda para mais não tenho nada que me queixar porque temos ajuda de uma empregada doméstica uma vez por semana, coisas que EU deveria fazer e tratar, uma vez que estou refastelada em casa (se tenho tempo para trabalhar também tenho tempo para dobrar roupa e pôr loiça na máquina). E se o meu marido ganha mais que eu, nem que sejam 100 € é ele que paga estas comodidades. E se sou eu que ganho mais devia ter mais vergonha ainda por estar em casa e ganhar mais por isso. Mas se a mulher trabalha fora de casa, tal como o homem… bom, aí tem duas hipóteses, ou é uma coitadinha que não tem outras ‘possibilidades’ (há algo nesta palavra que me deixa absolutamente doida…) e coitadinha, lá vai ela ganhar ‘mais algum’, ou se é uma profissional consagrada e retira prazer do trabalho, e então é uma sacana que não quer saber da família e, imagine-se, ainda é o marido que tem de ir buscar os meninos à escola, coitadinho (do marido e dos meninos).

Será que isto é uma coisa das mulheres? Das mulheres? Para as mulheres? Porque também ninguém defendeu o trabalho das que falam, porque haveriam agora de falar bem das outras? É isso? Ou isto das novas posições nas novas sociedades ainda estão a ser conquistadas?

Não sei, hoje estou especialmente cáustica, é verdade, mas às vezes parece-me que as pessoas se chateiam verdadeiramente é com o bem que estamos com as coisas. Para já, só estão bem a criticar e portanto cada um se incumbe de se rodear de gente que pensa da mesma forma para se proteger e não ser tão atacado, e depois adoram julgar. Julgar quem tem prazer ou está de bem com a vida. Ui, esses são os piores. Toda a gente preocupado em levar uma vida difícil e depois aparece quem se queira rir das dificuldades? Ou é maluco ou um sacana. É o que vos digo…

Dores

‘Quando a cabeça não tem juízo/ O corpo é que paga’. Lembro-me de ouvir esta letra várias vezes e de achar a canção um bocado até sem graça. Foi preciso crescer, e sim, confesso, ver alguns grupos portugueses reinventar o cancioneiro de António Variações para me apaixonar pelas suas letras. Pela sua capacidade de síntese, por ser tão certeiro, pela sua pureza e até pelas melodias.

Tenho andado com imenso trabalho e privilegiando estar com a MR em casa trabalho o que consigo durante o dia e de noite vingo-me profundamente. Podia dizer-se que vivo como morcego, mas a verdade é que apesar de me deitar pelas 3 horas da manhã acabo por acordar na mesma pelas 7, vá 8 horas, num dia bom. E portanto não vivo como um morcego, a verdade é apenas que não durmo (muito).

Mas não é só isso… Bem sei que agora todos dirão, ‘oh, então o que é que querias?!’, mas mesmo assim arrisco contar. É que salto refeições. Não tenho tempo. A minha prioridade é ela. Depois o trabalho. Depois nós. Depois o Z e depois eu. E nunca sobra tempo para eu comer. Quer dizer, sobra vai sobrando e nessas sobras lá vou comendo…

E este fim de semana acordei cheia de dores abdominais… Dores que se foram intensificando loucamente apesar dos ben-u-ron’s e buscopan’s e todas as posições que me pudesse lembrar de adotar… Até que o inevitável aconteceu e tive de ir ao hospital, com suspeita de apendicite.

Depois de esperar muitas horas  para ser atendida e pensando em todo o tipo de coisas (porque é que me sinto tão vulnerável desde que a minha filha nasceu? Parece que carrego o mundo às costas e que todos os males esperam oportunidade de entrar!), lá fui atendida, carrega daqui, grita dali, raio-x e… voilá! Um túnel de ar acumulado e sem conseguir sair. Resultado, dores atrozes semelhantes a apendicite mas que eram resultado de algo, felizmente!, bem mais simples.

E lá vim para casa, o Z a rir e a citar Rei Leão, da Disney ‘Pumba, p’ra ti tudo é gás!’ Enfim, eu é que não achava muita graça que doía e bem… e pus-me a pensar se estaria a fazer algo errado… Talvez António Variações tenha razão e precise de ter mais cuidado… Ou o corpo é que paga.

It takes a village to raise a child

É uma expressão anglo-saxónica. E sempre achei exagerada. Até que fui mãe. Diz a minha madrinha, ‘Quando és mãe deixas de ter certezas’, referindo-se aquelas opiniões que costumávamos guardar debaixo do braço e estavam ali sempre prontas para (a)tirar. Hoje dou-lhe razão.

Já disse isto várias vezes. A maternidade é a coisa mais da minha vida. Mais… mais tudo. Mais. E no entanto queixo-me. Tenho de me queixar. É tão difícil. A MR está frágil. Mais um dentinho. Agora parece que é um por mês. Muita sorte que não tem dado coisas mais complicadas, há bebés que adoecem e tal, mas está difícil. Mas tal como a Vitória, a MR é difícil mas é nossa. E por isso bola para a frente, queixinhas daqui e dali e lá vão passando os dias (devagarinho).

Hoje estava zangada. Acordou cedo, mamou e depois voltou a dormir. Mas estava cheia de mimo. E quando acordou não queria nem por nada ficar sentada na cadeirinha, nem no sofá nem nada que não fosse colo da mãe. E esfregava os olhos e choricava… e eu lavei os dentes com ela a chorar, pus os cremes com ela ao colo e vesti-me com ela a chorar outra vez… Decidi saltar o banho por votação unânime dos presentes, eu e ela. Atei o cabelo (ai, que eu te corto!) como quem arregaça as mangas prevendo trabalhos difíceis. Vamos a isto… (um pouco sem ânimo perante um estado que se arrasta há uma semana)

E a arrastar-se com o estado frágil da criança, vem a casa. Numa confusão, numa bagunça. E eu a sentir-me enlouquecer. Esta coisa de ter a casa arrumada é precisa à alma. Ainda para mais, com o meu defeito de profissão, preciso de ter a minha casa bela. Naquele conceito de estética que passa pela ordem e pelo belo. Como dizia o meu professor de projeto na faculdade, ‘Pode ser bom, aparentemente, mas se não for belo não vale a pena’. E no final o motivo é apenas esse. Poder atingir o belo.

Mas até o cisne mais lindo um dia foi o patinho feio, e com esse pensamento lá me convenço que esta dificuldade toda há-de originar uma mulher maravilhosa, uma família equilibrada e orgulho na minha pessoal prestação. Mas essa visão fala de um futuro. O presente custa sempre um bocadinho mais.

E hoje sem banho nem ordem nesta casa, nem em mim, peguei na criança que passeava no meu colo há mais de 1 hora sem pregar olho e saí de casa. A choviscar e tudo. A avó constipada não podia vir, a madrinha de férias, a mãe no trabalho, liguei a uma amiga especial e fomos apanhar ar. Uma lufada de ar fresco. Literalmente. E pensei nisto mesmo. Conhecem aquela, ‘quantos macacos são precisos para ligar uma lâmpada?’ Já não me lembro do fim da anedota. Mas para criar uma criança? Um aldeia inteira. Quem não está a tratar da criança está a ajudar a mãe. Às vezes chega a ser mais pertinente…