F de férias

Ser o filho do patrão é do pior que há. Nem se é o patrão, nem se é colaborador. É aquela posição que não tem a maior responsabilidade, nem tem o descanso. Nem o maior nem o menor ganho. Se algo ameaça correr mal assombra a culpa… é muito pior que a responsabilidade. E se corre bem é espetacular ficamos muito felizes. Que tenhamos feito um bom trabalho e que possamos ajudar a família. Fomos bons trabalhadores. Mas o ganho não é exatamente nosso. É dos nossos e de todos nós. O coletivo.

Enfim, acho que só me entende quem esteve ou está na situação. Porque pior de tudo são mesmo as férias. Um patrão tem férias quando quer. E nunca recusa trabalho, ou seja, se houver trabalho quando tira férias, paciência, nem reclama, está lá. O filho do patrão tira férias mais ou menos como tiram os colaboradores. E tem uma ou outra benesse do patrão. Mas quando o trabalho vem, lá está, há que trabalhar.

E às vezes é uma posição que acaba por acontecer. Não é exatamente planeada, nem seguramente evitada. Mas vem, instala-se e depois não há muito a fazer. Diz-se então por aí que a primeira geração constrói, a segunda mantém e a terceira destrói. Já estou seguramente na segunda geração, mas gostava de acreditar que posso participar na construção e não apenas na manutenção. Defeitos de profissão de arquiteta… Mas dá trabalho. Muito trabalho…

E as férias… Lá se encaixam como se podem. E mesmo quando alguma coisa sobra para estes dias sempre pensamos ‘Pelo menos estamos de férias’, mesmo enquanto tratamos de trabalho.

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Semanas (e férias)

Com os feriados o Z. aproveitou para tirar férias. Uma delícia. Começávamos sexta e só acabava no outro domingo, ou seja este. Íamos à praia pela primeira vez com a MR, íamos descansar, ele poderia correr, eu punha coisas em dia, íamos pendurar quadros… enfim. Errrrrrrr… Nada disso. Tive trabalho, imenso trabalho. É delicioso. Quer dizer quando fico assim cheia de trabalho vibro. Parece que os meus poros se alinham todos e ficam qual crentes numa igreja a vibrar ao som de Gospel. Não penso em doenças, fico focada. A minha pupila fica dilatada e parece que entro num plano de cinema em que estou parada e tudo à minha volta se mexe a um tempo diferente do meu.

Desde que a MR nasceu que eu não conseguia fazer isto. Ela era o meu foco, a minha atenção. Desde que o Zé foi ganhando mais protagonismo como pai eu pude ir encontrando outros espaços para além de mãe. E este é um espaço fabuloso, onde faço coisas acontecer, onde sinto que posso mudar o mundo, e mudo mesmo, uma casinha de cada vez.

Mas o trabalho vem em alturas não programadas. E quando calha nas férias do marido é uma pena. É ótimo porque fico descansada, e todas as refeições estão asseguradas e ela está bem e eu fico mais disponível, mas desencontra-nos aos dois. Deitamo-nos a horas diferentes, levantamo-nos a horas diferentes, comemos em 15 minutos apenas. Não há passeios em família, porque todos os bocadinhos são para trabalhar ou reunir com clientes, fornecedores, etc.

A caganita já diz mamã e agora di-lo nas situações em que mais me aperta o coraçãozinho, depois de eu sair ou quando fecho a porta da casa de banho e vou tomar um banho. Só me apetece voltar para trás e correr a abraçá-la e beijá-la e, e, e… E é o que faço. E salto e aperto-a e fico louca com aquele ‘mamã’.

E passada esta semana tão intensa, em que não dormi quase nada, de desencontros e ausências para dar lugar a outras presenças, sentamo-nos no sofá de domingo e olhamos um para o outro constatando que precisamos de umas férias. A 3 desta vez 🙂

Princesa

Modo férias. Uma delícia. Fiz as malas um pouco a imaginar-me ter de a passear pelos corredores da Pousada, escolhi calçado confortável e roupa versátil. Pensei, ‘Paciência, se chorar mais chorou, estamos de férias bolas, nada de stressar…’ E lá fomos nós. Frescos e fofos. Tão frescos e tão fofos que ela esteve melhor que nunca. Em perfeita sintonia e harmonia connosco. Durante o jantar entretida no carrinho durante 2 horas, as noites, sem um ai, o mel, os risos… uma delícia. Foi isso mesmo, estava de se comer.

A minha madrinha diz que se sente rejuvenescida. Muita generosidade sua atribuir tamanha sensação de felicidade e juventude à minha filha. Mas é verdade que as crianças e os bebés têm o poder único no mundo de nos fazer sentir isto. Enquanto cuidamos de um bebé sentimos que ainda estamos jovens, lúcidos, capazes e com força. Sentimo-nos cheios de vitalidade. Com a força de quem vai para o trabalho pela primeira vez, todos os dias.

Eu sinto-me assim, a boca do mundo. É difícil explicar esta sensação, sobretudo a quem não é mãe, mas sinto-me capaz de todo. A mais feroz das feras, a mais terna flor, tudo ao mesmo tempo. Sagaz e frágil, capaz e com dúvidas. A parte mais importante de mim é um ser exterior ao meu corpo, mas com uma presença tão física no meu cérebro. Este ser é a minha vida, e só as mães entendem o tamanho de cada uma destas palavras.

E quando saímos à rua o sorriso vem-me estampado na cara. Duas vezes. É reflexo do sorriso interno que carrego mais a impressão do olhar dos outros e das palavras que nos atiram, ‘Tão linda!’, ‘Parece uma princesa’, cheguei a ouvir ‘Ela é tão… minhoni.’ 🙂 E o meu coração aquece. Todos se metem connosco e desejam felicidades e muita saúde e tudo de bom. Fico tão com a sensação que sou a boca do mundo, como se fosse a sua palavra, a razão, o tema da coisa, que no outro dia alguém gesticulava à minha frente, quando eu segurava a MR, e eu perguntei com um sorriso ‘É para mim?’ ao que me respondeu a rir, ‘Não, não é para o senhor de trás’.

É esse o poder das crianças. Fazem-nos sentir fragilizados e poderosos no mesmo capítulo. Conseguem transformar os nossos medos nos medos deles que depois nós acalmamos e usamos para nos tornarem mais fortes. Fazem-nos sair à rua e provocam um rasto de sorrisos ais e uis por onde passam. E fazem-nos pensar que as férias já não vão ser como dantes e vai-se a ver são bem melhores. As conquistas são tão maiores que até nas coisas que se tornam mais complicadas as escolhemos fazer com eles. Porque sem a sua babita, o seu chorinho, as mãozinhas sujas de papa na nossa roupa, os olhares cúmplices e ternurentos dos outros pais, já nem tinha (tanta) graça. ❤

Ferinhas :-)

Foi assim, uns diazinhos em família muito especiais,  numa casinha escondida no meio da Serra, só nós,  só os mais especiais. A casinha é a dos meus padrinhos, a coisa mais linda, gostosa e acolhedora que já se viu. E os meus padrinhos uns generosos sempre a querer partilhar aquele espaço tão especial com a família e amigos. Foram os meus pais e mano,  os meus padrinhos e os padrinhos da minha filha (e nós, claro! ). A madrinha da miudinha acabou por não poder vir que foi para todos uma pena imensa.

O fim de semana prolongado foi basicamente dormir,  comer, ver filmes, passear, neve e cuidar da caganita. Sim, para além de ser uma pessoinha a minha filha está naquela fase em que alguém está sempre com ela a todos os minutos do seu dia. Todos os minutinhos…

Eu explico.

Comprámos uma daquelas máquinas vigia bebés (nos EUA até se chamam nanny cam- porque vigiam sobretudo as amas das crianças), toda xpto, faz tudo,  até o pino, e se isto não é a câmara caseira melhor e mais avançada do mundo inteiro então eu estou mesmo muito desatualizada. Basicamente o bebé fica no seu quartinho enquanto os papás se podem afastar até 100 metros com um monitor que está ligado à câmara junto ao bebé. Podem ouvir o bebé até a respirar fundo, podem vê-lo com uma nitidez assustadora sem um pingo de luz no quarto,  podem rodar a câmara 360º em todas as direções, podem pôr musiquinhas para o bebé,  ou cantar-lhe ou falar-lhe,  ampliar a imagem,  aumentar o som até uma formiga a passar parecer um elefante,  tudo isto à distância que quiserem dentro dos tais 100 metros. Só não aconchega o bebé se ele se destapar nem muda fraldas- o que é uma pena, pois as vendas claramente disparariam.

Pois esta tecnologia toda não foi,  ainda assim suficiente para a minha querida filhinha. Não. A câmara tem mãozinhas? Não?! Então não há mãozinhas não há bolachinhas, vá de reclamar com o bichinho electrónico até ele trazer a mãozinha da mãe. Sim porque aqui o meu amorzinho mais pequeno gosta é de dormir de mão dada com a mamã. Sim, já estão mesmo a ver o que isto significa de noite, estou a poucas noites de ficar irremediavelmente assimétrica,  com o lado para onde me viro muito mais pequeno (por esmagamento) do que o outro. Mas mais do que isso, implica que eu não me posso afastar até aos 100 metros prometidos mas sim até 100 milímetros mais reais.

Com isto,  e apesar da tecnologia avançada, de passarmos o dia a brincar,  a cantar e a viver para a minha filha isso não lhe chegou, não. E a parte em que vimos filminhos não menti. Lá estávamos nós todos em surdina e a rir para dentro e ela… no meu colinho. A dormir até nos irmos deitar definitivamente e ter a minha mãozinha só para si. Uma possessiva esta miúda. Sai mesmo à mãe 🙂